Por que o punho dói no Snatch? Dicas de fisioterapia para atletas

Por que o punho dói no Snatch? Dicas de fisioterapia para atletas

Você já sentiu aquela pontada aguda no punho logo depois de receber uma barra pesada acima da cabeça? Ou talvez aquele incômodo que começa leve, mas vai “minando” sua confiança a cada repetição do Snatch? Se você está balançando a cabeça afirmativamente agora, saiba que não está sozinho nessa jornada. Como fisioterapeuta que convive diariamente com atletas de alta performance e praticantes dedicados dentro do box, posso afirmar que a dor no punho durante o Snatch é uma das queixas mais frequentes — e também uma das mais negligenciadas até que se torne insuportável.

O Snatch, ou arranco, é um dos movimentos mais complexos e bonitos do levantamento de peso olímpico (LPO) e do CrossFit. Ele exige uma sinergia perfeita entre força, potência, velocidade e, claro, mobilidade extrema. É justamente nessa exigência de amplitude que nossos punhos acabam pagando um preço alto. Muitas vezes, culpamos o peso da barra, mas a verdade é que o punho é apenas o mensageiro de um problema que pode estar acontecendo em toda a cadeia cinética, desde a falta de mobilidade nos ombros até um detalhe sutil na forma como você segura a barra.[1]

Neste artigo, vamos mergulhar fundo no universo biomecânico desse movimento. Não quero apenas te dar uma “receita de bolo”, mas sim te ajudar a entender o porquê dessa dor, como seu corpo funciona sob essa tensão e, o mais importante, te entregar ferramentas práticas para resolver isso. Vamos transformar esse “elo fraco” em uma articulação blindada, permitindo que você volte a treinar pesado, com segurança e sem medo daquela fisgada chata. Pegue sua garrafa de água, sente-se confortavelmente e vamos conversar sobre como salvar seus punhos.


Entendendo a Anatomia e a “Quebra” do Punho

O impacto da extensão forçada e do desvio radial

Quando analisamos o punho friamente, percebemos que ele é uma estrutura arquitetônica complexa, feita de pequenos ossos que precisam deslizar uns sobre os outros com precisão milimétrica. No momento em que você recebe a barra no Snatch, seus punhos são forçados a uma posição de extensão máxima (dobrados para trás) combinada com um desvio radial (inclinados em direção ao polegar).[2] Essa combinação é o que chamamos de “tempestade perfeita” para a articulação. Seus ossos do carpo são comprimidos vigorosamente, e qualquer pequena falha nesse encaixe gera um pico de pressão em áreas muito pequenas.

Essa posição de extensão extrema não é natural para o corpo sustentar cargas elevadas repetitivamente, a menos que haja uma preparação adequada. Ao segurar a barra com uma pegada muito larga — típica do Snatch — você aumenta mecanicamente o ângulo de desvio radial. Isso coloca uma tensão absurda nos tendões e ligamentos do lado do polegar e comprime as estruturas do lado oposto. É comum que, na tentativa de segurar a barra “na raça”, você permita que o punho “quebre” excessivamente para trás, transformando seus ligamentos em meros cabos de aço prestes a estourar, em vez de usar a estrutura óssea para suportar a carga.[1]

Além disso, precisamos falar sobre a carga axial.[2] Imagine a força da gravidade puxando a barra para baixo somada à velocidade com que você se joga para baixo dela. O impacto na recepção multiplica o peso real da barra. Se o seu punho não estiver alinhado de forma a dissipar essa energia através do antebraço, toda essa força fica presa na articulação radiocárpica. É como tentar martelar um prego com o martelo torto; a força não vai para onde deveria e a estrutura sofre o dano.

A importância da mobilidade de ombro nessa equação

Aqui vai um segredo que poucos treinadores contam: muitas vezes, a culpa da dor no seu punho é, na verdade, do seu ombro. Parece estranho? Pense no seu braço como uma corrente. Se você não tem mobilidade suficiente de ombro — especificamente rotação externa e flexão — para colocar a barra na posição correta acima da cabeça (o famoso “overhead”), seu corpo vai buscar compensação em algum lugar. E adivinhe quem é o vizinho mais flexível e disposto a ajudar? Exato, o punho.

