Muitos corredores chegam ao meu consultório apontando para o joelho ou para o pé, mas se surpreendem quando peço para avaliar como o tronco deles se comporta. Você provavelmente já ouviu falar do “core”, mas talvez ainda pense nele apenas como aquela barriga definida de capa de revista. Precisamos mudar essa visão agora mesmo. Na fisioterapia, entendemos o core como uma caixa tridimensional complexa que envolve muito mais do que o reto abdominal. Estamos falando do diafragma no teto, o assoalho pélvico no chão, os multífidos na parte de trás e o transverso do abdômen abraçando tudo isso como um cinturão natural.
Essa região funciona, literalmente, como o centro de gravidade do seu corpo.[1][3] Imagine que você está correndo e seus braços e pernas são pêndulos oscilando. Se a base onde esses pêndulos estão presos — seu tronco — estiver instável ou “mole”, o movimento das extremidades será caótico e desperdiçará energia. Um core forte e estável oferece um ponto fixo sólido para que seus músculos das pernas possam gerar força contra o solo. Sem essa estabilidade central, você não tem uma plataforma eficiente para se impulsionar à frente.[4]
Além da estabilidade, essa musculatura profunda tem um papel vital na proteção dos órgãos internos e da coluna vertebral. Durante a corrida, o impacto a cada passada pode chegar a três vezes o seu peso corporal.[2] Se o seu centro não estiver “ativado” para absorver e distribuir essas forças, essa carga excessiva vai sobrar para estruturas que não foram feitas para aguentar tanto tranco sozinhas, como seus discos intervertebrais ou os meniscos dos joelhos. Portanto, treinar o core não é estética; é a sua armadura fisiológica contra a gravidade.
A Biomecânica da Corrida e a Transferência de Energia[1][3][4][5][6]
Você já sentiu que, no final de uma prova longa, parece que está correndo “sentado” ou que seus pés estão arrastando? Isso é um sinal clássico de falha na transferência de energia. A biomecânica eficiente da corrida depende do que chamamos de cadeia cinética fechada. A energia gerada pelo impacto no solo sobe pelas pernas, passa pela pelve e precisa ser controlada pelo tronco para ser reutilizada na próxima passada.[3] Se o seu core é fraco, ocorre o que chamamos de “vazamento de energia”.[5]
Pense no seu corpo como uma mangueira de água sob pressão. Se houver furos no meio da mangueira (instabilidade no core), a água (energia) vaza e chega com pouca pressão na ponta (propulsão). Quando seu quadril “samba” ou sua pelve cai para o lado a cada passo, você está jogando fora a energia que deveria estar te empurrando para frente. Isso obriga seus músculos a trabalharem dobrado para manter o mesmo ritmo, levando à fadiga precoce e a uma performance muito abaixo do seu potencial real.
Outro ponto crucial é o controle rotacional. A corrida é, em essência, uma série de saltos unipodais (em uma perna só). Quando sua perna direita vai à frente, seu tronco quer girar para a esquerda. Os músculos oblíquos do abdômen precisam agir como freios anti-rotacionais para evitar que você fique girando o tronco excessivamente. Esse controle fino mantém você correndo em linha reta. Sem ele, você gasta uma quantidade absurda de energia apenas lutando contra a própria rotação do tronco, o que sobrecarrega quadris e joelhos desnecessariamente.
As Lesões Silenciosas da Instabilidade Pélvica
A falta de estabilidade central é o grande vilão por trás de dores que parecem misteriosas. A mais clássica que vejo na clínica é a Síndrome da Banda Iliotibial. Quando o core — especificamente os glúteos e estabilizadores laterais — não segura a pelve, ocorre a “queda pélvica” (o quadril do lado da perna que está no ar cai). Isso puxa o fêmur para uma rotação interna e estica a banda iliotibial lá no joelho. O corredor trata o joelho por meses, mas a dor volta porque a causa está na fraqueza lá em cima, no quadril.
A dor lombar é outra queixa frequente e direta da ineficiência do core. Se o seu abdômen profundo não cria pressão intra-abdominal suficiente para estabilizar a coluna, os músculos eretores da espinha entram em espasmo para tentar segurar o tranco. Eles não foram feitos para estabilização profunda por longos períodos, então eles “travam”. Você termina o treino com aquela sensação de queimação ou rigidez na lombar, achando que é “apenas cansaço”, mas é um aviso de que sua proteção central falhou.
Também não podemos esquecer da famosa “Canelite” e das dores patelofemorais (dor na frente do joelho). Quando o core falha, você tende a inclinar o tronco para frente ou para trás excessivamente, alterando o seu centro de massa. Isso muda a forma como o pé aterrissa no chão, muitas vezes aumentando a pronação ou fazendo você aterrissar com o pé muito à frente do corpo (overstriding). Esse erro mecânico, nascido na falta de controle do tronco, aumenta drasticamente o choque que sobe pela tíbia e detona o joelho.
Controle Neuromuscular e Aprendizado Motor
Aqui entramos em um território que diferencia o corredor amador do atleta consciente. Não adianta apenas ter músculos abdominais fortes se o seu cérebro não sabe quando usá-los. O controle neuromuscular refere-se à capacidade do seu sistema nervoso de recrutar a musculatura certa, na hora certa. Estudos mostram que, em corredores sem dor, o core se ativa milissegundos antes de qualquer movimento das pernas. Isso é chamado de mecanismo “feedforward” ou antecipatório.
