Você já sentiu aquela insegurança ao ver um treino com box jumps ou corda dupla na lousa da academia? Talvez tenha sentido um peso estranho na parte baixa da barriga ou uma dorzinha chata na lombar depois de uma série de saltos. Se isso soa familiar, saiba que você não está sozinha e, mais importante, não é “normal” sentir desconforto ou perder urina só porque o treino foi intenso. O corpo feminino tem uma engenharia fantástica, mas ele exige uma estratégia de estabilização diferente da masculina, especialmente quando falamos de impacto.
O conceito de “Core” foi banalizado por revistas de fitness que vendem a ideia de barriga negativa. Mas, no meu consultório, vejo diariamente mulheres com abdominais definidos que sofrem de dores nas costas e disfunções pélvicas. Isso acontece porque ter “gominhos” não significa ter um centro de força competente. Para uma mulher que treina saltos e impacto, o Core é uma questão de sobrevivência articular e visceral, não de estética.
Vamos ter uma conversa séria sobre como seu corpo funciona sob pressão. Quero que você entenda a mecânica interna que protege sua coluna de travar e seus órgãos de descerem quando você aterrissa no chão. Vou te ensinar a construir uma armadura interna real, que vai permitir que você pule, corra e levante peso com segurança e potência, sem medo de “escapes” ou de dores no dia seguinte.
O Core Além do “Tanquinho”: A Caixa de Pressão
Precisamos redefinir o que você entende por Core. Imagine o seu tronco como uma lata de refrigerante pressurizada. Essa lata precisa ser firme em todos os lados para não amassar quando você pisa nela. O seu Core é exatamente isso: um cilindro. O teto é o seu diafragma respiratório. O chão é o seu assoalho pélvico. A frente é o transverso do abdômen e a parte de trás são os multífidos da coluna. Se qualquer um desses lados estiver fraco ou descoordenado, a lata amassa.
O músculo mais importante que você provavelmente não está treinando direito é o Transverso do Abdômen. Ele não faz o movimento de “dobrar” o tronco como o abdominal clássico. Ele funciona como um cinto de segurança interno ou um espartilho natural. Ele abraça suas vísceras e estabiliza a coluna lombar antes mesmo de você mexer os braços ou pernas. Quando você salta, é ele que deve “ligar” milissegundos antes dos seus pés tocarem o solo para preparar o corpo para o impacto.
A funcionalidade na mulher depende da integridade desse cilindro. Diferente dos homens, a bacia feminina é mais larga e a saída pélvica é maior, o que cria um desafio biomecânico extra para a estabilização inferior. Se você foca apenas nos músculos superficiais (o “tanquinho”), você cria uma parede rígida na frente, mas deixa a coluna e o assoalho pélvico vulneráveis. O treino de Core real para mulheres envolve aprender a pressurizar esse cilindro de forma equilibrada, sem empurrar tudo para baixo.
O Impacto do Salto: O Que Acontece Lá Dentro?
Quando você salta, a gravidade não é sua amiga. No momento da aterrissagem, o seu corpo precisa absorver uma força que pode chegar a três ou quatro vezes o seu peso corporal. Chamamos isso de Força de Reação do Solo. Essa energia sobe pelos seus pés, joelhos e quadris, mas ela não para aí. Ela reverbera na sua coluna e, crucialmente, nas suas vísceras.
Imagine seus órgãos internos — bexiga, útero, intestino — como passageiros em um carro. Quando o carro freia bruscamente (a aterrissagem do salto), os passageiros são jogados para frente e para baixo. Seus órgãos sofrem essa mesma aceleração. Eles são segurados por ligamentos, mas ligamentos não são elásticos infinitos. Se o impacto é repetitivo e sem amortecimento muscular adequado, esses ligamentos começam a ceder, levando à sensação de peso ou até ao prolapso (queda) dos órgãos.
Aqui entra o conceito de hiperpressão abdominal. Se, ao aterrissar, você contrai o abdômen de forma errada (estufando a barriga para fora ou prendendo o ar com força excessiva), você cria um efeito de “tubo de pasta de dente”. Você aperta o meio, e a pressão tem que sair por algum lugar. Se o teto (diafragma) está travado com o ar preso, a pressão explode para baixo, direto no seu assoalho pélvico. É nesse momento que ocorrem os escapes de urina ou a sobrecarga nos discos da coluna.
O Assoalho Pélvico: A Rede de Segurança que Você Ignora
O assoalho pélvico é um grupo de músculos em forma de rede ou bacia na base do seu quadril. Muitas mulheres só lembram dele na gravidez ou quando começam a ter incontinência, mas ele é vital para o esporte. Ele tem duas funções principais no salto: fechar os esfíncteres para evitar vazamentos e trabalhar junto com o Core para estabilizar a bacia sacra. Se essa base é instável, sua coluna lombar perde a fundação.
Para suportar saltos, não basta ter um assoalho pélvico “forte” no sentido de conseguir segurar uma contração por muito tempo. Você precisa de potência e reflexo. Chamamos isso de contração de fibras rápidas. O músculo precisa ser capaz de contrair e relaxar em frações de segundo, reagindo ao impacto do chão. Se ele for forte mas lento, ele chega “atrasado” na aterrissagem, e o vazamento acontece mesmo assim.
