Você chega ao consultório, deita na maca e já se prepara psicologicamente para ser “atropelado”. Existe uma crença quase religiosa no mundo dos esportes de que, para uma massagem ser eficiente, você precisa sair dela mancando ou com marcas roxas pelo corpo. Essa cultura do sofrimento, herdada dos treinos intensos, migrou para a sala de recuperação. Mas será que torturar seus tecidos moles é realmente a melhor forma de recuperar sua performance? Como fisioterapeuta, vejo isso todos os dias: atletas que acreditam que se não doer, eu não fiz meu trabalho direito.
Precisamos ter uma conversa muito honesta sobre a sua biologia. A massagem esportiva é uma ferramenta clínica, não um teste de resistência à dor. O objetivo dela é restaurar a função, melhorar a mobilidade e acelerar a recuperação. Se o tratamento está causando mais trauma do que o treino, algo está fundamentalmente errado na abordagem. O corpo humano responde a estímulos, e a dor excessiva é um estímulo de perigo, não de cura.
Hoje, vamos desmontar esse mito peça por peça. Quero que você entenda o que acontece embaixo da sua pele quando aplicamos pressão. Vamos falar sobre fáscia, sistema nervoso e circulação sanguínea de um jeito que vai mudar a forma como você encara sua próxima sessão de recovery. Prepare-se para descobrir que, às vezes, menos força bruta significa mais resultado fisiológico.
O Limiar da Dor: “Hurts so Good” ou Agressão?
Existe uma linha muito tênue, mas crucial, entre o que chamamos de “desconforto terapêutico” e a dor defensiva. O desconforto terapêutico é aquela sensação de “dor boa”. É quando eu pressiono um ponto de tensão e você sente um alívio misturado com incômodo, como se estivéssemos coçando uma coceira interna profunda. Seu cérebro entende aquilo como algo que precisava acontecer. Você consegue respirar através da sensação e, gradualmente, o tecido cede.
Por outro lado, existe a dor de agressão. É aquela dor aguda, cortante, que faz você prender a respiração, trincar os dentes e agarrar a borda da maca. Quando isso acontece, seu corpo entra em um estado de defesa fisiológica. Seu cérebro interpreta o toque do terapeuta como uma ameaça à integridade física e dispara sinais de alarme. Isso não é terapia, é uma batalha entre a minha mão e o seu sistema de alerta.
O mecanismo de “Guarding”: Quando o músculo luta contra o terapeuta
Quando a dor ultrapassa o limite aceitável, ocorre um fenômeno chamado Guarding ou Espasmo Protetor. Basicamente, o músculo se contrai involuntariamente para proteger a área que está sendo “agredida”. Imagine que eu estou tentando relaxar seu trapézio, mas aplico tanta força que seu músculo se contrai para evitar uma lesão.
O resultado é contraproducente. Eu estou empurrando para soltar, e seu corpo está empurrando de volta para proteger. Em vez de relaxamento e aumento do fluxo sanguíneo, criamos mais tensão, mais microtraumas e um sistema nervoso simpático (aquele do “luta ou fuga”) totalmente ativado. Você sai da mesa mais tenso do que entrou, com o cortisol lá no alto, justamente o oposto do que buscamos na recuperação.
A escala de dor na prática clínica: Navegando entre 5 e 7
Para evitar esse cenário de guerra, usamos uma escala visual de dor que vai de 0 a 10. Onde 0 é nada e 10 é a pior dor imaginável. A massagem esportiva eficiente deve navegar, na maioria das vezes, entre o nível 5 e 7. É uma zona onde você sente que o trabalho está sendo feito, existe pressão, existe profundidade, mas você ainda está no controle.
Se passarmos do 7, você começa a tensionar outras partes do corpo para compensar. Se ficarmos abaixo do 3 ou 4, talvez estejamos apenas aplicando um creme hidratante sem atingir as camadas musculares profundas que precisam de atenção. O segredo da massagem esportiva não é a força bruta, é a especificidade e o respeito ao limite do seu tecido naquele dia específico.
A Biomecânica do Toque Profundo: O que acontece lá dentro
Muitas pessoas acham que a massagem funciona porque estamos “esmagando” os nós. A realidade é mais sofisticada. Estamos lidando com a fáscia, um tecido conectivo que envolve cada músculo, fibra e órgão do seu corpo. A fáscia tem uma propriedade física chamada tixotropia.
Tixotropia significa que a fáscia se torna mais fluida quando agitada ou aquecida e mais sólida quando está parada e fria. Quando você sente rigidez, sua fáscia está densa, quase como uma gelatina dura. A fricção e a pressão da massagem geram calor e movimento mecânico que transformam essa “gelatina” em um estado mais líquido (sol), permitindo que os planos musculares deslizem uns sobre os outros novamente. Não é força que faz isso, é a combinação de pressão e calor gerado pelo atrito.
