Você provavelmente já usou uma bolsa de água quente para aliviar uma dor nas costas ou uma compressa morna naquele ombro que incomoda. O calor é um dos remédios mais antigos da humanidade porque ele traz conforto imediato e relaxamento. Mas existe um problema fundamental com a bolsa de água quente: o calor fica na pele. Ele penetra muito pouco, apenas alguns milímetros, e mal chega ao músculo profundo ou à articulação onde a lesão realmente está. É aqui que a Tecarterapia entra para mudar completamente o jogo da reabilitação física.
Como fisioterapeuta, vejo a Tecarterapia como uma extensão das minhas próprias mãos, mas com superpoderes térmicos. Não estamos falando de um calor que eu aplico em você, mas de um calor que eu faço o seu corpo gerar dentro de você. É uma tecnologia de radiofrequência que atravessa a pele sem queimá-la e agita as moléculas lá no fundo, perto do osso, do tendão ou do disco vertebral. O resultado é um aumento de temperatura interno, endógeno, que acelera processos biológicos que, sozinhos, demorariam semanas para acontecer.
Hoje vamos desmistificar essa tecnologia. Você vai entender por que tantos atletas de elite e pacientes com dores crônicas estão trocando o “choquinho” tradicional por sessões de Tecar. Vamos mergulhar na ciência do calor profundo e descobrir como ele pode ser a chave para destravar aquele movimento que você perdeu ou eliminar aquela dor que teima em não ir embora. Puxe uma cadeira e vamos conversar sobre como aquecer sua recuperação de verdade.
O que é essa tal de Tecarterapia e por que ela não é “apenas calor”?
A diferença entre o calor de fora para dentro e de dentro para fora
Imagine que você quer cozinhar um pedaço de carne grosso. Se você colocar em uma chapa muito quente, queima por fora e fica cru por dentro. Isso é o que acontece com a compressa quente ou o infravermelho tradicional. Eles aquecem a superfície, seus receptores da pele avisam que está quente e o corpo, para se proteger, aumenta a circulação na pele para resfriá-la. O calor se dissipa antes de chegar na lesão profunda. A barreira da pele é muito eficiente em bloquear a temperatura externa.
A Tecarterapia funciona de forma oposta. Ela usa uma corrente eletromagnética de alta frequência que passa pelos tecidos sem aquecer a superfície imediatamente. A energia encontra resistência lá dentro, nos tecidos, e essa resistência gera atrito molecular. Esse atrito gera calor. É o seu próprio corpo produzindo febre localizada e controlada, exatamente onde eu quero. Conseguimos elevar a temperatura de um menisco no joelho ou de um disco na coluna sem que sua pele sofra.
Essa capacidade de gerar calor profundo muda a fisiologia da região. Não estamos apenas “enganando” a dor com uma sensação gostosa. Estamos aumentando o metabolismo daquela área específica. As reações químicas de cura, que dependem de temperatura para acontecerem rápido, ganham um turbo. É a diferença entre tentar derreter um bloco de gelo com um secador de cabelo ou colocar ele no micro-ondas; a ação vem de dentro.
Entendendo a radiofrequência e a corrente elétrica no seu corpo
O nome “Tecar” vem de Transferência Elétrica Capacitiva e Resistiva. Parece complicado, mas o conceito é fascinante. O aparelho cria um campo eletromagnético entre uma placa que coloco nas suas costas (ou outra parte neutra) e o cabeçote que deslizo sobre a lesão. A energia fica “viajando” entre esses dois polos, passando através de você.
Não se preocupe, você não sente choque. A frequência é tão alta (geralmente entre 300 kHz e 1 MHz) que seus nervos nem percebem a eletricidade passando. Eles não têm tempo de despolarizar e causar a sensação de choque ou contração muscular. A única coisa que seu corpo percebe é a energia se transformando em calor. É uma corrente “invisível” para o sistema nervoso, mas extremamente visível para o metabolismo celular.
Essa corrente tem a capacidade única de atrair íons e mover fluidos. Pense nela como um ímã que movimenta as cargas elétricas dentro das suas células. Isso ajuda a reequilibrar a membrana celular, que muitas vezes está caótica em situações de inflamação e dor. Estamos organizando a casa a nível microscópico usando eletricidade suave e imperceptível.
