Você provavelmente já esteve nessa situação. O despertador toca, você se levanta motivado para o treino, mas ao colocar o pé no chão, sente aquela fisgada familiar no joelho ou no ombro. Nesse momento, surge a dúvida cruel que assombra desde o atleta de fim de semana até o olímpico. Devo ignorar e treinar mesmo assim ou devo voltar para a cama e descansar? Como fisioterapeuta, vejo essa cena se repetir diariamente no meu consultório. A resposta errada pode custar meses de reabilitação, mas a resposta certa pode ser a chave para sua evolução.
A cultura do “no pain, no gain” (sem dor, sem ganho) fez um estrago enorme na mentalidade esportiva. Ela nos ensinou que sentir dor é sinônimo de esforço e que parar é sinal de fraqueza. Precisamos desconstruir isso agora mesmo. A dor não é um troféu, é uma informação. É o painel de controle do seu corpo acendendo luzes de aviso. Se você ignorar a luz de óleo do seu carro e continuar acelerando, o motor funde. Com seu corpo, a lógica é a mesma, mas as peças de reposição são bem mais complicadas de instalar.
Hoje vamos ter uma conversa franca sobre como interpretar esses sinais. Não vou te dizer para nunca treinar com dor, porque na fisioterapia esportiva moderna sabemos que o repouso absoluto raramente é a solução. O segredo está na dosagem. Vamos usar uma ferramenta simples e poderosa chamada “Modelo do Semáforo”. Quero que você aprenda a ser o gerente do seu próprio corpo, tomando decisões baseadas em fisiologia e biomecânica, e não em teimosia ou culpa.
O Guia do Semáforo: Decodificando a Escala de Dor
Para facilitar nossa comunicação, usamos uma Escala Visual Analógica, ou EVA, que vai de 0 a 10. Zero é ausência total de dor e 10 é a pior dor que você pode imaginar, como uma fratura exposta. O Modelo do Semáforo divide essa escala em três zonas de cor. Entender onde você está nessas zonas é o primeiro passo para garantir que seu treino seja construtivo e não destrutivo.
Zona Verde (0-3): O desconforto aceitável e a adaptação
A Zona Verde engloba as dores que variam de 0 a 3 na escala. Aqui, falamos de um desconforto leve, aquela sensação de que “tem algo ali”, mas que não altera sua expressão facial nem sua vontade de continuar. Na reabilitação, muitas vezes prescrevemos exercícios que entram nessa zona. Isso porque, para fortalecer um tendão ou remodelar um tecido, precisamos de carga.
Você pode treinar na Zona Verde com segurança. O corpo está lidando bem com o estresse mecânico. Esse nível de dor geralmente está associado a adaptações normais do treinamento ou a pequenas sobrecargas que não representam risco iminente de lesão tecidual grave. É o sinal de que o corpo está trabalhando, mas dentro de um limite fisiológico seguro.
O importante aqui é a estabilidade dos sintomas. Se você começa o treino com dor nível 2 e termina com dor nível 2, ótimo. Você respeitou a capacidade do tecido. O problema é se esse 2 vira um 5 no meio da série. Enquanto se mantiver baixo e estável, você tem sinal verde para seguir sua planilha, talvez com pequenos ajustes de carga se necessário, mas sem parar.
Zona Amarela (4-6): O risco calculado e a monitorização
Aqui entramos em terreno perigoso. A Zona Amarela, com dores entre 4 e 5 (às vezes tocando o 6), exige cautela extrema. É aquela dor que você consegue suportar, mas que incomoda. Ela tira sua concentração. Você começa a fazer careta na última repetição ou precisa parar para “dar uma alongada” no meio da corrida.
Nesta fase, a regra é “prosseguir com cautela”. Geralmente, não recomendamos aumentar cargas ou intensidade se você está na zona amarela. É o momento de manter ou reduzir o volume. Se a dor passar de 5 durante o exercício, você deve parar ou modificar o movimento imediatamente. Continuar forçando aqui é brincar com a sorte.