Quando seus ombros são rígidos, você não consegue alinhar verticalmente os ossos do braço com a barra. Para manter o peso equilibrado e não deixá-lo cair para frente, você instintivamente hiperextende os punhos para “buscar” a barra lá atrás ou para compensar a falta de abertura do peito. Isso transfere uma carga vetorial brutal para a articulação do punho, que não foi desenhada para atuar como pivô primário de estabilidade nessa angulação extrema. O punho vira a vítima de um ombro “preguiçoso” ou travado.

Portanto, antes de gastar rios de dinheiro em munhequeiras ou tratamentos locais para o punho, faça um teste simples de mobilidade de ombro na parede ou no chão. Se você não consegue manter os braços esticados ao lado das orelhas sem arquear as costas ou dobrar os cotovelos, temos um sinal claro. Melhorar a flexibilidade dos latíssimos, peitorais e a mobilidade da coluna torácica alivia instantaneamente a pressão nos punhos, pois permite que a estrutura óssea do braço suporte o peso, e não os ligamentos do punho.

O que é a Fibrocartilagem Triangular e por que ela sofre

Você já ouviu falar na Fibrocartilagem Triangular (FCT)? Ela é como se fosse o “menisco” do punho, localizada no lado do dedo mindinho. Essa pequena estrutura cartilaginosa tem a função ingrata de absorver impacto e permitir que o punho gire suavemente. No Snatch, especialmente se você tem uma pegada instável ou se a barra gira em sua mão na recepção, a FCT é esmagada e torcida simultaneamente.

A dor no lado ulnar do punho (o lado do mindinho) é clássica em praticantes de LPO e CrossFit e geralmente aponta para uma irritação ou lesão nessa estrutura. Quando você recebe a barra e os cotovelos não estão totalmente bloqueados (o famoso “soft elbows”), ocorre uma micro-vibração e um reajuste súbito da carga. Esse “tranco” é absorvido primariamente por essa cartilagem. Com o tempo e o volume de treino, ela inflama, gerando uma dor que parece uma “facada” ao girar a maçaneta de uma porta ou ao fazer uma simples flexão de braço.

Proteger a FCT envolve técnica apurada e controle de carga. Diferente dos músculos, que recebem muito sangue e se recuperam rápido, a fibrocartilagem tem uma vascularização pobre. Isso significa que, uma vez lesionada, ela demora muito para cicatrizar.[3] Por isso, a qualquer sinal de dor nesse lado da mão, é crucial parar e reavaliar. Insistir na dor, neste caso, não é sinal de bravura, é um passaporte para uma lesão crônica que pode te afastar dos treinos por meses.


Os Erros Invisíveis na Técnica do Snatch

A largura da pegada: nem muito aberta, nem muito fechada

A largura da sua pegada no Snatch é um dos fatores biomecânicos mais determinantes para a saúde dos seus punhos. Existe um mito de que “quanto mais aberto, melhor”, pois a barra precisa subir menos altura. De fato, para a física do levantamento isso ajuda, mas para a biologia do seu punho pode ser desastroso. Uma pegada excessivamente larga força o punho a um desvio radial extremo, “espremendo” as estruturas laterais e deixando a articulação instável e vulnerável a torções sob carga.

Por outro lado, uma pegada muito fechada, embora possa parecer mais confortável inicialmente para o punho, exige uma mobilidade de ombro ainda maior que a maioria dos atletas amadores não possui. Se você fecha demais a pegada e não tem ombros de ginasta, voltamos ao problema anterior: compensação com hiperextensão do punho.[4] O segredo está em encontrar o “ponto doce” (sweet spot), onde a barra se encaixa na dobra do quadril quando você está de pé, mas que não coloque seus punhos em uma angulação torturante quando a barra está acima da cabeça.