A sensação durante a sessão: conforto térmico e a mão do terapeuta
Muitos pacientes chegam com medo de máquinas, achando que vai doer ou queimar. A realidade da sessão de Tecarterapia é oposta: é extremamente relaxante. A sensação é de uma massagem morna e profunda. Como o aplicador precisa estar em contato constante e em movimento, eu geralmente uso minha outra mão para massagear e mobilizar a área simultaneamente.
Você sente o calor crescendo gradualmente lá dentro. Eu, como terapeuta, controlo a intensidade baseada no seu feedback. Se você diz “está ficando muito quente”, eu diminuo na hora. O objetivo não é cozinhar o tecido, mas mantê-lo em uma temperatura terapêutica agradável. Muitas vezes, o paciente relaxa tanto com o alívio da dor e o calor interno que acaba cochilando na maca.
A combinação da tecnologia com o toque manual é o segredo. Não é uma máquina fria que eu ligo e saio da sala. Eu estou ali, sentindo a rigidez do seu músculo mudando conforme o calor penetra. A Tecarterapia potencializa a minha terapia manual, deixando seus tecidos macios como manteiga, facilitando muito o trabalho de soltar contraturas e ganhar movimento.
Capacitiva vs. Resistiva: Tratando do músculo ao osso
O modo Capacitivo: Focando nos tecidos moles e ricos em água
O aparelho de Tecar tem dois modos de operação, e saber usar cada um é o que diferencia um tratamento de sucesso. O modo Capacitivo usa um cabeçote revestido de cerâmica ou material isolante. Ele foca a energia nos tecidos que têm muita água, ou seja, logo abaixo do eletrodo.
Esse modo é perfeito para tratar músculos, pele e sistema vascular superficial. Se você chega com uma contratura no trapézio ou um estiramento na panturrilha, eu uso o modo Capacitivo. Ele gera um calor rápido e intenso na musculatura, relaxando as fibras e aumentando absurdamente a irrigação sanguínea local.
É como se estivéssemos irrigando um jardim seco. O sangue chega com força, trazendo oxigênio e nutrientes para as células musculares cansadas e levando embora o ácido lático e toxinas. Para soltar a musculatura antes de um exercício ou aliviar a tensão pós-treino, o modo Capacitivo é imbatível.
O modo Resistivo: Chegando onde a mão não alcança
Agora, se o seu problema é uma tendinite no ombro, uma fascite plantar ou uma dor no joelho, o modo Capacitivo não basta. Precisamos do modo Resistivo. Aqui, o cabeçote não tem isolamento. A energia passa direto pela pele e músculo e vai se concentrar nos tecidos mais duros, com menos água, que oferecem mais “resistência” à passagem da corrente.
Estamos falando de tendões, ligamentos, ossos, cartilagens e fáscias profundas. É aqui que a mágica acontece para lesões crônicas. Conseguimos aquecer a inserção do tendão de Aquiles lá no osso do calcanhar, algo impossível com outras terapias. O calor se concentra nessas estruturas profundas e fibróticas.
Esse modo é fundamental para tratar fibroses e cicatrizes antigas. O calor profundo amolece o tecido colágeno endurecido, permitindo que a gente ganhe mobilidade em articulações rígidas. É a ferramenta perfeita para “derreter” a rigidez de uma articulação congelada ou de uma tendinopatia crônica que não responde a nada.
Como o fisioterapeuta escolhe a frequência certa para você
A escolha entre Capacitivo e Resistivo não é aleatória; é uma decisão clínica baseada na anatomia da sua lesão. Muitas vezes, em uma mesma sessão, usamos os dois. Começo com o Capacitivo para preparar a área, trazer sangue e relaxar a musculatura superficial que está protegendo a lesão.
Depois, troco para o Resistivo para atacar o foco do problema lá no fundo. Essa alternância garante um tratamento completo, de fora para dentro e de dentro para fora. Além disso, ajustamos a frequência da onda. Frequências mais altas ficam mais superficiais, frequências mais baixas penetram mais.
Personalizar isso é crucial. Um paciente magro com dor no punho precisa de uma configuração totalmente diferente de um paciente robusto com dor profunda no quadril. A tecnologia nos dá as opções, mas é o raciocínio clínico que define o sucesso. Não existe receita de bolo na Tecarterapia; existe ajuste fino para a sua anatomia.