Outro ponto que vejo muito na clínica é a hipertonia, ou seja, músculos tensos demais. Muitas atletas têm o assoalho pélvico tão tenso (por estresse ou excesso de treino de força sem relaxamento) que ele se torna rígido. Um músculo rígido não amortece impacto; ele transmite o choque. Isso gera dor na relação sexual, dor pélvica e, ironicamente, incontinência, porque um músculo travado não consegue gerar força extra quando necessário. O objetivo é um músculo elástico e reativo, não um bloco de concreto.
Estabilidade Espinhal Dinâmica: Evitando o “Chicote” na Coluna
Saltar exige muito da sua coluna vertebral, especialmente na região lombar. Quando você salta, tende a estender o corpo para ganhar altura. Na aterrissagem, precisa flexionar para absorver. Se o seu Core não controla esse movimento, sua coluna faz um efeito “chicote”. Muitas mulheres, por terem maior mobilidade natural na lombar, tendem a cair em hiperlordose (bumbum empinado excessivamente) na aterrissagem.
Isso é perigoso porque joga toda a carga do impacto nas facetas articulares das vértebras, em vez de distribuir pelos músculos. O papel do Core aqui é de “freio anti-movimento”. Ele deve impedir que sua coluna desabe em extensão ou flexão excessiva. Os músculos Multífidos, que são pequenos e profundos ao longo da coluna, trabalham em sintonia com o abdômen para manter as vértebras alinhadas milimetricamente durante o caos do impacto.
A fadiga é o maior inimigo dessa estabilidade. Muitas vezes, você começa o treino saltando bem, mas no final, quando o Core cansa, a técnica desmorona. A musculatura profunda para de disparar, e você começa a “pendurar” a carga nos ligamentos e discos da coluna. É nesse momento, nas últimas repetições, que a hérnia de disco ou o estiramento acontecem. Treinar a resistência desses músculos estabilizadores é fundamental para manter a coluna protegida do primeiro ao último salto.
Sincronia Diafragmática: A Respiração como Amortecedor
A respiração é a ferramenta mais poderosa e subestimada para proteger seu corpo nos saltos. O diafragma (respiração) e o assoalho pélvico funcionam como um pistão de um motor. Quando você inspira, o diafragma desce e o assoalho pélvico desce (relaxa/alonga). Quando você expira, o diafragma sobe e o assoalho pélvico sobe (contrai/ativa). Essa é a biomecânica natural.
Muitas atletas travam a respiração (apneia) na hora do esforço ou do salto. Ao prender o ar e aterrissar, você cria uma coluna de ar rígida que empurra os órgãos para baixo com violência. A estratégia correta é o “Blow before you go” (assopre antes de ir) ou exalar no momento do impacto. Soltar o ar na aterrissagem (como os lutadores de boxe ou tenistas fazem ao bater na bola) ativa o reflexo de subida do diafragma, que puxa o assoalho pélvico para cima, protegendo contra a descida dos órgãos.
Essa expiração ativada também recruta o Transverso do Abdômen automaticamente. Tente fazer isso agora: coloque a mão na barriga e solte todo o ar com força fazendo um som de “S”. Você sentiu sua cintura apertar sozinha? É esse mecanismo que queremos no salto. Gerenciar a Pressão Intra-Abdominal (PIA) através da respiração tira a carga da coluna e do períneo, transformando o ar em um amortecedor fluido, não em um martelo pneumático.
Terapias Aplicadas e Abordagens Específicas
Se você sente que seu Core não está respondendo ou se tem sintomas de dor e perda urinária, a fisioterapia especializada tem recursos avançados para te ajudar.
O Biofeedback Eletromiográfico é uma ferramenta incrível onde conectamos sensores (externos ou internos) que mostram em uma tela de computador, em tempo real, se você está contraindo ou relaxando os músculos certos. É como um videogame controlado pela sua musculatura. Isso ajuda a corrigir a “cegueira muscular”, onde você acha que está contraindo o Core, mas está apenas prendendo a respiração.
A Eletroestimulação Funcional pode ser usada para “acordar” músculos profundos, como o transverso ou o assoalho pélvico, que ficaram inibidos por dor ou pós-parto. Usamos a corrente elétrica para ensinar ao cérebro o caminho da contração, enquanto você faz exercícios ativos.
O LPF (Low Pressure Fitness) ou ginástica hipopressiva é excelente para treinar o tônus de repouso e a gestão de pressão. Ele ajuda a reposicionar os órgãos e a ativar a cinta abdominal sem gerar pressão para baixo. É um complemento fantástico ao treino de força tradicional.
E, claro, a Terapia Manual. Muitas vezes precisamos soltar o diafragma tenso, liberar a fáscia abdominal ou tratar pontos de gatilho no assoalho pélvico (sim, internamente) para que o músculo recupere sua elasticidade e capacidade de funcionar. Não normalize a dor ou o escape. Seu corpo foi feito para ser forte e continente. Busque ajuda e treine com inteligência.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”