Hérnia de Disco: Por que o diagnóstico por imagem nem sempre explica sua dor

Hérnia de Disco: Por que o diagnóstico por imagem nem sempre explica sua dor

Você entra no consultório segurando um envelope branco gigante ou um link de acesso digital. Seus olhos demonstram preocupação e, antes mesmo de eu perguntar “bom dia”, você me entrega o laudo da ressonância magnética como se fosse uma sentença judicial. Lá está escrito: protrusão discal, extrusão, redução de espaço intervertebral. O médico ou o radiologista usou termos complexos, e agora você tem certeza de que sua coluna está quebrada, frágil e que seu futuro será limitado. Essa cena acontece todos os dias na minha prática clínica.

A primeira coisa que preciso te dizer, olhando nos seus olhos, é que você não é o seu exame de imagem. Aquela foto em preto e branco do interior das suas costas é apenas um pedaço muito pequeno da história. Vejo pacientes com exames “terríveis” que surfam, correm e carregam os netos no colo sem sentir nada. E vejo pacientes com exames “limpos”, quase perfeitos, que mal conseguem sair da cama de tanta dor. Como isso é possível se nos ensinaram que a hérnia é a causa de todo o mal?

Vamos ter uma conversa franca sobre o que realmente acontece na sua coluna. Precisamos desconstruir alguns mitos que estão, literalmente, te travando. A dor é real, eu sei que você está sofrendo. Mas a causa dessa dor muitas vezes não está naquele disco que aparece um pouco torto na imagem. Entender isso é o primeiro passo para perder o medo e voltar a se movimentar com confiança. A ciência da dor evoluiu muito, e é hora de você se atualizar para se curar.

O Que a Ressonância Mostra e O Que Ela Esconde

A ressonância magnética é uma tecnologia incrível. Ela nos permite ver tecidos moles, discos e nervos com uma clareza impressionante. Mas ela tem um defeito grave quando se trata de dor lombar: ela é uma fotografia estática de um sistema dinâmico. Quando você entra naquele tubo, você está deitado, parado e relaxado. Não há gravidade agindo sobre sua coluna da mesma forma que quando você está em pé. Não há movimento, não há carga.

A vida acontece em movimento. A dor que você sente ao amarrar o sapato ou ao levantar da cadeira envolve músculos contraindo, fáscias deslizando e articulações girando. O exame não mostra nada disso. Ele mostra a anatomia, mas não mostra a função. É como tirar uma foto do motor de um carro parado. A foto pode estar linda, mas não te diz se o carro faz barulho quando acelera ou se a embreagem está patinando. Tratar apenas o que vemos na imagem é ignorar como seu corpo funciona no dia a dia.

Além disso, a ressonância não consegue capturar a “química” da dor. Muitas vezes, o disco herniado em si não está apertando o nervo mecanicamente o suficiente para explicar sua agonia. O que acontece é uma “sopa inflamatória”. O núcleo do disco vaza um material ácido que irrita a raiz nervosa. Essa inflamação química é invisível na imagem tradicional, mas é extremamente dolorosa. Por isso, às vezes o tamanho da hérnia no exame não tem nada a ver com o tamanho da sua dor. Uma hérnia pequena pode ser quimicamente agressiva, e uma hérnia gigante pode ser quimicamente neutra.

Envelhecimento natural: Rugas por dentro não doem

Você se assusta quando se olha no espelho e vê um cabelo branco ou uma ruga no canto do olho? Provavelmente não. Você entende que isso são sinais normais de que o tempo passou. Pois bem, sua coluna também envelhece. Discos desidratam, perdem altura e fazem pequenas barrigas (protrusões) conforme ficamos mais velhos. Isso é o equivalente interno às rugas da pele.

O problema é que a medicina convencionou chamar essas “rugas internas” de doenças. Quando você lê “discopatia degenerativa” no laudo, parece que sua coluna está apodrecendo. Mas, na maioria das vezes, isso é apenas o envelhecimento natural e esperado. Se pegarmos uma pessoa de 30 anos e compararmos com a coluna dela aos 60, haverá mudanças. Mas essas mudanças não significam, obrigatoriamente, dor.