Faça testes práticos. Experimente fechar a pegada um ou dois dedos em relação ao que você usa hoje. Muitas vezes, essa pequena mudança reduz drasticamente o ângulo de desvio radial e alivia a compressão óssea, sem comprometer significativamente a altura da puxada. Lembre-se: é melhor levantar 5kg a menos com uma técnica que preserve suas articulações a longo prazo do que bater um PR (recorde pessoal) hoje e não conseguir treinar amanhã.

A recepção da barra: onde está o peso real?

Um erro técnico muito comum, e quase invisível a olho nu, é a forma como a barra se assenta na palma da mão. Muitos atletas seguram a barra muito perto da base dos dedos, na “almofada” superior da palma. Isso cria um braço de alavanca enorme. Quanto mais longe a barra estiver do eixo de rotação do punho (a linha articular), maior será o torque forçando sua mão para trás. É física pura: força vezes distância.

A barra deve repousar o mais próximo possível da base do punho, alinhada diretamente sobre os ossos do antebraço (rádio e ulna). Ao posicionar a barra corretamente na “raíz” da palma da mão e envolver o polegar com segurança (o hook grip ajuda muito aqui também para a firmeza), você anula essa alavanca desnecessária. Você deve sentir que o peso está sendo descarregado diretamente nos ossos do braço, como uma coluna grega sustentando um teto, e não como uma prateleira mal parafusada na parede.

Verifique sempre a posição da sua mão na fase de recepção overhead. Se você notar que, ao final do movimento, a barra escorregou para a ponta dos dedos, isso é um sinal vermelho. Isso não só aumenta a dor, como também aumenta o risco da barra escapar para trás. Trabalhar a força de preensão (grip) e o uso consciente do hook grip são fundamentais para manter a barra “colada” no lugar certo durante todo o balístico movimento do Snatch.

A perda de tensão no “Catch” e o efeito chicote

O momento mais crítico do Snatch é o “Catch” ou a recepção da barra. É aquele milissegundo onde a barra para de subir e começa a cair, e você precisa se colocar embaixo dela para freá-la. O erro aqui acontece quando o atleta relaxa os braços ou os punhos esperando a barra cair sobre eles. Isso gera um “efeito chicote”: a barra ganha velocidade na descida e colide com as mãos que estão moles, causando um impacto súbito e violento que estira todos os tecidos moles de uma vez só.

Você precisa receber a barra ativamente. Isso significa socar a barra para cima antes mesmo de ela assentar. Seus punhos, cotovelos e ombros devem estar ativos e tensionados para encontrar a barra, não para serem esmagados por ela. Pense em “empurrar o teto” com força assim que a barra passar da altura da cabeça. Essa tensão prévia prepara a articulação e os músculos para absorver a carga de forma controlada, distribuindo a força pelos músculos do braço e das costas, poupando a pequena articulação do punho.

Treinar essa recepção ativa pode ser feito com exercícios como o Snatch Balance ou o Drop Snatch, focando puramente na velocidade e firmeza do bloqueio dos braços. A ideia é ser agressivo contra a barra. Um punho passivo é um punho lesionado. A rigidez (no bom sentido de estabilidade) no momento do impacto é o que protege suas estruturas internas de serem pinçadas ou estiradas além do limite fisiológico.


Estratégias Práticas de Prevenção no Box

Aquecimento específico: muito além de girar os punhos[5]

Seja honesto comigo: seu aquecimento de punho se resume a entrelaçar os dedos e girar as mãos por 15 segundos enquanto conversa com o colega do lado? Se sim, precisamos mudar isso hoje. O punho é uma articulação que recebe pouca circulação sanguínea direta comparada a grandes músculos, e precisa de um aquecimento intencional para aumentar a viscosidade do líquido sinovial e preparar os tecidos para a extensão extrema.