A Zona Amarela é o purgatório da lesão. Você não está quebrado ainda, mas está a um passo disso. Se você insistir em treinar pesado nessa zona por dias seguidos, a inflamação local pode se tornar crônica ou você pode sofrer uma ruptura aguda. Aqui, o fisioterapeuta entra para ajustar a mecânica e garantir que você não cruze a linha para o vermelho.
Zona Vermelha (7-10): O sinal de parada obrigatória e dano tecidual
Quando a dor atinge o nível 7 ou mais, o sinal fechou. Não existe negociação com a Zona Vermelha. Essa dor é incapacitante, altera sua respiração e faz você proteger o membro instintivamente. Treinar nessa zona não traz ganho de força ou performance, apenas danos.
A dor de alta intensidade provoca uma resposta de proteção neurológica maciça. Seu corpo entra em modo de defesa. A técnica se deteriora completamente. O risco de transformar uma lesão simples em algo cirúrgico é altíssimo. Se você sente uma dor 7, pare o exercício agora. Não termine a série. Não tente “compensar” com outro exercício. Vá para casa.
Nesse estágio, a prioridade muda de “performance” para “cicatrização”. O tecido sofreu um insulto maior do que pode suportar e precisa de ambiente biológico para se reparar. Insistir aqui é o que chamamos de catástrofe no esporte. Respeite o vermelho para poder voltar ao verde mais rápido.
A Biomecânica da Compensação: O Preço Invisível
Muitos atletas me dizem: “Ah, dói um pouco, mas eu aguento, sou forte”. O problema não é apenas a dor que você sente, mas o que seu corpo faz para fugir dela. Nosso sistema nervoso é mestre em sobrevivência. Se uma peça dói, ele muda a forma como você se move para proteger aquela peça, e isso gera um efeito cascata desastroso.
Alteração do padrão motor: Quando o corpo foge da dor
Imagine que você tem uma dor no joelho direito, nível 4. Você decide correr. Inconscientemente, seu cérebro vai encurtar o tempo de apoio na perna direita e jogar o peso mais rápido para a esquerda. Você começa a mancar, mesmo que seja imperceptível a olho nu.
Essa alteração do padrão motor muda os vetores de força. Você para de absorver o impacto com o músculo (quadríceps) e começa a absorver com estruturas passivas (ligamentos e ossos) ou sobrecarrega a outra perna. Você acha que está treinando perna, mas está treinando um padrão de movimento patológico. Você está ensinando seu cérebro a se mover errado.
Treinar com dor moderada a alta grava esse “erro” no seu software motor. Depois que a dor passa, você continua se movendo errado por hábito neural, o que pode gerar novas lesões no futuro. Por isso, se a dor faz você mudar sua técnica, você deve parar ou reduzir a carga até conseguir executar o movimento com técnica perfeita.
A Inibição Muscular Artrogênica: O cérebro desligando a força
Existe um fenômeno fascinante e frustrante chamado Inibição Muscular Artrogênica. Quando uma articulação tem dor ou inchaço (edema), ela envia sinais para a medula espinhal que, reflexamente, “desligam” o músculo que move aquela articulação. É um mecanismo de proteção para evitar que você use uma peça quebrada.
Se você tenta agachar com o joelho doendo muito, seu cérebro não permite que o quadríceps contraia com força total. Você faz força, treme, mas o músculo não responde 100%. Treinar assim é ineficiente para ganho de hipertrofia ou força.
Você está gastando energia, mas o recrutamento de fibras motoras é pobre. Basicamente, você está cansando o sistema sem gerar o estímulo anabólico desejado. É muito mais inteligente tratar a dor e o inchaço primeiro para “destravar” o músculo e voltar a treinar com eficiência neural plena.
O efeito dominó na Cadeia Cinética: O vizinho paga a conta
Nosso corpo funciona em cadeias. O pé afeta o joelho, que afeta o quadril, que afeta a lombar. Se você treina com dor no tornozelo e limita a mobilidade dele para se proteger, o joelho vai ter que compensar essa falta de movimento.
