Você acorda cedo, checa a previsão e vê que o mar subiu. A sessão de surf dura duas horas intensas, com muita remada para furar a arrebentação e disputar as ondas da série. Você sai da água se sentindo ótimo, com a mente lavada. No final do dia, tem aquele treino marcado no box. O quadro branco (WOD) anuncia: 50 Thrusters e 50 Pull-ups. Nesse momento, você sente uma pontada leve, quase um aviso tímido, lá no fundo do ombro. Se você ignorar esse sinal e for para o treino com a mesma intensidade que surfou, estamos plantando a semente de uma lesão que pode te tirar da água por meses.
Como fisioterapeuta, recebo surfistas no meu consultório toda semana com a mesma queixa: “Doutor, meu ombro ‘pinça’ quando levanto o braço”. A culpa quase nunca é de um único movimento, mas da soma de dois esportes que exigem demandas brutais da mesma articulação. O surf é predominante em resistência muscular e rotação interna. O Cross Training, muitas vezes, foca em potência e movimentos acima da cabeça. Combinar os dois é possível e até benéfico, mas exige uma estratégia inteligente de gestão de carga.
Vamos conversar sobre como seu corpo funciona mecanicamente nessas duas situações. Quero que você entenda que seus ombros não são feitos de titânio e que o descanso estratégico é tão importante quanto o suor. O objetivo aqui não é fazer você parar de treinar, mas sim treinar para surfar mais e melhor, sem viver à base de anti-inflamatórios e gelo.
A Anatomia do Conflito: Entendendo a Sobrecarga
Para proteger seus ombros, primeiro você precisa entender quem está sofrendo lá dentro. O herói (e vítima) dessa história é o manguito rotador. Ele é um grupo de quatro pequenos músculos que abraçam a cabeça do úmero. A função principal deles não é gerar força bruta, mas sim manter a bola do ombro centralizada na articulação enquanto os músculos grandes fazem o trabalho pesado.
O Manguito Rotador: Estabilizador, não Motor Primário
Pense no manguito rotador como os cabos que seguram um mastro de tenda. Se o vento (a carga externa) for muito forte e os cabos estiverem frouxos ou desgastados, o mastro cai. Quando você surfa, você usa esses músculos por horas a fio para estabilizar cada braçada. Eles entram em fadiga. Se logo depois você vai para o box e joga uma barra pesada acima da cabeça, você está pedindo para esses músculos estabilizarem uma carga explosiva enquanto já estão exaustos.
O resultado biomecânico é que a cabeça do úmero perde a centralização. Ela sobe e esmaga as estruturas que passam logo acima dela, como a bursa e o tendão do supraespinhal. Isso é o início do que chamamos de Síndrome do Impacto. O músculo fadigado falha na sua função primária de proteção, deixando a articulação “solta” e vulnerável a atritos ósseos internos que geram inflamação.
É crucial entender que a fadiga do manguito não dá os mesmos sinais que a fadiga do bíceps ou do quadríceps. Você não sente aquela queimação óbvia na hora. O sinal é mais sutil: uma perda leve de precisão no movimento, um ombro que parece “subir” em direção à orelha ou uma dorzinha noturna. Aprender a ler esses sinais é o primeiro passo para evitar o desgaste crônico.
A Mecânica da Remada e a Rotação Interna
O surfista vive em rotação interna. Observe sua postura na prancha: peito levantado, mas os ombros tendem a rodar para frente na fase de puxada da água. Além disso, ficamos horas sentados na prancha ou no computador com os ombros caídos para frente. Isso encurta a musculatura anterior (peitoral) e alonga excessivamente a posterior.
Quando você chega no treino e precisa fazer um Snatch ou um Overhead Squat, você precisa de rotação externa para encaixar o ombro em uma posição segura. Se a sua mecânica de surf já bloqueou essa rotação externa, seu corpo vai compensar. Ele vai arquear as costas ou projetar o pescoço para frente para conseguir completar o movimento.
Essa briga mecânica entre o padrão do surf (fechado) e o padrão do levantamento de peso (aberto) é onde a lesão acontece. Se não houver um trabalho específico de “destravar” essa rotação antes de pegar na barra, você estará moendo cartilagem a cada repetição. A remada cria um padrão postural que precisa ser neutralizado, não reforçado pelo treino.
O Impacto dos Movimentos “Overhead” (Acima da Cabeça)
Movimentos como Push Press, Thruster e Handstand Push-ups são excelentes para força global, mas são agressivos para um ombro cansado de remar. A posição acima da cabeça diminui naturalmente o espaço dentro da articulação (espaço subacromial). Se adicionarmos carga e repetição, esse espaço fica crítico.
No Cross Training, o volume costuma ser alto. Fazer 50 repetições de algo acima da cabeça com o manguito já inflamado da remada do dia anterior é a receita para a tendinite. A inflamação gera inchaço (edema), e o inchaço ocupa espaço. Quanto menos espaço, mais atrito. Vira um ciclo vicioso.