Um aquecimento eficaz deve incluir mobilidade dinâmica em quatro apoios (posição de gato/vaca), colocando carga progressiva sobre as mãos. Balance o corpo para frente e para trás com as palmas no chão, depois com o dorso das mãos (com cuidado!), e depois com os dedos virados para os joelhos. Isso “acorda” os mecanorreceptores da articulação e avisa seu sistema nervoso que aquela área será exigida. Não pule essa etapa, ela é a sua primeira linha de defesa.

Inclua também ativação muscular. Apertar uma bolinha de tênis ou usar elásticos nos dedos para fazer força de abertura ajuda a ativar os músculos intrínsecos da mão e os estabilizadores do antebraço. Um punho aquecido e com a musculatura ativada é muito mais resiliente a cargas súbitas. Gaste pelo menos 3 a 5 minutos dedicados exclusivamente a preparar suas mãos e antebraços antes de tocar na barra olímpica.

Fortalecimento de pegada: a base da estabilidade

Muitas vezes, o punho dói porque ele está “dançando” sob a barra. A falta de força na pegada (grip) faz com que os músculos do antebraço fadiguem rápido, transferindo a responsabilidade de segurar a estrutura para os ligamentos passivos, que não foram feitos para isso. Fortalecer a pegada não serve apenas para você não largar a barra no Deadlift; serve para criar uma “luva de força” muscular ao redor do punho no Snatch.

Exercícios como o Farmer’s Walk (caminhada de fazendeiro) com cargas pesadas são excelentes, mas precisamos ser mais específicos para o LPO. Tente fazer sustentações isométricas da barra acima da cabeça (Overhead Hold) focando em esmagar a barra com as mãos. Outro exercício fantástico é o Wrist Roller, aquele rolo onde você enrola um peso preso por uma corda. Ele fortalece tanto os flexores quanto os extensores do punho de forma brutal e eficaz.

Lembre-se de trabalhar também os extensores dos dedos. Coloque um elástico ao redor dos dedos e faça força para abri-los. O equilíbrio entre a força de fechar a mão e a força de abrir ajuda a estabilizar o punho em posições neutras e previne tendinites que podem irradiar dor para a articulação. Um antebraço forte é o melhor amortecedor que seu punho pode ter.

Munhequeiras: quando usar e quando evitar

As munhequeiras (wrist wraps) são acessórios polêmicos. Elas são ferramentas incríveis, mas podem se tornar muletas perigosas. A função da munhequeira não é fazer o trabalho por você, mas sim oferecer uma compressão externa que ajuda a limitar a extensão excessiva e dá uma percepção maior de segurança (propriocepção) sob cargas máximas.[1] O erro está em usá-las desde o aquecimento com o cabo de vassoura.

Se você usa munhequeira para tudo, seu punho entende que não precisa se fortalecer, pois há um suporte externo fazendo o trabalho. Isso enfraquece a articulação ao longo do tempo.[2] Minha recomendação de fisioterapeuta é: use as munhequeiras apenas nas séries de trabalho pesado, ou seja, acima de 70-80% do seu 1RM (repetição máxima). Nas séries de aquecimento e técnica, deixe os punhos livres para que eles aprendam a se estabilizar e ganhem força real.

Além disso, aprenda a colocá-las corretamente. Elas devem ficar posicionadas sobre a articulação do punho, cobrindo parte da mão e parte do antebraço, justamente na “dobra” onde ocorre o movimento. Se ela estiver muito baixa, no antebraço, vira apenas um bracelete estiloso sem função mecânica. Aperte apenas na hora de executar o movimento e solte no descanso para permitir a circulação sanguínea.


Protocolo de Mobilidade e Soltura para Punhos Blindados

Libertando os flexores do antebraço com autoliberação

Você sabia que a rigidez nos músculos flexores do antebraço (a parte “gordinha” logo abaixo do cotovelo) é uma das maiores causas de restrição de mobilidade no punho? Quando esses músculos estão encurtados ou cheios de tensão, eles puxam os tendões, impedindo que seu punho estenda confortavelmente. É como tentar abrir uma porta com uma dobradiça enferrujada.