Seu corpo é incrivelmente adaptável. Essas alterações acontecem lentamente, ao longo de décadas. Seu sistema nervoso e sua estrutura óssea se adaptam a essa nova configuração. Tentar “consertar” uma coluna envelhecida para que ela pareça com a de um jovem de 20 anos é uma batalha perdida e desnecessária. Aceitar que sua coluna tem marcas da vida, assim como seu rosto, tira um peso enorme das suas costas — literalmente.

A inflamação química: O inimigo invisível no exame

Vou aprofundar um pouco mais nessa questão química, porque ela é fascinante. O interior do seu disco intervertebral é uma substância que o seu sistema imunológico raramente vê. Quando o disco rompe e esse gel vaza, o corpo reage como se fosse um invasor estranho. O sistema imune ataca a região, gerando uma inflamação potente para limpar a área e cicatrizar.

Essa batalha microscópica libera substâncias chamadas citocinas inflamatórias. Elas deixam os nervos da região hipersensíveis. Imagine que o nervo é um fio elétrico. Normalmente, ele precisa de um estímulo forte para disparar dor. Quando banhado nessas substâncias, ele dispara com qualquer toque, ou até mesmo sem toque nenhum.

É por isso que você pode ter uma dor excruciante mesmo que a ressonância mostre que a hérnia mal toca no nervo. O problema não é o aperto mecânico (compressão), é a irritação química. A boa notícia é que nosso corpo é excelente em limpar essa inflamação com o tempo, e a fisioterapia ajuda a acelerar essa drenagem e acalmar a sensibilidade nervosa, sem precisar abrir suas costas para “tirar” a hérnia.

O Fenômeno das Hérnias Assintomáticas

Aqui está o dado mais chocante que compartilho com meus pacientes: se sairmos na rua agora e pegarmos 100 pessoas que nunca tiveram dor nas costas na vida e fizermos ressonâncias nelas, mais da metade terá hérnias de disco, protrusões ou degenerações. Estudos mostram que cerca de 50% das pessoas aos 40 anos têm alterações discais e zero dor. Aos 60 anos, esse número sobe para quase 90%.

Isso prova definitivamente que ter uma hérnia não é sinônimo de ter dor. A hérnia é apenas um achado anatômico, uma característica daquela pessoa, como ter o nariz torto ou o pé chato. Se tantas pessoas andam por aí com a coluna “feia” na foto e vivem felizes, por que você acha que a sua hérnia é a única culpada pelo seu sofrimento?

Isso muda o jogo. Significa que, quando você sente dor, a hérnia pode estar lá apenas como uma coincidência. Ela pode ser um “inocente” na cena do crime. Culpar o disco por toda dor lombar é um erro de diagnóstico que leva a cirurgias desnecessárias e tratamentos que falham. Precisamos investigar o que mudou na sua vida, no seu movimento e no seu estresse, e não apenas olhar para o osso.

Adaptação biológica: Seu corpo não é frágil

Nós fomos ensinados a pensar na coluna como uma pilha de blocos instáveis que pode desmoronar a qualquer momento. “Não pegue peso”, “não dobre as costas”, “sente-se reto”. Essas ordens criaram a imagem de que somos frágeis. A verdade biológica é o oposto: sua coluna é uma estrutura robusta, forte e feita para suportar carga.

A hérnia de disco tem uma capacidade incrível de reabsorção espontânea. O corpo percebe aquele material extravasado, o “come” (fagocitose) e o tamanho da hérnia diminui com o tempo. Estudos mostram que quanto maior e mais feia a hérnia extrusa, maior a chance de o corpo reabsorvê-la sozinho nos meses seguintes.

Seu corpo está constantemente em reparo. Ele não é uma máquina que gasta peças e precisa de reposição. Ele é um organismo vivo que se fortalece com o estímulo correto. Quando paramos de tratar a coluna como vidro e começamos a tratá-la como um sistema forte que está temporariamente sensibilizado, a recuperação acelera drasticamente.

