Sutura de Tendão de Aquiles: O desafio da carga progressiva na reabilitação

Sutura de Tendão de Aquiles: O desafio da carga progressiva na reabilitação

Você olhou para trás achando que alguém tinha te chutado ou atirado uma pedra na sua perna. Mas não havia ninguém. Esse é o relato clássico de quem rompe o tendão de Aquiles. Depois da cirurgia, você acorda com a perna imobilizada e uma dúvida gigante: “Quando vou poder pisar de novo?”. Antigamente, a resposta era ficar meses sem colocar o pé no chão. Hoje, a ciência nos mostra que o tendão, assim como nós, não gosta de ficar parado.

A reabilitação do Aquiles é uma das mais desafiadoras da ortopedia. Não porque é difícil fazer o exercício, mas porque exige uma precisão cirúrgica na dosagem da carga. Se colocarmos carga de menos, o tendão cicatriza fraco e a panturrilha atrofia para sempre. Se colocarmos carga demais ou cedo demais, o tendão “estica” e perde a capacidade de gerar potência, ou pior, rompe de novo.

Neste artigo, vamos conversar sobre esse equilíbrio fino. Quero que você entenda o que está acontecendo dentro do seu tornozelo enquanto você está deitado no sofá com a perna para cima. Vamos desmistificar o medo de pisar e te mostrar como a fisioterapia moderna usa a carga progressiva para transformar uma cicatriz frágil em um cabo de aço capaz de te fazer correr novamente.

A Biologia da Cicatrização: Por que o tendão precisa de carga?

O mito do repouso absoluto: Como a carga organiza o colágeno

Por muito tempo, acreditou-se que o tendão precisava de “paz” absoluta para colar. O problema é que o corpo é preguiçoso. Se você não diz para ele (através do movimento) que aquele tecido precisa ser forte, ele cria uma cicatriz bagunçada e fraca. O colágeno, que é a fibra que forma o tendão, precisa de tensão mecânica para se alinhar.

Imagine jogar um punhado de espaguete cru no chão. Ele fica todo desordenado. Isso é o colágeno sem carga. Agora imagine pentear esse espaguete para que todos fiquem na mesma direção. Isso é o que a carga faz. O peso do seu corpo e a contração muscular “penteiam” as fibras novas, tornando o tendão capaz de suportar tração. Sem carga, temos um emaranhado fibroso inútil.

O medo de “esticar” o tendão e perder a tensão

Aqui mora o maior pesadelo do cirurgião e do fisioterapeuta: o alongamento (elongation) do tendão. Se formos agressivos demais no alongamento nas primeiras semanas, o tendão cicatriza “mais longo” do que deveria. Um tendão frouxo é como um elástico velho; ele não tem pressão para gerar força de explosão na caminhada ou corrida.

Por isso, nas fases iniciais, a carga é sempre protegida. Usamos calços no calcanhar dentro da bota para manter o pé apontando para baixo (equino). Isso permite que você pise e dê o estímulo de pressão que o osso e o tendão precisam, mas sem esticar as pontas que foram costuradas. É um jogo de dar carga compressiva (pisar), mas evitar carga de tração excessiva (alongar).

A diferença entre dor de adaptação e dor de lesão

Você vai sentir dor. O tecido está cicatrizando, há aderências na pele e o nervo está sensível. Mas você precisa aprender a diferenciar a dor “boa” da dor “ruim”. A dor de adaptação é aquela rigidez matinal, o desconforto que melhora conforme você se movimenta. É o sinal de que a “ferrugem” está saindo.

Já a dor de lesão é aguda, pontual e piora com a carga. Se você pisa e sente uma facada no local da cirurgia, ou se o local fica vermelho e quente horas depois da fisioterapia, passamos do ponto. O diálogo com seu fisioterapeuta deve ser diário. “Hoje doeu, mas passou rápido” é sinal verde. “Hoje doeu e estou mancando mais” é sinal vermelho.