Aceleração da recuperação e alívio da dor (O efeito analgésico)
Quebrando o ciclo da dor crônica e a “memória” da dor
A dor crônica cria um ciclo vicioso. Dói, você tenciona o músculo para proteger, a tensão diminui a circulação, acumula toxinas e dói mais. A Tecarterapia entra como um “reset” nesse sistema. O calor profundo gera um bloqueio imediato na transmissão dos sinais de dor para o cérebro.
Ao aquecer as terminações nervosas, alteramos a velocidade de condução do nervo e promovemos a liberação de endorfinas locais. O alívio costuma ser instantâneo. Isso é vital porque permite que a gente se mova. E movimento é cura. Se eu consigo tirar sua dor na maca, você consegue fazer os exercícios de reabilitação com qualidade logo em seguida.
Além do efeito térmico, a própria corrente elétrica tem um efeito neuromodulador. Ela acalma os nervos hipersensíveis. Pacientes com dores neuropáticas ou ciáticas antigas relatam uma sensação de “alívio profundo”, como se alguém tivesse tirado um peso de cima do nervo.
Drenagem de edema: “Limpando” a área machucada
Inchaço (edema) é sangue e linfa parados onde não deveriam estar. Isso comprime tecidos e causa dor. A Tecarterapia, especialmente quando usada em modo atermico (sem calor excessivo) ou morno, estimula violentamente o sistema linfático. A passagem da corrente ativa os gânglios e vasos linfáticos, funcionando como uma bomba de drenagem.
Eu uso muito isso em entorses de tornozelo agudas. O tornozelo está uma bola. Aplicamos a Tecar com movimentos de drenagem e vemos o inchaço diminuir a olhos vistos. A pressão interna diminui, a mobilidade volta e a dor cai drasticamente.
Diferente da drenagem manual que atua mais na superfície, a Tecar mobiliza líquidos profundos. Ela expulsa os mediadores inflamatórios químicos que estão irritando a sua lesão. É uma faxina celular pesada que prepara o terreno para a cicatrização real começar.
Aumento do fluxo sanguíneo e a chegada de nutrientes reparadores
Para curar qualquer tecido, você precisa de tijolos e cimento. No corpo, isso significa oxigênio, glicose e células de reparo que viajam pelo sangue. Tecidos como tendões e ligamentos têm pouca vascularização natural, por isso demoram meses para sarar. Eles vivem em uma seca constante de nutrientes.
A hipertermia (aumento de calor) gerada pela Tecar provoca uma vasodilatação intensa e profunda. Estamos abrindo as estradas para os caminhões de suprimento chegarem. O fluxo sanguíneo pode aumentar em até 4 ou 5 vezes na região tratada durante a sessão.
Isso transforma um tecido estagnado e degenerado em um tecido metabolicamente ativo. Estamos forçando a natureza a olhar para aquela lesão e enviar recursos. Acelerar esse aporte nutricional é o que faz uma lesão de 6 semanas fechar em 3. É pura logística biológica acelerada pela física.
A Revolução Celular: O que acontece nas suas células quando a temperatura sobe
O aumento do metabolismo celular e a produção de energia (ATP)
Vamos dar um zoom microscópico. Suas células funcionam à base de reações químicas. Existe uma regra na química chamada Lei de Van’t Hoff: para cada aumento de 1°C na temperatura, a velocidade das reações metabólicas aumenta em cerca de 13%. Se aumentamos a temperatura interna em 3 ou 4 graus, estamos dobrando a velocidade de trabalho da célula.
Isso significa que as mitocôndrias, as usinas de força das células, começam a produzir ATP (energia) freneticamente. Uma célula lesionada é uma célula sem energia, em modo de sobrevivência. Com a Tecar, damos a energia que ela precisa para sair do modo de sobrevivência e entrar no modo de reparo.
Esse “boost” energético é fundamental. Sem ATP, não há síntese de proteínas, não há reparo de membrana, não há cura. A Tecarterapia é como um carregador turbo para a bateria das suas células lesionadas.