O Efeito Nocebo: Quando o laudo do exame cria a dor

Palavras têm poder. Quando um profissional de saúde diz “sua coluna parece a de uma pessoa de 80 anos” ou “seu disco está prestes a explodir”, ele está injetando medo no seu cérebro. Chamamos isso de efeito Nocebo. É o contrário do Placebo. A crença negativa de que você tem algo grave aumenta a percepção da dor.

Ao ler o laudo cheio de termos assustadores, seu cérebro entra em estado de alerta máximo. Ele passa a monitorar a região lombar com uma lupa. Qualquer desconforto normal vira um sinal de perigo. Você começa a se mover de forma robótica para “proteger” a lesão imaginária.

Minha função é traduzir esse laudo para a realidade. “Osteófitos marginais” são apenas bicos de papagaio, que são calos ósseos de estabilidade. “Desidratação discal” é apenas menos água no disco, algo comum. Tirar o peso assustador dessas palavras diminui a ameaça. Quando o cérebro percebe que não há perigo iminente de colapso, ele relaxa os músculos e a dor diminui.

A Biomecânica do Medo: Cinesiofobia e Rigidez

A dor muda a forma como nos movemos. É instintivo. Se você torce o tornozelo, você manca. Mas na dor lombar crônica, desenvolvemos algo chamado Cinesiofobia: o medo irracional de se movimentar. Você acredita que se dobrar a coluna para pegar uma caneta, a hérnia vai pular para fora. Então você trava.

Você passa a se mover em bloco. Para olhar para o lado, vira o corpo todo. Para sentar, apoia as mãos com tensão. Essa rigidez constante é exaustiva para os músculos. Imagine ficar com o punho cerrado fazendo força o dia todo. No final do dia, sua mão vai doer. É isso que você está fazendo com os músculos das costas.

A tensão muscular protetora, que deveria durar apenas alguns dias após uma lesão aguda, vira um hábito. Essa “armadura” muscular comprime ainda mais os discos e as articulações, gerando uma nova dor, que é muscular e isquêmica (falta de circulação), e não mais causada pela hérnia original. Muitas vezes, o tratamento é ensinar você a relaxar e soltar essa proteção excessiva.

Quando a proteção vira o problema: O espasmo muscular

O espasmo muscular é a tentativa do corpo de criar uma cinta natural. É útil na fase aguda. Mas quando mantido por meses, ele altera a biomecânica normal. Músculos profundos que deveriam estabilizar a coluna (como o multífidus) param de funcionar corretamente, e músculos superficiais grandes (como o eretor da espinha) trabalham dobrado.

Esse desequilíbrio gera fadiga e dor. O paciente diz “minhas costas estão cansadas”. E estão mesmo. Elas estão fazendo uma maratona de contração isométrica 24 horas por dia por causa do medo. A hérnia pode estar quieta lá no canto dela, mas o músculo está gritando de exaustão.

Quebrar esse ciclo de espasmo exige confiança. Você precisa experimentar o movimento e ver que não quebrou. Precisamos expor sua coluna gradualmente a dobrar, girar e carregar peso, provando para o seu sistema nervoso que é seguro desativar esse modo de defesa.

A atrofia por desuso: Enfraquecendo a sustentação

O repouso absoluto é o pior inimigo da coluna. Antigamente, mandava-se o paciente ficar na cama. Hoje sabemos que isso atrofia a musculatura em velocidade recorde. Se você evita usar as costas por medo da hérnia, os músculos enfraquecem.

Uma coluna fraca tem menos suporte. A carga do dia a dia passa direto para os ligamentos e ossos, em vez de ser amortecida pelos músculos. Isso gera inflamação nas articulações facetárias. O sedentarismo induzido pela dor cria um cenário onde qualquer esforço mínimo gera dor, não porque a hérnia piorou, mas porque sua capacidade física diminuiu.

A solução é recondicionamento. Não é apenas “fortalecer o core” de forma estática. É fortalecer o corpo todo para que ele seja capaz de lidar com a gravidade. Músculos fortes protegem a coluna muito melhor do que qualquer remédio ou repouso.