Isquemia e Hiperemia: O efeito de bombeamento vascular
Outro mecanismo vital é o ciclo de isquemia e hiperemia. Quando eu aplico uma compressão sustentada em um ponto gatilho (aquele nó dolorido), eu expulso o sangue daquela área momentaneamente (isquemia). Ao soltar a pressão, ocorre um efeito rebote: o sangue volta com força total e velocidade (hiperemia), trazendo oxigênio novo e nutrientes para um tecido que estava sufocado pela tensão.
Esse processo é como lavar uma esponja suja. Você precisa apertar para sair a água suja e soltar para entrar a água limpa. Se eu apenas apertar com força excessiva e não respeitar o ritmo do tecido, eu posso machucar os capilares sanguíneos, causando hematomas e impedindo essa troca vital de fluidos. A “lavagem” metabólica depende de um ritmo circulatório, não de esmagamento.
Quebrando aderências: A separação mecânica das fibras
Com o treino repetitivo, as fibras musculares podem desenvolver aderências cruzadas. O colágeno se deposita de forma desorganizada, colando uma fibra na outra. Isso limita o movimento e gera atrito interno. A massagem esportiva, através de técnicas de fricção transversa, busca realinhar essas fibras.
Pense nisso como pentear um cabelo embaraçado. Se você puxar o pente com toda a força de uma vez (massagem dolorosa excessiva), você arranca o cabelo e machuca o couro cabeludo. Se você for trabalhando os nós com paciência e firmeza (massagem técnica), você alinha os fios sem causar danos. O objetivo é a organização tecidual, não a destruição das fibras.
Periodização da Massagem: O Momento Dita a Pressão
Um erro clássico que vejo atletas cometerem é pedir uma massagem “para matar” um dia antes de uma competição importante. A massagem esportiva deve ser periodizada, assim como o seu treino de força ou de corrida. O que fazemos na pré-temporada é completamente diferente do que fazemos na véspera da prova.
Pré-evento: Por que a dor aqui é um erro estratégico
Nos dias que antecedem uma competição (24h a 48h antes), a massagem nunca deve doer. O objetivo aqui é aumentar o fluxo sanguíneo e despertar o sistema nervoso, mantendo o tônus muscular ideal. Se eu aplicar uma pressão profunda que cause dor, seu corpo vai reagir com inflamação e relaxamento excessivo ou dor muscular residual.
Você perde a “tensão elástica” necessária para a explosão e a força. Além disso, a dor altera sua propriocepção (a noção do corpo no espaço). Entrar em campo ou na pista com o corpo dolorido da massagem é pedir para ter uma performance abaixo do esperado. Nesse momento, a massagem é superficial, rápida e estimulante.
Pós-evento imediato: O foco na drenagem e o perigo do dano tecidual
Acabou a maratona ou o jogo final. Você está exausto. Esse também não é o momento para cavar seus músculos com o cotovelo. Seus tecidos sofreram microlesões severas pelo esforço. Eles estão inflamados e sensíveis.
Aplicar massagem profunda logo após o evento pode transformar microlesões em macrolesões. O foco no pós-evento imediato é puramente drenagem e relaxamento. Queremos ajudar o retorno venoso, acalmar o sistema nervoso e reduzir o espasmo. A dor deve ser zero. É um momento de carinho com a musculatura, não de correção mecânica.
Fase de Manutenção: O momento certo para “consertar” o problema
É aqui, longe das competições, durante a semana de treinos normais, que podemos ir fundo. Na fase de manutenção ou corretiva, temos tempo para o corpo se recuperar da manipulação. É nesse período que tratamos cicatrizes antigas, liberamos restrições fascias profundas e trabalhamos aqueles pontos crônicos.
Nesta fase, a intensidade pode subir. Podemos chegar àquele nível 7 de dor “boa”, porque sabemos que você terá dias para metabolizar essa inflamação controlada antes de precisar de performance máxima novamente. É o momento de “arrumar a casa” biomecânica.
O Sistema Nervoso no Comando: Neurofisiologia do Toque
Você não é um pedaço de carne na mesa do açougue; você é um sistema complexo governado pelo cérebro. A massagem esportiva é, antes de tudo, uma comunicação com o seu sistema nervoso. Se o seu cérebro não permitir a entrada do terapeuta, o músculo não relaxa.
Simpático vs. Parassimpático: A luta interna durante a massagem
O sistema nervoso autônomo tem dois modos principais: o Simpático (luta ou fuga) e o Parassimpático (descanso e digestão). A dor ativa o Simpático. O relaxamento e a recuperação acontecem no Parassimpático.
Se a massagem dói demais, você ativa o modo de luta. Seu coração acelera, suas pupilas dilatam (mesmo de olhos fechados) e seus hormônios de estresse, como o cortisol, aumentam. Nosso objetivo como fisioterapeutas é induzir o estado Parassimpático. É nesse estado que a recuperação tecidual realmente acontece. Portanto, a pressão deve ser suficiente para ser sentida, mas não tanto a ponto de ativar o alarme de incêndio do seu corpo.
