Ultrassom Terapêutico: Quando ele é realmente necessário no esporte?

Ultrassom Terapêutico: Quando ele é realmente necessário no esporte?

Você provavelmente já passou por isso: sofreu uma lesão no treino, foi para a clínica e lá estava ele, o famoso aparelhinho de ultrassom com aquele gel gelado. O terapeuta ficou ali, fazendo movimentos circulares por alguns minutos, e você ficou se perguntando: “Será que isso está fazendo alguma coisa mesmo ou é só para passar o tempo?”. Essa dúvida é super comum e, honestamente, muito válida. No mundo da fisioterapia esportiva, o ultrassom já foi tratado como a cura para tudo, depois foi demonizado por alguns, e hoje, finalmente, encontramos o lugar certo para ele.

Como fisioterapeuta que lida com atletas ansiosos para voltar ao jogo todos os dias, eu preciso ser muito franco com você. O ultrassom não é mágica e, definitivamente, não conserta um músculo rasgado sozinho. Mas, quando usado na hora certa e com a configuração certa, ele é uma ferramenta biofísica poderosa. O problema é que, muitas vezes, ele é usado no “piloto automático”, sem um raciocínio clínico por trás.

Hoje, vamos ter uma conversa reta sobre essa tecnologia. Quero que você entenda o que está acontecendo debaixo da sua pele quando aquele cabeçote desliza sobre ela. Vamos separar o que é ciência do que é hábito antigo, para que você saiba exatamente quando essa terapia é o craque do seu tratamento e quando ela está apenas “fazendo número” na sua sessão.

Desmistificando a “Varinha Mágica”: O que acontece lá dentro?

Não é o mesmo ultrassom do bebê: A diferença entre ver e tratar

A primeira coisa que precisamos alinhar é: esqueça as imagens de bebês. O ultrassom diagnóstico (aquele das grávidas) usa ondas sonoras para criar uma imagem. O nosso, o Terapêutico, usa essas mesmas ondas, mas com uma potência e frequência ajustadas para interagir fisicamente com o seu tecido. Pense nele não como uma câmera, mas como um alto-falante muito potente que faz suas células vibrarem.

Essa vibração não é algo que você escuta. São ondas sonoras de alta frequência (megahertz) que penetram na pele e viajam através da gordura e músculo. Dependendo de como eu configuro a máquina, posso fazer essas ondas irem fundo (até o osso/articulação) ou ficarem na superfície (pele/tendão superficial). É tecnologia de precisão, não um massageador glorificado.

O Efeito Mecânico: A micro-massagem que você não sente

Quando o aparelho está ligado, mas você não sente calor nenhum, muitos acham que ele está desligado ou quebrado. Na verdade, estamos usando o efeito mecânico (pulsado). Imagine que cada célula do seu corpo é um balão cheio de água. A onda sonora passa por elas e as comprime e solta, milhões de vezes por segundo. Isso é o que chamamos de micro-massagem celular.

Essa agitação microscópica é fantástica. Ela altera a permeabilidade da membrana das suas células. Traduzindo: ela abre as portinhas da célula para que o “lixo” inflamatório saia e os nutrientes novos entrem. Isso acelera o metabolismo local sem aquecer, o que é perfeito para lesões super recentes onde qualquer calor seria um desastre.

O Efeito Térmico: Quando o calor profundo é o melhor remédio

Agora, se eu mudo a configuração para o modo contínuo, a conversa muda. Aquela vibração celular começa a gerar atrito. E atrito, como você sabe da física básica, gera calor. Mas não é um calorzinho superficial como uma bolsa de água quente que só esquenta a pele. É um calor que começa lá dentro, nas camadas profundas do músculo ou na cápsula da articulação.

Esse aquecimento profundo é ouro para tecidos rígidos. Ele aumenta o fluxo sanguíneo violentamente naquela área específica, trazendo oxigênio e células de reparo. Além disso, o calor deixa o colágeno (o material de que são feitos seus tendões e ligamentos) mais maleável, mais “elástico”. É a preparação perfeita para quando precisamos ganhar movimento em uma articulação travada.