A Dor é Construída no Cérebro, Não na Coluna

Aqui entramos na neurociência moderna. A dor não é um sinal de dano vindo do tecido. A dor é uma opinião do cérebro sobre o quanto de perigo você corre. O cérebro recebe informações da coluna, cruza com suas emoções, suas memórias passadas e seu nível de estresse atual, e decide: “Vou gerar dor para proteger esse indivíduo”.

Às vezes, o sistema de alarme quebra. Ele começa a tocar mesmo sem fogo. Chamamos isso de Sensibilização Central. O cérebro fica tão bom em produzir dor que passa a produzi-la com estímulos inofensivos, como um toque leve ou uma mudança de temperatura.

Nesse estágio, a dor é real, mas a causa não é mais a hérnia. A causa é um sistema nervoso hipersensível. Tratar a hérnia com cirurgia nesse caso geralmente falha, porque o problema está no processamento da informação, não na estrutura. Precisamos “recalibrar” o sistema de alarme.

O copo transbordando: Estresse, sono e contexto de vida

Você já notou que suas costas travam justamente quando você está passando por um divórcio, pressão no trabalho ou dormindo mal? Isso não é coincidência. O estresse emocional libera cortisol e adrenalina, substâncias que deixam os nervos mais sensíveis.

Uma noite mal dormida aumenta a sensibilidade à dor no dia seguinte. Se o seu “copo” de estresse já está cheio com problemas da vida, qualquer pequeno problema na coluna faz o copo transbordar em forma de crise de dor. A hérnia é apenas a gota d’água, não a água toda.

Tratar a coluna envolve olhar para o ser humano. Melhorar o sono, gerenciar a ansiedade e entender o contexto social em que você vive são partes essenciais do tratamento da dor lombar crônica. Às vezes, o melhor remédio para as costas é resolver um problema no trabalho.

A memória da dor e os gatilhos ambientais

Seu cérebro aprende. Se toda vez que você senta naquele sofá específico suas costas doem, o cérebro cria uma associação: sofá = perigo. Com o tempo, só de olhar para o sofá, você já pode sentir um desconforto preparatório. Isso é memória da dor.

Gatilhos ambientais podem disparar crises sem que haja qualquer mudança física na sua hérnia. O tratamento envolve quebrar essas associações. Precisamos criar novas experiências positivas de movimento. Mostrar ao cérebro que sentar no sofá pode ser seguro, que pegar o neto no colo é prazeroso e não perigoso. É reescrever a memória neural.

Terapias Aplicadas e Indicadas

Para finalizar, quero deixar claro que existe tratamento eficaz e ele raramente envolve cirurgia. A abordagem moderna da fisioterapia é ativa e educativa.

Método McKenzie (MDT) é uma das ferramentas mais poderosas que usamos. Ele avalia movimentos repetidos para encontrar uma “direção de preferência”. Muitas vezes, um movimento simples e específico, feito várias vezes ao dia, é capaz de centralizar a dor (tirar ela da perna e trazer para as costas) e aboli-la rapidamente, empurrando mecanicamente o material discal ou apenas dessensibilizando a área.

Educação em Neurociência da Dor (PNE) é o que fizemos neste texto: explicar o que está acontecendo. Entender a dor diminui o medo, e diminuir o medo diminui a dor. Isso é cientificamente comprovado.

Terapia Manual (mobilizações articulares e manipulações) ajuda a soltar a rigidez causada pelo medo e traz alívio temporário, abrindo uma janela de oportunidade para você se exercitar sem dor. Mas ela não “coloca a hérnia para dentro”. Ela modula o sistema nervoso.

E, fundamentalmente, a Exposição Gradual ao Movimento. Começamos com exercícios simples e vamos aumentando a complexidade e a carga, provando para o seu cérebro e seus músculos que sua coluna é forte e capaz. O objetivo não é apenas tirar a dor, é devolver sua liberdade de viver sem medo da própria coluna.

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