O Cronograma da Carga: Do gesso ao tênis

Semanas 0-2: Proteção máxima e o papel da bota robofoot

Nas duas primeiras semanas, a prioridade é a pele. A incisão cirúrgica precisa fechar sem tensão. Geralmente, você ficará na bota ortopédica (Robofoot) ou numa tala gessada, sem colocar peso no chão ou apenas tocando os dedos para equilíbrio.

Nesta fase, o foco é drenar o inchaço (elevar a perna acima do coração é lei!) e mexer o que está livre: dedos do pé, joelho e quadril. A circulação precisa continuar ativa para evitar trombose e levar nutrientes para o tendão, mesmo que o tornozelo esteja “congelado” de propósito.

O desmame dos calços: Descendo o salto alto gradualmente

Após a segunda semana, geralmente começamos a liberar a carga parcial. Você vai usar a bota com calços internos (elevadores de calcanhar). É como usar um salto alto dentro da bota. Isso tira a tensão do tendão.

A cada semana ou duas, removemos um calço. Isso faz com que o calcanhar desça milímetros em direção ao chão, alongando o tendão de forma controladíssima. É um processo lento. Se tirarmos tudo de uma vez, você vai sentir como se o tendão fosse rasgar atrás do tornozelo. Essa descida gradual é o segredo para ganhar amplitude sem perder a tensão elástica do tendão.

A transição para a carga total: Aprendendo a confiar no pé novamente

Por volta da 6ª ou 8ª semana, chega o momento de largar a bota e as muletas. É, psicologicamente, a fase mais difícil. O cérebro esqueceu como andar. Você vai mancar, não por dor, mas por hábito e medo.

Nesta fase, o treino de marcha na frente do espelho é vital. Você precisa reaprender a rolar o pé no chão: calcanhar, meio do pé, ponta. Muitas pessoas travam o tornozelo e giram o quadril para andar (marcha de robô). O fisioterapeuta vai te corrigir passo a passo, literalmente, para que você volte a usar a panturrilha para empurrar o chão, e não apenas arrastar a perna.

Acelerando com Segurança: Ferramentas modernas

Restrição de Fluxo Sanguíneo (BFR): Ganhando músculo sem peso excessivo

Como fortalecer uma panturrilha se não podemos colocar muito peso nela ainda? A ciência nos deu um presente: o BFR (Blood Flow Restriction). Colocamos um manguito de pressão na coxa que diminui o retorno venoso, mantendo o sangue no músculo.

Isso cria um ambiente metabólico de exercício intenso, mesmo que você esteja fazendo apenas movimentos leves com um elástico. O cérebro “acha” que você está levantando 100kg e libera hormônios de crescimento muscular. É a melhor ferramenta para evitar que sua batata da perna suma completamente nas primeiras semanas.

Isometria precoce: Acordando a panturrilha sem mover o tornozelo

Antes de mover o tornozelo para cima e para baixo, podemos fazer força parada. Empurrar o pé contra a mão do terapeuta ou contra a parede (sem mover a articulação) acorda as unidades motoras.

A isometria reduz a inibição cortical — aquele fenômeno onde o cérebro “desliga” o músculo após uma cirurgia para proteger a área. Fazer força sem movimento é seguro para a sutura e vital para manter a conexão neural ativa.

Exposição gradual à dorsiflexão: O limite perigoso

A dorsiflexão é o movimento de trazer a ponta do pé para a canela. É o movimento que mais estressa o Aquiles. Recuperar esse ângulo é necessário para descer escadas e agachar, mas é o último a ser forçado.

Nunca force o alongamento passivo (alguém empurrando seu pé) nos primeiros 3 meses. O ganho deve ser ativo e natural. Se você forçar a dorsiflexão, pode criar um tendão alongado que perde a capacidade de impulsão. Respeite a barreira natural do tecido.

O “Gap” da Força: Recuperando a panturrilha perdida

Soleus vs. Gastrocnêmio: Por que seu joelho dobrado importa

A panturrilha tem dois músculos principais: o gastrocnêmio (o “batatão” visível) e o sóleo (profundo). O sóleo é o principal estabilizador e propulsor na caminhada. Ele trabalha melhor com o joelho dobrado.

Na reabilitação, precisamos treinar os dois. Elevação de calcanhar em pé foca no gastrocnêmio. Elevação de calcanhar sentado (com peso no joelho) foca no sóleo. Negligenciar o sóleo é um erro clássico que deixa o paciente sem resistência para caminhar longas distâncias.

A atrofia persistente: Por que a panturrilha nunca volta a ser igual

Sendo muito honesto: é muito difícil recuperar 100% do volume da panturrilha operada. Estudos mostram que, mesmo anos depois, o lado operado costuma ser um pouco mais fino. Isso ocorre devido a mudanças na estrutura das fibras musculares (penação).

Mas volume não é força. Você pode ter uma perna mais fina, mas funcionalmente forte. O foco não deve ser a fita métrica, mas a capacidade de saltar e correr. Não fique obcecado com a simetria estética; busque a simetria funcional.

O teste de elevação do calcanhar (Heel Rise Test): Seu passaporte para a corrida

Quer saber se pode voltar a correr? O teste de ouro é o “Single Leg Heel Rise”. Você precisa conseguir ficar na ponta do pé, em um pé só, com a mesma altura e qualidade do lado bom.

Geralmente buscamos algo em torno de 20 a 25 repetições de qualidade. Se você consegue fazer 25 na perna boa e só 5 na operada, você não está pronto para correr. O impacto da corrida exige que a panturrilha absorva carga repetidamente. Se ela falha na quinta repetição, quem vai absorver o impacto no sexto passo da corrida? O tendão. E aí mora o perigo.

Além do Tendão: A cadeia cinética e o retorno ao esporte

O medo de rerruptura: Trabalhando a confiança psicológica (Kinesiofobia)

O maior limitador no final da reabilitação não é o músculo, é a mente. O medo de romper de novo (kinesiofobia) faz você travar o movimento. Você corre “duro”, protegendo o pé.

Precisamos expor você gradualmente a situações de risco controlado. Pequenos saltitos, mudanças de direção leves, trotes em terrenos variados. Mostrar para o seu cérebro que o tendão aguenta. A confiança é treinável, assim como o músculo.

O papel do glúteo e do core na propulsão

Se seu tornozelo está recuperando, quem pode ajudar? O quadril. Glúteos fortes são o motor primário da propulsão. Se você tem um “bumbum preguiçoso”, vai sobrecarregar a panturrilha na impulsão da corrida.

Fortalecer o core e os extensores de quadril tira a responsabilidade excessiva do tornozelo. O corpo funciona em cadeia. Na falta de um elo (tornozelo 100%), os outros elos (quadril e joelho) precisam compensar temporariamente.

Pliometria e a mola humana: Preparando para o impacto real

O tendão de Aquiles é a maior mola do corpo humano. Ele armazena e libera energia elástica. Para voltar ao esporte, precisamos treinar essa mola. Isso é pliometria.

Começamos com saltos baixos com os dois pés, evoluímos para pular corda e depois para saltos unipodais. O objetivo é diminuir o tempo de contato com o solo e aumentar a rigidez reativa do tendão. Sem essa fase de saltos, voltar ao futebol ou tênis é impossível.

Terapias Aplicadas e Considerações Finais

Durante todo esse processo, usamos recursos para ajudar. A Terapia Manual solta a cicatriz e libera a fáscia plantar que costuma ficar tensa. O Laser de Alta Potência pode ajudar na organização celular. O Dry Needling solta os pontos de tensão na panturrilha sobrecarregada.

Mas lembre-se: nada substitui o exercício. A máquina que cura o tendão é o movimento.

A reabilitação do Aquiles é uma maratona, não um tiro de 100 metros. Respeite os prazos biológicos (geralmente 6 a 9 meses para esporte total), celebre as pequenas vitórias (ficar na ponta do pé, o primeiro trote) e mantenha a disciplina. Seu tendão vai ficar forte, mas ele cobra paciência como preço da sua resistência futura.

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