De repente, você chega no consultório com dor no joelho, mas a origem é aquele tornozelo mal curado que você ignorou meses atrás. Chamamos isso de lesão secundária. A dor original altera a mecânica de tal forma que uma estrutura vizinha saudável começa a sofrer sobrecarga.
Ignorar a dor local é convidar uma lesão global. Proteger o local da dor alterando a mecânica é uma estratégia de curto prazo do corpo que cobra juros altos a longo prazo. Mantenha a integridade da cadeia cinética resolvendo o problema na fonte.
O Teste das 24 Horas: A Resposta Inflamatória
O que acontece durante o treino é importante, mas o que acontece depois é o veredito final. A fisioterapia esportiva usa a regra das 24 horas como um dos melhores indicadores de que acertamos ou erramos na dose de carga. O corpo leva um tempo para montar a resposta inflamatória, e precisamos ler esses sinais no dia seguinte.
A dor matinal e a rigidez articular
Ao acordar no dia seguinte ao treino, faça um check-up interno. Como você se sente ao dar os primeiros passos? Se a dor que você sentia no treino aumentou significativamente na manhã seguinte, ou se há uma rigidez articular que demora mais de 20 minutos para passar, nós erramos a mão.
Essa rigidez matinal excessiva indica que houve um derrame articular (líquido dentro da articulação) ou uma inflamação tecidual aguda. O corpo “colou” as estruturas durante a noite para tentar reparar o dano.
Se a dor volta ao nível basal (o normal do dia a dia) ou some na manhã seguinte, significa que o estresse foi absorvido e recuperado. Esse é o sinal verde para manter a progressão.
Latência da dor: Quando o corpo cobra no dia seguinte
Muitas lesões, especialmente as tendíneas e de sobrecarga óssea, não doem tanto na hora (“esfriou, doeu”). O atleta termina o treino se sentindo bem, mas acorda incapaz de andar. Isso é a latência da dor.
Se você tem esse padrão de resposta, não confie apenas na sensação durante o exercício. Você precisa usar o dia seguinte como guia. Se acordou pior, o treino de ontem foi excessivo, mesmo que na hora tenha parecido fácil. Ajuste a carga do próximo treino baseando-se na resposta de 24 horas, não na sensação imediata.
A tendência da dor ao longo das semanas
Não olhe apenas para um dia isolado. Olhe para a tendência. Se semana após semana sua dor basal (aquela dorzinha chata de repouso) está subindo de 2 para 3, depois para 4, você está num processo degenerativo ou inflamatório acumulativo.
O objetivo da reabilitação e do treino é que a dor permaneça estável ou diminua ao longo das semanas, mesmo com o aumento das cargas. Se a carga sobe e a dor sobe junto de forma linear, precisamos dar um passo atrás. O gráfico ideal mostra a carga subindo e a dor descendo ou se mantendo estável na zona verde.
Dor e Cérebro: Aspectos Neurofisiológicos
Você não sente dor no joelho. Você sente dor no cérebro. O joelho apenas envia o sinal de perigo (nocicepção), mas é o cérebro que decide se aquilo vai doer e quanto vai doer. Entender isso muda o jogo para quem convive com dores crônicas.
Sensibilização Central: Quando o alarme dispara sem fogo
Em casos de dor crônica (que dura mais de 3 meses), o sistema nervoso fica hipersensível. O “volume” do alarme está no máximo. Movimentos que não deveriam doer, ou cargas leves, geram uma resposta de dor desproporcional. Chamamos isso de Sensibilização Central.
Nesses casos, a dor não reflete necessariamente dano no tecido. O tecido pode estar cicatrizado, mas o alarme continua tocando. Aqui, treinar com um pouco de desconforto (zona verde/amarela baixa) é essencial para reensinar o cérebro de que aquele movimento é seguro. Precisamos dessensibilizar o sistema através da exposição gradual.