A transformação da matriz extracelular e a viscosidade dos tecidos
Entre as suas células existe uma substância gelatinosa chamada matriz extracelular. Quando você tem uma lesão crônica ou fica imóvel, essa gelatina fica dura, parecendo cola seca. Isso prende os movimentos e causa rigidez. O calor profundo altera a viscosidade dessa substância (tixotropismo).
Pense em um pote de mel. No frio, ele é duro. Se você aquece, ele fica líquido e fluido. A Tecarterapia faz exatamente isso com a suas fáscias e fibroses. Ela “derrete” a rigidez da matriz extracelular.
Isso permite que as fibras musculares deslizem umas sobre as outras novamente. A sensação de “corpo travado” desaparece. O tecido volta a ser elástico e complacente, o que é essencial para prevenir novas lesões quando você voltar a se exercitar.
Estimulação dos fibroblastos: A fábrica de colágeno e elastina
O objetivo final de qualquer tratamento de lesão é criar um tecido novo e forte. Quem faz isso são células chamadas fibroblastos. Eles produzem colágeno e elastina. A corrente elétrica da Tecar estimula diretamente a proliferação e a atividade desses fibroblastos.
Não estamos apenas aquecendo; estamos dando ordem de produção. Isso resulta em uma cicatriz interna de melhor qualidade, mais organizada e resistente. Em tratamentos estéticos, isso gera firmeza na pele. Na fisioterapia ortopédica, isso gera tendões e ligamentos capazes de suportar carga novamente sem romper.
Tecarterapia na vida real: Casos práticos do consultório
O corredor com fascite plantar teimosa
Tive um paciente corredor que estava há 8 meses com dor na sola do pé. Já tinha feito gelo, alongamento, palmilha, e nada resolvia. A fáscia estava espessa e degenerada, sem sangue chegando. Entramos com Tecarterapia em modo Resistivo focado no calcanhar e Capacitivo na panturrilha.
O calor profundo amoleceu a fibrose na inserção da fáscia. A vascularização aumentou. Em 5 sessões, ele voltou a correr sem aquela dor aguda da primeira pisada da manhã. O que o corpo não conseguiu resolver em 8 meses, a tecnologia destravou em 3 semanas.
A lombalgia travada do trabalhador de escritório
Outro caso clássico: paciente que trabalha sentado 10 horas por dia e travou a lombar ao pegar uma caneta no chão. Chegou torto no consultório. O músculo quadrado lombar estava em espasmo profundo, duro como pedra. Massagem manual doía demais.
Usei a Tecar em modo Capacitivo para gerar calor intenso no músculo. Em 10 minutos, o calor “desligou” o espasmo. O músculo derreteu. Consegui mobilizar a coluna dele sem dor. Ele saiu andando reto na primeira sessão. O calor profundo alcançou camadas musculares que meus dedos demorariam muito para acessar.
O pós-operatório de LCA e a redução do inchaço
Um atleta operou o ligamento do joelho (LCA). O joelho estava inchado, parecendo um melão, e ele tinha medo de mexer. Usamos a Tecar em modo atermico (sem calor) apenas para estimular a drenagem e a cicatrização interna.
A redução do edema foi visível. Com menos líquido dentro do joelho, a dor diminuiu e ele conseguiu ganhar amplitude de movimento (dobrar e esticar) muito mais rápido do que o protocolo tradicional. A tecnologia acelerou a biologia, permitindo que a fisioterapia ativa começasse antes.
Terapias Aplicadas e Indicadas
Para finalizar nosso papo sobre a Tecarterapia, é importante ressaltar que ela é uma ferramenta poderosa, mas brilha ainda mais quando combinada. Raramente uso ela sozinha. O protocolo de ouro envolve associar a Tecar com Terapia Manual (enquanto o calor age, eu mobilizo a articulação), Exercícios Terapêuticos (aproveitamos o alívio da dor para fortalecer a região) e Liberação Miofascial (o calor deixa a fáscia pronta para ser remodelada).
Se você tem placas metálicas grandes ou marcapasso, a Tecar pode não ser para você, mas para a grande maioria das lesões musculoesqueléticas, é um divisor de águas. Se você está cansado de tratamentos superficiais que só aliviam por algumas horas, procure um fisioterapeuta que trabalhe com radiofrequência e sinta a diferença de tratar o problema na raiz, de dentro para fora.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”