Para resolver isso, você pode usar uma técnica de autoliberação miofascial simples. Pegue uma barra de LPO, coloque-a no rack na altura do quadril. Em seguida, pressione a massa muscular do seu antebraço (parte interna) contra a barra, usando o peso do seu corpo. Role lentamente para cima e para baixo, procurando pontos de maior dor ou tensão. Quando encontrar um ponto “gatilho”, pare, respire fundo e faça movimentos circulares com o punho e abra e feche a mão.

Essa técnica ajuda a “descolar” as fáscias e relaxar a musculatura profunda. Ao liberar essa tensão proximal (perto do cotovelo), você ganha liberdade distal (no punho) instantaneamente. Faça isso antes do treino ou em dias de descanso. A sensação é de um alívio imediato, permitindo que a mão dobre para trás sem aquela sensação de que algo vai rasgar.

Ganhando amplitude de extensão sem dor

Muitos atletas forçam o alongamento do punho de forma agressiva, o que pode irritar a cápsula articular.[1][2] O segredo para ganhar amplitude de extensão (necessária para o Front Rack e o Snatch) é a mobilização com movimento, e não apenas o alongamento estático passivo. Precisamos “enganar” o sistema nervoso para que ele permita o movimento sem disparar o alarme de dor.

Uma técnica excelente é a mobilização em quatro apoios com uma leve distração. Coloque uma faixa elástica (superband) presa em um poste baixo e a outra ponta no seu punho (bem na dobra da articulação). Afaste-se para criar tensão no elástico, puxando o punho para trás.[6] Apoie a mão no chão e balance suavemente para frente, entrando na extensão. A força do elástico ajuda a “abrir” espaço na articulação, evitando o impacto osso com osso.

Faça 10 a 15 repetições rítmicas, indo e voltando, sem forçar até a dor aguda. A ideia é mostrar ao corpo que aquele movimento é seguro. Com o tempo, essa mobilização reprograma a barreira de restrição do seu punho, permitindo uma recepção de barra muito mais confortável e fluida. Lembre-se: mobilidade se ganha com consistência, não com violência.

Mobilidade neural: quando a dor é choque ou formigamento

Às vezes, a dor no punho não é muscular nem articular, é neural. Se você sente formigamento, queimação ou choques que correm do pescoço ou cotovelo até a mão, pode haver uma compressão ou tensão no nervo mediano ou ulnar. O Snatch coloca esses nervos sob tensão máxima. Tratar isso como uma tendinite comum não vai resolver.

Para esses casos, usamos exercícios de “nerve gliding” ou deslizamento neural. Imagine o nervo como um fio dental que precisa deslizar livremente por dentro dos canais do braço. Um exercício simples para o nervo mediano (muito afetado no Snatch) é ficar em pé, esticar o braço para o lado com a palma da mão virada para a parede (como se fosse empurrar uma parede invisível), estender o punho e inclinar a cabeça para o lado oposto.

Vá e volte com a cabeça suavemente. Você deve sentir uma tensão leve, não dor. O objetivo é fazer o nervo deslizar, lubrificando seu trajeto. Isso é fundamental para atletas que sentem as mãos adormecerem durante o treino. Se a “fiação” elétrica do braço estiver livre, a musculatura funciona melhor e a dor “estranha” desaparece.


Reabilitação Inteligente e Retorno aos Treinos

Treinando ao redor da dor: modificações seguras

A pior coisa que você pode fazer ao sentir dor no punho é parar de treinar completamente. O repouso absoluto gera atrofia e perda de condicionamento, além de afetar seu psicológico. O segredo é o que chamamos de “repouso relativo”. Se o Snatch dói, não faça Snatch, mas continue treinando o resto do corpo e até partes do movimento que não agridam a articulação.

Você pode substituir o Snatch completo por Clean Pulls ou Snatch Pulls (puxadas altas), onde não há a recepção traumática e extensão de punho. Isso mantém sua força de puxada e explosão em dia. Exercícios de agachamento (Back Squat) não costumam afetar o punho se a pegada for ajustada. Mantenha as pernas e o core fortes enquanto o punho cicatriza.

Se a dor permitir, use Dumbbell Snatch (com haltere). A posição neutra da mão no haltere é muito mais anatômica e amigável para o punho do que a barra fixa. Isso permite treinar o padrão motor de jogar peso para cima da cabeça sem o estresse da extensão forçada e do desvio radial da barra. Use a criatividade para suar a camisa sem irritar a lesão.

Progressão de carga: a regra da não-dor

Quando a dor começar a ceder, a vontade de voltar para as cargas máximas será enorme. Resista. O tecido cicatricial novo é desorganizado e frágil. Precisamos aplicar carga de forma gradual para “pentear” essas fibras e torná-las resistentes novamente. Use a escala de dor de 0 a 10. Durante o exercício, a dor não deve passar de 2 ou 3 (um incômodo leve é aceitável). Se passar disso, a carga está alta demais.

Comece com a barra vazia focando 100% na técnica e na posição correta que discutimos antes. Aumente o volume (número de repetições) antes de aumentar a intensidade (peso). Faça muitas repetições leves para restaurar a confiança e a mobilidade.[5] Só aumente o peso se, no dia seguinte, a dor não tiver piorado (a chamada dor tardia ou “hangover pain”).

Se você treinou hoje e acordou amanhã com o punho latejando mais do que antes, você deu um passo maior que a perna. Recue um pouco. A reabilitação é uma montanha-rusaa, mas a tendência geral deve ser de melhora. Paciência é a sua melhor amiga aqui. Construa uma base sólida agora para não desmoronar depois.

Estabilidade dinâmica: exercícios essenciais de suporte

Para finalizar o retorno aos treinos, precisamos garantir que o punho saiba reagir a imprevistos.[3] O Snatch é caótico e rápido. Exercícios estáticos não são suficientes. Introduza exercícios de estabilidade dinâmica, como a caminhada em posição de Overhead com Kettlebell de cabeça para baixo (Bottoms Up Carry).

Nesse exercício, você segura o Kettlebell pela alça, mas com a parte pesada virada para cima. Isso exige uma estabilidade absurda do punho; qualquer deslize e o peso cai para o lado. Isso obriga seu sistema nervoso a recrutar cada fibra muscular estabilizadora em tempo real. É um dos melhores exercícios para “blindar” o punho para o LPO.

Outra opção excelente é a flexão de braço com instabilidade, usando argolas ou apoiando as mãos em uma bola medicinal. A instabilidade obriga o punho a fazer microajustes constantes, simulando a demanda de estabilização necessária quando você recebe uma barra pesada que não subiu perfeita. Prepare seu punho para a guerra, não para um passeio no parque.


Terapias e Abordagens Indicadas

Para fechar, se as dicas acima não resolverem completamente, é hora de buscar ajuda especializada. Como fisioterapeuta, utilizo e recomendo algumas abordagens específicas para acelerar a recuperação de dores no punho em atletas de LPO:

  • Terapia Manual e Osteopatia: Manobras de manipulação e mobilização dos ossos do carpo (como o escafoide e semilunar) são essenciais para destravar a articulação e restaurar o deslizamento natural.
  • Dry Needling (Agulhamento a Seco): Excelente para soltar pontos de tensão profundos nos músculos do antebraço que não conseguimos alcançar apenas com massagem, aliviando a tração nos tendões.
  • Laserterapia de Alta Potência: Ajuda muito na redução da inflamação aguda e estimula a regeneração tecidual em casos de tendinites ou lesões ligamentares leves.
  • Bandagens Funcionais (Taping): Podem ser usadas para dar suporte mecânico e feedback sensorial durante o retorno gradual aos treinos.

Cuide dos seus punhos com o mesmo carinho que você cuida do seu PR de agachamento. Eles são suas ferramentas de trabalho no box. Com paciência, técnica ajustada e os exercícios certos, você vai voltar a fazer Snatch pesado e, o melhor de tudo, sem dor. Bom treino e nos vemos no box!

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