A Importância do “Timing” de Ativação
O segredo não é a força bruta, mas o timing. Se você contrai o abdômen depois que o pé já tocou o chão, é tarde demais; o impacto já subiu pela coluna. O treinamento eficiente precisa ensinar seu corpo a pré-ativar essa cinta abdominal antes do impacto. Na fisioterapia, usamos exercícios que desafiam o equilíbrio para forçar o sistema nervoso a “ligar” o core automaticamente. Você precisa treinar seu cérebro para manter essa proteção ativa de forma subconsciente, para não ter que pensar “contrai a barriga” a cada um dos 180 passos que você dá por minuto.
Propriocepção e Consciência Corporal[1][6]
A propriocepção é a capacidade de saber onde seu corpo está no espaço sem olhar para ele. Um core “inteligente” melhora sua propriocepção pélvica. Muitos corredores correm com a pelve em anteversão excessiva (bumbum empinado), o que inibe a ação dos glúteos e sobrecarrega a lombar. Trabalhar o controle motor ajuda você a sentir quando sua pelve sai da posição neutra. Você começa a perceber sozinho, durante o treino, quando sua postura desaba e consegue corrigir em tempo real, evitando quilômetros de corrida em uma posição lesiva.
Fadiga Central e a Perda da Técnica
A fadiga neurológica é real e perigosa. No final de uma prova, não são apenas suas pernas que cansam; seu sistema nervoso também fadiga e o controle do core se deteriora. É nesse momento que o risco de lesão dispara. Treinar o core sob condições de fadiga — ou seja, fazer exercícios de estabilidade depois do treino de corrida — é uma estratégia excelente. Isso ensina seu corpo a manter a integridade estrutural e a técnica de corrida mesmo quando você está exausto, simulando a realidade dos últimos quilômetros de uma maratona.
Avaliação Funcional e Testes Práticos no Consultório
Você deve estar se perguntando: “Como eu sei se meu core é funcional?”. No consultório, não olhamos quantos abdominais você consegue fazer em um minuto. Isso diz pouco sobre estabilidade. Minha avaliação foca na qualidade do movimento e na capacidade de resistir a forças externas. Eu preciso ver se você consegue manter sua coluna neutra enquanto mexe pernas e braços, exatamente como acontece na corrida.
O Teste de Trendelenburg e a Queda Pélvica
Um dos testes mais simples e reveladores que faço é pedir para você ficar em pé em uma perna só. Parece bobo, mas diz muito. Se o quadril da perna levantada cair, ou se você precisar inclinar o tronco para o lado oposto para se equilibrar, temos um sinal positivo de Trendelenburg. Isso indica fraqueza crítica no glúteo médio, um dos principais estabilizadores da pelve. Se você não consegue ficar estável parado no consultório, imagine o caos que acontece quando você adiciona o impacto de 3 ou 4 vezes o seu peso corporal na corrida.
Avaliação da Pressão Intra-abdominal e Respiração
Outro ponto que avalio é como você respira. O diafragma é o teto do core. Peço para o paciente deitar e respirar. Se apenas o peito sobe e a barriga não expande lateralmente, você não está gerando pressão intra-abdominal corretamente. Essa pressão é o que dá rigidez à coluna lombar. Um core funcional precisa de uma respiração tridimensional. Se você respira “curto” e só pelo tórax, você perdeu metade da sua capacidade de estabilização, tornando-se dependente apenas da tensão muscular superficial, que fadiga rápido.
Resistência Isométrica x Funcionalidade Dinâmica
Testo também quanto tempo você aguenta em uma prancha (isometria), mas comparo isso com movimentos dinâmicos. De nada adianta segurar uma prancha por 5 minutos se, ao fazer um agachamento unipodal, seu joelho entra para dentro (valgo dinâmico) e seu tronco gira. A discrepância entre força estática e controle dinâmico é onde mora a lesão. O objetivo da avaliação é identificar esses “elos fracos” na cadeia cinética para prescrever exercícios que transfiram diretamente para o gesto da corrida, e não apenas para ficar bom em fazer prancha.f
Abordagens Terapêuticas e o Caminho para a Recuperação
Quando identificamos essas falhas, o tratamento não é apenas “fortalecer”. A abordagem terapêutica moderna para corredores envolve uma reeducação do movimento. Inicialmente, podemos usar terapias manuais, como liberação miofascial, para soltar musculaturas que estão tensas e hiperativas por estarem compensando a falta de estabilidade (como os flexores do quadril ou a lombar). Isso “reseta” o sistema para que possamos começar a trabalhar do zero.
O Pilates Clínico é uma das ferramentas mais poderosas que temos. Diferente da musculação tradicional, o Pilates foca no controle, na respiração e na ativação dos músculos profundos antes dos superficiais. Ele ensina você a dissociar o movimento do quadril da coluna, uma habilidade essencial para correr. Exercícios de Treinamento Funcional também são fundamentais, progredindo de posições deitadas para posições em pé e unipodais, imitando a demanda real da corrida. O uso de elásticos e superfícies instáveis (como o bosu) ajuda a acordar a propriocepção.
Por fim, a tecnologia como o Biofeedback pode ser usada. Colocamos sensores ou usamos espelhos e vídeos para que você veja em tempo real o que está fazendo errado. O caminho para a recuperação e prevenção exige paciência e consistência. Você precisa construir um novo padrão motor. O objetivo final não é apenas livrar você da dor hoje, mas dar ao seu corpo a inteligência e a robustez necessárias para correr pela vida toda, com eficiência e alegria.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”