O “Camisa 10” da Reabilitação: Quando o Ultrassom é indispensável

Fase Aguda e o controle do “caos” inflamatório

Acabou de torcer o tornozelo e ele está do tamanho de um melão? Aqui o ultrassom pulsado (aquele que não esquenta) brilha. Nessa fase, seu corpo está num caos inflamatório. As células estão gritando, há líquido vazando (edema) e dor. O ultrassom ajuda a organizar essa bagunça.

Ele estimula a liberação de células que “comem” o tecido morto (macrófagos) e acelera a fase de limpeza. Estudos mostram que ele pode ajudar a resolver o hematoma e o inchaço mais rápido do que apenas esperar a natureza agir. Se o seu fisioterapeuta usa o ultrassom nos primeiros dias pós-lesão, ele está tentando acelerar o relógio biológico da sua inflamação para chegarmos logo na fase de cura.

Quebrando a rigidez: Tratando cicatrizes e fibroses antigas

Sabe aquela lesão antiga na coxa que deixou um “caroço” duro? Ou aquela cirurgia que deixou uma cicatriz que repuxa? Isso é fibrose: tecido cicatricial desorganizado e duro. O ultrassom contínuo (térmico) é uma das melhores ferramentas que temos para isso.

Ao aquecer profundamente e vibrar essas fibras de colágeno duras, conseguimos torná-las mais maleáveis. É como amolecer uma massinha de modelar velha. Uma vez aquecida e vibrada, podemos entrar com massagem e alongamento para remodelar esse tecido, deixando-o mais funcional e menos propenso a rasgar de novo.

Fonoforese: Usando o som para empurrar remédio para dentro

Você sabia que podemos usar o ultrassom para “injetar” remédio sem agulha? Chamamos isso de Fonoforese. Misturamos um anti-inflamatório ou analgésico em gel junto com o gel condutor do aparelho. As ondas sonoras empurram as moléculas do medicamento através da pele, direto para o local da inflamação.

Isso é excelente para tendinites superficiais, como no punho ou no tendão de Aquiles, onde queremos uma concentração alta de medicamento no local sem precisar que você tome um comprimido que vai afetar seu estômago inteiro. É um uso inteligente e focado da tecnologia.

Quando o Ultrassom deve ficar no banco de reservas (Limitações)

A ilusão do alívio passivo: Por que só passar o aparelho não cura

Aqui é onde muitos atletas se frustram. O ultrassom alivia a dor? Sim. Ele conserta a causa da dor? Raramente. Se você tem uma tendinite no joelho porque seu quadril é fraco e sua pisada é errada, o ultrassom vai desinflamar o tendão hoje, mas a dor vai voltar amanhã assim que você correr.

O ultrassom é um coadjuvante. Ele prepara o terreno. Ele apaga o incêndio para que a gente possa reconstruir a casa. Se o seu tratamento é apenas ultrassom e choque, fuja. Sem exercícios de fortalecimento e correção do movimento, o ultrassom é apenas um band-aid temporário em uma ferida que precisa de pontos.

O perigo de mascarar a dor antes do treino

Cuidado com a analgesia antes da competição. O ultrassom pode diminuir a sensibilidade da dor temporariamente. Isso parece ótimo, mas a dor é o freio do seu corpo. Se você “adormece” o alarme de incêndio e vai treinar pesado, pode transformar uma microlesão em uma ruptura total porque não sentiu o aviso de parar.

A regra de ouro é: usamos ultrassom para tratar e recuperar, não para “esconder” a dor para conseguir treinar em cima da lesão. Isso é jogar roleta russa com seus ligamentos.

Áreas proibidas: Onde nunca devemos apontar o cabeçote

O ultrassom é energia pura. Existem lugares onde essa energia é perigosa. Nunca aplicamos sobre os olhos, sobre o coração (marcapasso nem pensar), sobre o útero em gestantes ou diretamente sobre placas de crescimento ósseo em crianças.