Cinesiofobia: O medo do movimento gerando incapacidade
O medo de sentir dor pode ser mais incapacitante que a própria lesão. A cinesiofobia faz o atleta evitar movimentos normais. Esse comportamento de evitação gera fraqueza, rigidez e atrofia, o que, ironicamente, causa mais dor.
É um ciclo vicioso: Dói -> Tenho medo -> Não mexo -> Fico fraco -> Dói mais. Para quebrar esse ciclo, precisamos enfrentar o movimento. Começamos com doses pequenas que geram confiança, provando para o cérebro que é possível se mexer sem catástrofe.
A diferença entre “machucado” e “doendo” (Hurt vs. Harm)
Um dos mantras mais importantes que ensino é: “Hurt does not equal Harm” (Doer não significa machucar). Sentir dor durante um exercício de reabilitação não significa necessariamente que você está rasgando fibras ou piorando a lesão.
Muitas vezes, é apenas o sistema nervoso sendo superprotetor. Saber diferenciar a dor de “trabalho/adaptação” da dor de “destruição” é libertador. A dor de destruição é aguda, penetrante e crescente. A dor de adaptação é difusa, tolerável e estável. Aprenda a dialogar com seu cérebro e acalmar o medo.
Tipos de Dor: Identificando o Inimigo
Nem toda dor é igual. Saber qual tecido está gritando ajuda a decidir se você para ou continua.
Dor Muscular Tardia (DOMS) vs. Lesão Aguda
A famosa dor do dia seguinte (DOMS) é difusa, pega o músculo todo, aparece 24-48h depois e melhora com movimento leve. Essa é sinal verde. Pode treinar. Já a dor de lesão aguda (estiramento) é pontual, como uma facada ou pedrada, acontece na hora do movimento e piora se tentar alongar. Essa é sinal vermelho.
Dor Neural e Radicular: O choque elétrico
Se a dor parece um choque, uma queimação elétrica ou vem acompanhada de formigamento/dormência que desce pelo braço ou perna, pare. Isso é dor neural. Nervos não gostam de ser esticados ou comprimidos. Insistir aqui pode gerar danos neurológicos duradouros. Procure ajuda profissional para descomprimir essa estrutura.
Dor Tendínea: O fenômeno do aquecimento
Tendões têm um comportamento curioso. Eles costumam doer no início do treino (frios), melhoram quando o corpo esquenta, e voltam a doer depois que o corpo esfria. Isso é clássico de tendinopatias. Se a dor for suportável (zona verde/amarela), você geralmente pode treinar, mas deve monitorar a dor do dia seguinte. Tendões precisam de carga para sarar, o repouso absoluto geralmente piora a qualidade do tendão a longo prazo.
Terapias Aplicadas e Indicadas
Para encerrar nossa conversa, se você está navegando no semáforo e precisa de suporte, aqui está o que a fisioterapia moderna tem na caixa de ferramentas.
O Gerenciamento de Carga (Load Management) é a terapia número um. Mais do que qualquer máquina, ajustar o volume, a intensidade e a frequência do seu treino é o que vai curar você. O fisioterapeuta atua como um treinador da sua lesão, dosando o remédio chamado “movimento”.
A Terapia Manual (liberação miofascial, mobilizações articulares) é excelente para alívio temporário da dor e para ganhar aquela amplitude de movimento que falta para executar o exercício corretamente. Ela abre uma “janela de oportunidade” sem dor para que você possa treinar e fortalecer.
A Educação em Dor é fundamental para casos crônicos. Entender que a dor é um sistema de alarme e não apenas dano tecidual reduz o medo e a ansiedade, baixando a percepção dolorosa.
E, claro, o Exercício Terapêutico. Exercícios isométricos (fazer força sem movimento) são fantásticos para alívio de dor tendínea aguda. Exercícios excêntricos (focar na descida do peso) são ótimos para remodelar tecidos. O segredo é a personalização.
Lembre-se: seu corpo quer se mover. A dor é apenas uma conversa. Escute, respeite o semáforo e mantenha-se em movimento inteligente. Bons treinos!

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”