A teoria das comportas da dor e a inibição descendente
Existe um mecanismo fascinante chamado Teoria das Comportas. Basicamente, o estímulo de toque e pressão compete com o estímulo de dor na entrada da medula espinhal. Uma massagem bem feita, firme e rítmica, inunda o sistema nervoso com informações sensoriais “boas”, fechando a porta para a sensação de dor crônica.
Isso explica por que você sai da maca sentindo menos dor do que entrou, mesmo que tenhamos mexido em lugares sensíveis. Se a massagem for agressiva demais, ela não fecha a comporta da dor; ela a arromba. O cérebro, em vez de modular a sensação, amplifica a proteção.
Respiração e feedback: A ferramenta do atleta na maca
Eu sempre instruo meus clientes: sua respiração é o meu guia. Se eu pressiono um ponto e você para de respirar (apneia), eu fui longe demais. A respiração profunda e rítmica é a chave para dizer ao seu sistema nervoso que está tudo bem, que aquele desconforto é seguro.
A expiração longa ativa o nervo vago, que ajuda a relaxar o tônus muscular global. O atleta na maca não é passivo; ele participa ativamente do processo através do feedback e da respiração. Se você precisa prender o ar para suportar a dor, a técnica está errada para aquele momento.
Sinais de Alerta: Quando a massagem se torna o vilão
Nem toda dor pós-massagem é normal. Precisamos distinguir a dor de “trabalho feito” da dor de lesão iatrogênica (causada pelo tratamento).
Hematomas extensos e o mito de que “roxo é bom”
Existe uma vertente antiga que diz que ficar roxo libera toxinas. Isso é fisiologicamente incorreto. Um hematoma é sangue que escapou dos vasos e está solto no tecido. É uma lesão. Embora algumas técnicas instrumentais (como raspadores) possam causar petéquias (pequenos pontos vermelhos), hematomas grandes e dolorosos são sinais de que capilares foram rompidos desnecessariamente.
O corpo agora tem dois trabalhos: recuperar do treino e reabsorver aquele sangue coagulado. Em vez de acelerar a recuperação, atrasamos o processo adicionando uma nova inflamação para o corpo resolver.
Inflamação aguda e Rabdomiólise: Riscos reais
Se você fez um treino absurdamente intenso (como uma ultramaratona ou um CrossFit pesado) e seus músculos estão no limite, uma massagem profunda pode ser perigosa. Existe o risco de Rabdomiólise, que é a quebra excessiva de tecido muscular liberando mioglobina na corrente sanguínea, o que pode sobrecarregar os rins.
Esmagar um músculo que já está quimicamente danificado pode aumentar essa liberação de proteínas tóxicas. Nesses casos extremos, o toque deve ser leve e drenante, jamais profundo e isquêmico.
A ressaca da massagem: Quanto tempo de dor pós-sessão é normal?
É normal sentir o corpo “batido” ou dolorido no dia seguinte a uma sessão de liberação miofascial profunda? Sim, é. Chamamos isso de resposta inflamatória terapêutica. Mas essa sensação deve durar no máximo 24 a 48 horas e deve ser uma dor muscular difusa, parecida com a de um treino novo.
Se a dor persistir por mais tempo, se houver dor aguda e pontual, ou se houver perda de função (você não consegue mover o pescoço, por exemplo), a sessão foi excessiva. A terapia manual deve facilitar o movimento, não limitá-lo por dias.
Terapias Aplicadas e Abordagens Integradas
Para finalizar, é importante entender que a massagem esportiva moderna não é apenas “mão na massa”. Utilizamos um arsenal de técnicas para obter resultados sem depender exclusivamente da dor.
A Liberação Miofascial Instrumental (IASTM) utiliza ferramentas de metal ou plástico para mobilizar a fáscia. Essas ferramentas permitem detectar fibroses que os dedos não sentem e tratá-las com menos força global e mais precisão, poupando o tecido saudável ao redor.
A Terapia de Pontos Gatilho (Trigger Points) foca na desativação de nódulos específicos de tensão. Aqui, a pressão é estática e controlada. A dor inicial (nota 7) deve cair para nota 3 ou 2 enquanto a pressão é mantida. Se a dor não baixar em 10 ou 15 segundos, o ponto não está cedendo e insistir com mais força é inútil.
O Dry Needling (Agulhamento a Seco) é uma alternativa excelente para quem não tolera a pressão manual profunda ou para músculos muito profundos. A agulha chega onde o dedo não alcança, desativando o ponto de tensão com precisão cirúrgica e, muitas vezes, com menos desconforto pós-sessão do que uma massagem agressiva.
A massagem esportiva é uma parceria entre terapeuta e atleta. Ela exige comunicação, respeito à fisiologia e timing. Se você está saindo da maca sentindo-se violado em vez de tratado, está na hora de repensar sua estratégia de recuperação. Seu corpo agradece o cuidado, não a surra.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”