Você precisa avaliar o custo-benefício. Se o surf é sua prioridade, talvez não faça sentido buscar recordes de carga em movimentos overhead nos dias de swell. A articulação tem um limite de tolerância diária para compressão. Ultrapassar esse limite consistentemente leva a lesões degenerativas, como rupturas parciais do tendão, que são chatas e demoradas para tratar.
Gerenciamento de Volume: O Segredo da Longevidade
A palavra mágica aqui é periodização. Você não pode estar 100% no surf e 100% no treino funcional ao mesmo tempo, o tempo todo. O corpo precisa de ondas de carga e descarga. Se o mar está flat, a carga no treino sobe. Se o mar está clássico, a carga no treino desce ou muda de foco.
A Regra da Prioridade: O mar manda na agenda
Sempre digo aos meus clientes: o mar é a variável incontrolável. Você não agenda as ondas, elas aparecem. O treino de academia é controlável. Portanto, o mar manda na sua periodização. Se a previsão indica um swell sólido para quarta-feira, seu treino de terça-feira não pode destruir seus ombros.
Na terça, você deve focar em membros inferiores, mobilidade ou cardio metabólico (corrida, bicicleta). Poupe a cintura escapular. Chegar no outside com o ombro “fresco” te dá mais segurança e performance. E no dia do surf intenso? Se ainda quiser treinar, faça um treino regenerativo, focado em soltar a musculatura, e não em bater PR (recorde pessoal).
Essa flexibilidade mental é difícil para quem gosta de seguir planilhas rígidas. Mas a rigidez na planilha leva à rigidez no corpo. Aceite trocar o dia de “Upper Body” pelo dia de “Legs” se as ondas estiverem boas. Sua longevidade no esporte depende dessa inteligência logística.
Monitorando a Fadiga Aguda vs. Crônica
A fadiga aguda é aquele cansaço normal pós-treino que passa com uma boa noite de sono e alimentação. A fadiga crônica é traiçoeira. Ela se acumula quando você emenda dias intensos de surf com dias intensos de treino sem recuperação total.
Os sintomas sistêmicos aparecem antes da dor no ombro: irritabilidade, sono ruim, falta de apetite ou uma sensação de “corpo pesado” constante. Se você sente isso, seu sistema nervoso está pedindo arrego. Um sistema nervoso fadigado controla mal os músculos. E um controle motor pobre é a porta de entrada para lesões traumáticas.
Use ferramentas simples de monitoramento. Pergunte-se de 0 a 10 como está sua energia ao acordar. Se estiver abaixo de 6 por três dias seguidos, é hora de um Deload (semana de descarga). Reduza o peso e o volume dos treinos pela metade, ou tire dias de folga total do box para focar apenas em surf leve e alongamento.
Sinais Silenciosos de Exaustão Articular
O ombro avisa antes de quebrar. Um dos sinais mais claros é a perda de Amplitude de Movimento (ADM). Tente fazer este teste simples: encoste as costas na parede e tente levantar os braços esticados até tocar os polegares na parede, sem desencostar a lombar. Se um braço chega e o outro não, ou se você sente dor no final, temos um problema.
Outro sinal é a dor “pontada” durante a noite. Se você dorme sobre o ombro e acorda com dor, isso indica inflamação ativa na bursa. Diferente da dor muscular tardia (aquela dor boa de treino), a dor articular é aguda, localizada e não melhora com aquecimento.
Se você precisa tomar um anti-inflamatório para conseguir treinar ou surfar, pare tudo. Você desligou o alarme de incêndio enquanto a casa pega fogo. Medicamento mascara a dor, permitindo que você cause mais dano à estrutura. Respeite o sinal de dor como um limite biológico que não deve ser cruzado.
Adaptações no Box: Treinando Inteligente para Surfar Melhor
O Cross Training é uma ferramenta fantástica se adaptada. O problema não são os exercícios, é a dose e o momento. Podemos modificar o treino para que ele dê suporte ao surf, em vez de competir com ele. Vamos falar de escolhas inteligentes dentro do box.
Substituindo Movimentos de Empurrar Vertical
Nos dias em que seus ombros estão fadigados da remada, evite empurrar peso para cima da cabeça. Substitua o Push Press ou Jerk por variações de supino inclinado com halteres Landmine Press. Esses exercícios trabalham a força de empurrar, mas em um ângulo que agride muito menos o espaço subacromial.
O Landmine Press (aquele exercício com a barra encaixada no canto da parede) é excelente porque permite um movimento mais natural da escápula e não exige flexão total do ombro. Você ganha força de ombro e tríceps sem colocar a articulação na zona de risco de impacto.
Outra opção é focar em isometria. Segurar um peso acima da cabeça (Overhead Carry) com boa postura ensina estabilidade sem o atrito repetitivo de subir e descer a barra. Estabilidade é ouro para o surfista.
O Foco na Puxada Horizontal e Retração Escapular
Surfistas já puxam muito na vertical (remada). O que falta é a puxada horizontal para equilibrar. Exercícios como Ring Rows (remada na argola), Bent Over Rows (remada curvada) e Face Pulls são obrigatórios.
O foco deve ser na retração escapular: juntar as escápulas lá atrás como se quisesse segurar uma caneta entre elas. Isso fortalece os romboides e o trapézio médio, músculos que combatem a postura “curvada” do surfista. Um ombro que fica para trás é um ombro saudável.
Inclua Face Pulls no final de todo treino. É um exercício corretivo maravilhoso que trabalha rotação externa e deltoide posterior. Faça com cargas leves e muitas repetições (15 a 20). Pense nisso como a “escovação de dentes” do seu ombro: higiene diária necessária.
Ginástica Estrita vs. Kipping: O perigo do balanço
O Kipping (aquele balanço usado para fazer pull-ups mais rápido) gera uma força de tração violentíssima no ombro na fase baixa do movimento. Para um ombro de surfista, que já pode ter alguma frouxidão ligamentar ou desgaste, isso é perigoso.
Dê preferência para a ginástica estrita (Strict Pull-ups, Strict Toes-to-Bar). O movimento estrito constrói força real e controle motor. Se você não consegue fazer 5 barras estritas perfeitas, não deveria estar se balançando na barra. O controle muscular deve vir antes da inércia.
O movimento estrito recruta mais fibras musculares e coloca menos estresse nos ligamentos e lábio glenoidal. Para o surf, a força estrita transfere muito melhor para a remada de potência do que a força gerada pelo balanço do quadril.
Biomecânica da Escápula: A Base de Tudo
Seu ombro só funciona bem se a escápula (a pá nas costas) funcionar bem. Ela é a base de lançamento do braço. Se a base é instável, o canhão (braço) não tem precisão. Fisioterapeutas olham para a escápula antes de olhar para o ombro.
Discinese Escapular: Quando a base falha
Muitos surfistas têm o que chamamos de discinese escapular: a escápula não se move de forma suave. Ela “salta”, “trava” ou fica alada (pontas para fora). Isso acontece porque os músculos que deveriam grudá-la nas costelas estão fracos ou inibidos.
Quando você levanta o braço, a escápula precisa girar para cima para abrir espaço. Se ela não gira, o osso do braço bate no acrômio. Corrigir o ritmo da escápula é essencial. Isso não se faz com peso, se faz com exercícios de controle motor conscientes e chatos, mas que salvam sua articulação.
Ativação do Serrátil Anterior e Trapézio Inferior
Esses são os dois melhores amigos do surfista. O serrátil anterior fica na costela, embaixo do braço. Ele “chupa” a escápula contra o tórax. O trapézio inferior puxa a escápula para baixo, longe da orelha. Surfistas tendem a usar muito o trapézio superior (pescoço), o que gera tensão e eleva o ombro.
Exercícios como Scapular Push-ups (flexão só de escápula) e “Y” no chão ou na bola suíça ativam essa musculatura esquecida. Antes de começar o WOD, gaste 5 minutos acordando esses músculos. Isso garante que, quando você pegar a barra pesada, os músculos certos estarão segurando a base.
Mobilidade Torácica: Liberando o caminho para o ombro
A coluna torácica (meio das costas) precisa ser móvel. Se você é rígido no meio das costas (comum em quem trabalha sentado e surfa), sua coluna não estende. Para levantar o braço, você compensa forçando o ombro ou a lombar.
Use o rolo de espuma (foam roller) para liberar a coluna torácica antes e depois do treino. Deite no rolo e tente “abraçá-lo” com as costas, soltando o ar. Uma torácica solta permite que a escápula deslize livremente. Muitas dores de ombro somem “magicamente” apenas destravando a coluna torácica, sem nem tocar no ombro.
Terapias Aplicadas e Manutenção Preventiva
Para encerrar, quero deixar claro que a manutenção profissional acelera seus resultados. Não espere quebrar para consertar.
A Osteopatia é fundamental para alinhar a biomecânica. O osteopata pode manipular a coluna torácica, a clavícula e a primeira costela para garantir que toda a cintura escapular esteja móvel. Muitas vezes, um bloqueio no pescoço está “desligando” a força do seu ombro.
A Liberação Miofascial manual ou instrumental é necessária para soltar o peitoral menor e o grande dorsal. Esses músculos, quando tensos, rodam o ombro para frente. Soltá-los devolve a postura correta. O Dry Needling (agulhamento a seco) é fantástico para desativar pontos-gatilho no infraespinhal e trapézio, aliviando aquela dor referida que desce pelo braço.
E, claro, exercícios de Cinesioterapia Específica com elásticos (Theraband). Rotação externa e interna com cotovelo colado no corpo, feitas diariamente em casa, blindam o manguito rotador. Pense nisso como o “óleo” do motor. Seu corpo é sua máquina mais valiosa. Trate-o com respeito, intercale os estímulos com inteligência, e você terá ondas e treinos incríveis pela vida toda. Nos vemos na água!

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”