Além disso, áreas com infecção ativa ou câncer são proibidas, pois o aumento do metabolismo local pode espalhar a doença. Um bom profissional sabe mapear essas zonas de perigo e garantir que o tratamento seja seguro para você.

Mitos de Vestiário que precisamos derrubar agora

“Se não esquentar, não está funcionando?”

Esse é o clássico do vestiário. “Doutor, aumenta aí que não tô sentindo nada”. Como expliquei antes, o modo pulsado (para inflamação aguda) NÃO DEVE esquentar. Se esquentar numa lesão aguda, estamos piorando o inchaço. A ausência de sensação térmica não significa ausência de efeito terapêutico. Confie na dosimetria, não apenas na sua pele.

“Ultrassom cola osso quebrado?”

Existe um tipo muito específico de ultrassom (de baixa intensidade pulsada – LIPUS) que ajuda na consolidação óssea. Mas o ultrassom terapêutico comum, de clínica, se usado errado sobre uma fratura recente com alta potência, pode causar dor intensa (o periósteo, capa do osso, vibra e dói muito) e até atrapalhar o processo. Então, a resposta curta é: o aparelho comum da fisio não é cola de osso.

“Quanto mais tempo, melhor?”

“Deixa aí uns 20 minutos, doutor”. Não funciona assim. Existe uma janela terapêutica. Se aplicarmos tempo demais, podemos causar cavitação instável (formação de bolhas de gás no sangue que explodem e lesam células) ou queimaduras internas no osso. O tempo é calculado matematicamente baseado no tamanho da área da lesão. Geralmente, são poucos minutos. Mais tempo é apenas desperdício e risco, não mais cura.

A Estratégia Combinada: Potencializando os resultados

A janela de oportunidade: Alongar logo após o ultrassom térmico

Se usamos o modo térmico para aquecer uma fibrose ou um tendão encurtado, criamos uma “janela de oportunidade” de cerca de 5 a 10 minutos onde aquele tecido está super elástico. É nesse momento que eu, como terapeuta, entro com alongamento ou terapia manual.

Se você faz o ultrassom e vai para casa sentar no sofá, perdemos essa chance. O calor profundo deve ser o prelúdio para o movimento. É a hora de ganhar amplitude que estava travada.

O erro fatal de usar gelo imediatamente antes da aplicação

Parece óbvio, mas acontece. Paciente chega com gelo no joelho e pede ultrassom. O gelo fecha os vasos e esfria o tecido. O ultrassom quer abrir os vasos e aquecer (no modo contínuo). Um anula o outro ou, pior, o corpo fica confuso e a eficácia de ambos cai a zero. Se for usar gelo, use depois do treino e da reabilitação, como finalização.

A transição necessária: Quando largar o aparelho e pegar o peso

O objetivo do ultrassom é se tornar desnecessário. Assim que a dor aguda cede e a inflamação controla, o ultrassom deve ser gradualmente substituído por carga e movimento. Ficar meses fazendo ultrassom é sinal de tratamento estagnado. A cura real vem da carga controlada que ensina as fibras a serem fortes novamente. O ultrassom é a ponte, não o destino.


Terapias Aplicadas e Indicadas

Para finalizar nosso papo sobre o Ultrassom Terapêutico, é crucial entender que ele raramente joga sozinho. No contexto moderno da fisioterapia esportiva, ele é frequentemente combinado com:

  • Terapia Manual e Liberação Miofascial: Aproveitamos o relaxamento que o ultrassom proporciona para soltar a musculatura manualmente.
  • Exercícios Excêntricos: Para remodelar tendões (especialmente em tendinites), usamos o ultrassom para controle de dor e o exercício para estrutura.
  • Eletroestimulação (TENS): Muitas vezes usamos o “cabeçote combinado”, onde o ultrassom e o TENS saem juntos, tratando a dor (nervo) e o tecido (músculo) simultaneamente.

O ultrassom é uma ferramenta valiosa na caixa de ferramentas do fisioterapeuta, mas a mão que segura o aparelho e o cérebro que decide a dose são o que realmente definem o sucesso do seu tratamento.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *