Surf de Ondas Grandes: O preparo físico e fisioterapêutico para o impacto

Surf de Ondas Grandes: O preparo físico e fisioterapêutico para o impacto

Você está no outside, o horizonte escurece e uma montanha de água se aproxima. O barulho é ensurdecedor, diferente de qualquer marola de verão. Ali, naquele momento, não existe meio-termo: ou você desce a onda da vida, ou a onda desce em cima de você. No surf de ondas grandes, o corpo humano é levado ao limite absoluto da resistência física e mental. Não estamos falando apenas de remar forte; estamos falando de sobreviver a uma máquina de lavar de toneladas que quer te dobrar ao meio.

Como fisioterapeuta que lida com atletas, vejo muitos surfistas focarem apenas na prancha mágica ou na viagem para o Havaí, esquecendo que o equipamento mais importante é a própria carcaça. Seus ligamentos, seus discos intervertebrais e seus pulmões são o que separam uma história de glória de uma lesão catastrófica. Vamos conversar sério sobre como preparar seu corpo para aguentar o tranco quando o mar sobe de verdade. Esqueça o treino “fitness” de praia; a preparação para o Big Surf é sobrevivência, biomecânica e controle de pânico.

A Zona de Impacto: O que acontece com o corpo numa “Vaca” Gigante

Para entender como se preparar, primeiro você precisa respeitar o que o oceano faz com você. Uma queda em ondas grandes não é um tombo; é um acidente de trânsito embaixo d’água. As forças envolvidas são brutais e multidirecionais. Seu corpo sai de uma velocidade de 40 ou 50 km/h para zero em segundos, ou é arremessado e girado violentamente.

A física da desaceleração brusca: O efeito chicote (Whiplash)

A lesão mais subestimada no surf de ondas grandes acontece no pescoço. Quando você cai e a água bate no seu corpo, ou quando a espuma te pega por trás, sua cabeça tende a continuar o movimento ou ser jogada para trás violentamente. Isso cria um efeito chicote (whiplash) idêntico ao de uma batida de carro.

Seus músculos cervicais entram em espasmo imediato para proteger a medula. Se eles não estiverem fortes o suficiente, a força é transferida para os ligamentos e discos do pescoço. É comum surfistas saírem da água com torcicolos severos, tontura ou formigamento nos braços. Isso não é “cansaço”, é trauma cervical. Preparar o pescoço para resistir a essas forças G é obrigatório, não opcional.

Compressão da coluna e a pressão da água: Muito além da lombalgia comum

Imagine ser empurrado para o fundo por uma mão gigante. A pressão da coluna de água sobre você, somada à turbulência que te dobra em posição fetal ou te estica em hiperextensão, gera uma carga compressiva absurda nas vértebras.

No consultório, vejo surfistas de ondas grandes com discos lombares desidratados e microfraturas nas facetas articulares. Diferente do surfista comum que tem dor por ficar muito tempo remando (extensão estática), o big rider sofre com impacto dinâmico. Sua coluna precisa funcionar como um amortecedor hidráulico de alta performance. Se o seu core não ativar em milissegundos para estabilizar a coluna durante o caldo, os ossos batem uns nos outros.

Hiperextensão e rotação: Quando o corpo vai para onde a articulação não vai

A água não respeita a anatomia. Em uma vaca, é comum que uma perna fique presa na turbulência enquanto o tronco gira para o outro lado. Isso gera torques de rotação que destroem joelhos (meniscos e ligamentos cruzados) e ombros.

Além disso, a força da onda pode puxar seus membros para amplitudes extremas — aquele braço que vai parar lá atrás das costas quando você tenta furar a onda errada. A preparação física precisa incluir treino de força em amplitudes finais. Não adianta ser forte apenas no meio do movimento; você precisa ser forte quando seu braço está quase sendo arrancado do corpo.

Preparação Fisiológica: O Pulmão e a Mente

Aqui é onde separamos os meninos dos homens (e as meninas das mulheres). No surf convencional, a apneia é curta. No Big Surf, ela é longa, profunda e acontece sob estresse máximo. Seu coração está a mil por hora, queimando oxigênio, e de repente… escuro.

Tolerância ao CO2 vs. Falta de O2: O verdadeiro vilão da apneia

Você precisa entender isso: a vontade desesperada de respirar que você sente não é falta de oxigênio (O2). É excesso de dióxido de carbono (CO2). Seu corpo ainda tem oxigênio para te manter vivo por minutos, mas seu cérebro entra em pânico porque o CO2 subiu.

O treino fisioterapêutico e respiratório foca em dessensibilizar você a esse alarme de incêndio. Trabalhamos tabelas de CO2 para que você aprenda a tolerar a queimação no peito e as contrações do diafragma sem entrar em pânico. Se você se desespera, gasta o pouco O2 que tem e o risco de apagamento aumenta. Manter a calma enquanto seu corpo grita por ar é treinável.

O diafragma como músculo estabilizador e respiratório

O diafragma tem dupla jornada. Ele respira e estabiliza a coluna. Quando você está tomando uma vaca, seu corpo tende a travar o abdômen para se proteger (estabilização), o que torna a respiração eficiente mais difícil logo antes ou depois do caldo.

Precisamos treinar seu diafragma para ser forte e flexível. Um diafragma tenso ou espasmado diminui sua capacidade pulmonar e aumenta a dor nas costas. Exercícios de vácuo abdominal e respiração contra resistência são fundamentais para que esse músculo consiga expandir a caixa torácica rapidamente naqueles poucos segundos que você tem para respirar entre uma série e outra.

Treinamento em hipóxia e a resposta de “luta ou fuga”

Simular o estresse é vital. Fazer exercícios de alta intensidade (como bicicleta ou corrida) prendendo a respiração ajuda a condicionar o corpo a funcionar em meio ácido (lactato alto).

No mar, quando a série entra, seu sistema nervoso simpático (luta ou fuga) dispara adrenalina. Isso é bom para reagir, mas ruim para a apneia, pois acelera o coração. O treino visa ensinar você a ligar o interruptor do sistema parassimpático (relaxamento) sob comando. Conseguir baixar a frequência cardíaca enquanto olha para uma parede de 10 metros é a habilidade suprema do big rider.

Construindo a Armadura: Fortalecimento Específico para o Caos

Esqueça os exercícios de equilíbrio em cima da bola suíça por enquanto. Para ondas grandes, você precisa de força bruta e estrutura. Você precisa de uma armadura muscular que proteja seu esqueleto do impacto.

Cadeia Posterior Blindada: Por que agachamentos e terras salvam sua vida

A cadeia posterior (glúteos, isquiotibiais, paravertebrais) é o motor do surfista e o escudo da coluna. O levantamento terra (deadlift) é, talvez, o exercício mais importante para você. Ele ensina sua coluna a ficar neutra sob cargas altíssimas e fortalece a “dobradiça” do quadril.

Quando você dropa uma onda gigante, a força G te empurra contra a prancha. Suas pernas e costas precisam sustentar 2, 3 vezes o seu peso corporal. Se você não tem força de base, suas pernas falham, você perde a linha e cai. Agachamentos pesados e levantamento terra constroem essa resistência estrutural.

O pescoço de Fórmula 1: Fortalecimento cervical negligenciado

Já falamos do efeito chicote. Agora, como prevenir? Olhe para os pilotos de F1; eles têm pescoços largos por uma razão. Você deve incluir isometria cervical e exercícios de fortalecimento do pescoço na sua rotina.

Usar elásticos ou a própria mão para criar resistência em quatro direções (frente, trás, lados) ajuda a criar um “colar cervical muscular”. Um pescoço forte mantém a cabeça estável durante a trepidação da onda, melhorando seu equilíbrio (o sistema vestibular fica na cabeça, lembre-se) e reduzindo drasticamente o risco de lesão na coluna cervical.

Joelhos à prova de balas: Treino excêntrico para absorver o “chop”

As ondas grandes raramente são lisas. Elas têm “degraus” e “chops” enormes. Seus joelhos funcionam como suspensão de carro de rally. O músculo quadríceps precisa ser capaz de absorver impacto repetitivo sem falhar.

O treino excêntrico (focar na descida do movimento, freando a carga) é essencial. Saltar de uma caixa e aterrissar suavemente, agachamentos lentos na descida, tudo isso prepara o tendão patelar e o quadríceps para aguentar a desaceleração. Se seu músculo não absorve, o menisco rasga. Simples assim.

Mobilidade Essencial: Onde você precisa ser flexível

Força sem mobilidade é rigidez, e rigidez quebra. No surf, você precisa ser forte nas extremidades, mas móvel no centro e nas articulações chave.

Tornozelos de borracha: A chave para não ser ejetado da prancha

Em uma prancha grande (gun) e pesada, em alta velocidade, qualquer rigidez no tornozelo é amplificada. Se você não tem dorsiflexão (capacidade de levar o joelho à frente sem tirar o calcanhar do chão), seu corpo vai compensar jogando o quadril para trás ou levantando o calcanhar. Resultado: perda de equilíbrio e ejeção.

Trabalhar a mobilidade de tornozelo permite que você fique mais baixo e conectado à prancha, absorvendo as irregularidades da onda sem perder o centro de gravidade. Soltar a panturrilha e mobilizar o tálus (osso do pé) é lição de casa diária.

Rotação Torácica: Dissociando o tronco para olhar o lip

Muitas vezes você precisa olhar para trás ou para cima para ver onde o lip está quebrando, enquanto suas pernas estão travadas na prancha indo para frente. Se sua coluna torácica (meio das costas) é dura, essa rotação vai forçar a lombar (que não gosta de rodar).

Melhorar a rotação torácica alivia a lombar e os ombros. Exercícios de “livro aberto” ou rotações sentadas ajudam a ganhar essa liberdade. Um tronco móvel permite ajustes finos de direção em frações de segundo, o que pode ser a diferença entre sair do tubo ou ser guilhotinado.

Quadril solto, coluna salva: A compensação mecânica

O quadril é o rei do movimento no surf. Se o quadril trava, a lombar sofre. No pop-up (ficar em pé), você precisa de flexão rápida de quadril para trazer a perna para frente sem arredondar as costas.

Surfistas com quadril rígido tendem a ter dores crônicas na lombar e joelhos valgos (caindo para dentro). Mobilizar a cápsula do quadril, alongar o psoas e os rotadores externos garante que a força gerada pelas pernas seja transmitida corretamente para a prancha, poupando a coluna vertebral.

A Fisioterapia no “Pós-Guerra”: Recuperação e Retorno

Você sobreviveu à sessão. Seu corpo está cheio de adrenalina, talvez com alguns hematomas e o pescoço duro. O que você faz nas próximas 24 horas define se você vai surfar amanhã ou mês que vem.

Destravando o sistema nervoso simpático após o trauma

Após uma situação de quase afogamento ou estresse intenso, seu corpo continua em estado de alerta. Os músculos ficam hipertônicos (duros) e o sono é ruim. A fisioterapia manual e técnicas de respiração ajudam a “resetar” o sistema.

Precisamos avisar seu cérebro que a ameaça acabou. Massagem relaxante, banhos de contraste (quente/frio) e respiração lenta e profunda estimulam o nervo vago, baixando o tom simpático. Se você não desliga esse modo de alerta, a recuperação tecidual não acontece de forma eficiente.

Liberação miofascial: Tratando a rigidez defensiva

O corpo cria “nós” de tensão (pontos gatilho) como forma de proteção após impactos. Soltar o diafragma, os escalenos (pescoço), o psoas e a fáscia plantar é crucial.

Não é apenas “massagem gostosa”; é liberação terapêutica para restaurar o fluxo sanguíneo e o deslizamento entre os tecidos. Um tecido “colado” é mais propenso a rasgar na próxima sessão. O uso de rolos de espuma (foam rollers) é bom para manutenção, mas mãos experientes de um fisioterapeuta encontram as tensões profundas que você não consegue alcançar.

Reabilitação de tecidos moles: Contusões e estiramentos profundos

Hematomas gigantes na coxa ou nas costas são comuns devido à pancada da prancha ou da água. Isso não é só estético; é sangue fora do vaso que pode calcificar se não for tratado (miosite ossificante).

Drenagem, uso de taping (bandagens) para circulação e movimentação precoce ajudam a limpar esses subprodutos inflamatórios. Se você teve um estiramento leve (aquela puxada na virilha), o protocolo não é repouso total, é carga otimizada. Movimento sem dor acelera a cicatrização muito mais do que ficar deitado no sofá.

Terapias Aplicadas e Indicadas

Para finalizar, quero deixar aqui o “menu” de terapias que considero essenciais para quem quer levar o surf de ondas grandes a sério. Não espere a lesão chegar para procurar ajuda.

Osteopatia é fantástica para alinhar a estrutura. Manipulações na coluna torácica e costelas (que sofrem muito na remada e impacto) ajudam a manter a mecânica respiratória livre. Ajustar a pelve e o sacro garante que suas pernas tenham o mesmo comprimento funcional, essencial para o equilíbrio na prancha.

Quiropraxia focada em esporte pode ajudar na mobilidade articular imediata e no alívio de bloqueios agudos pós-trauma, especialmente na coluna cervical e lombar.

Acupuntura e o Dry Needling (Agulhamento a Seco) são minhas ferramentas favoritas para soltar pontos de tensão profundos que a mão não alcança e para modular a dor. Para aquela dor no ombro crônica de tanto remar ou o pescoço travado, o agulhamento é quase milagroso.

E, claro, o Treinamento Funcional Específico de Surf. Procure profissionais que entendam a biomecânica da onda. Treinar apneia dinâmica na piscina, simular o desequilíbrio e fortalecer a musculatura estabilizadora profunda é o que vai te dar a confiança para olhar para baixo no drop e se jogar, sabendo que seu corpo aguenta o tranco.

O mar gigante é um templo, mas também é um ringue de luta. Esteja treinado, esteja flexível e, acima de tudo, esteja consciente do seu corpo. Nos vemos no outside!

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