Você provavelmente já viu aquelas marcas roxas circulares nas costas de atletas olímpicos ou daquele seu amigo que vive na academia. A primeira impressão pode ser assustadora, parecendo que a pessoa entrou em uma briga feia, mas a realidade é bem diferente e muito mais terapêutica. Como fisioterapeuta, vejo a ventosaterapia ganhar cada vez mais adeptos, mas também vejo muita confusão sobre como ela realmente funciona. Não é mágica e não é apenas “sugar a pele”. É fisiologia pura aplicada para recuperar tecidos que estão sofrendo.
A grande dúvida que surge no consultório quando pego o kit de ventosas é sempre a mesma. O paciente pergunta se vou deixar os copos parados ou se vou ficar esfregando eles pelas costas. Essa é a distinção crucial entre a ventosaterapia estática e a dinâmica. A escolha não depende do meu humor no dia ou do que eu acho mais legal de fazer. Depende inteiramente do que o seu corpo está me dizendo e do tipo de lesão ou travamento que você apresenta naquele momento específico.
Vamos ter uma conversa franca sobre o que acontece debaixo da sua pele quando aplicamos esse vácuo. Quero que você entenda a diferença entre as técnicas para saber exatamente o que está acontecendo com seu corpo durante a sessão. O objetivo aqui é desmistificar o processo e te dar ferramentas para entender qual abordagem vai te tirar da dor mais rápido e devolver sua mobilidade.
O Básico que Funciona: Entendendo a Mecânica da Sucção
O vácuo como ferramenta de descompressão tecidual
A maioria das terapias manuais que fazemos envolve compressão. Quando faço uma massagem, estou apertando seus tecidos. Quando você usa um rolo de liberação, está esmagando o músculo. A ventosa é única porque ela faz exatamente o oposto. Ela trabalha com pressão negativa. Ao criar o vácuo dentro do copo, nós sugamos a pele e a fáscia para cima, criando espaço onde antes tudo estava colado e comprimido.
Imagine que seus músculos e a pele são camadas de um sanduíche que foram prensadas com força. O sangue não passa direito, o líquido linfático fica estagnado e os nervos ficam irritados. A ventosa levanta a camada de cima. Esse levantamento físico separa as camadas de tecido, permitindo que a hidratação volte a fluir entre elas. É uma descompressão mecânica direta que alivia a sensação de peso e aperto que você sente nas costas ou nas pernas após um dia longo.
Essa descompressão é vital para soltar aderências. Muitas vezes, a dor não está no músculo em si, mas na fáscia que o envolve, que ficou rígida e seca. Ao puxar essa estrutura para cima, forçamos mecanicamente a separação dessas fibras coladas. É como abrir espaço em uma sala lotada para que as pessoas possam voltar a se mexer livremente.
A resposta hemodinâmica e a troca de fluidos
Quando a ventosa suga a pele, você vê ela ficar vermelha quase instantaneamente. Isso não é apenas sangue vindo para a superfície à toa. Estamos forçando uma vasodilatação local massiva. O sangue arterial, rico em oxigênio e nutrientes, é puxado com força para aquela área específica que estava sofrendo por falta de irrigação.
Muitas lesões crônicas ou contraturas musculares possuem um ciclo vicioso de isquemia. O músculo tenso fecha os vasos sanguíneos, o sangue não chega, o músculo fica com fome de energia e contrai mais ainda. A ventosa quebra esse ciclo na marra. Ela obriga o sangue a entrar ali. Esse fluxo novo “lava” a região, removendo subprodutos metabólicos ácidos que estavam estacionados ali, causando dor e fadiga.
Além do sangue, movimentamos a linfa e o líquido intersticial. É uma troca de fluidos agressiva e necessária. Estamos tirando o líquido velho e sujo e trazendo líquido novo e limpo. Isso acelera o processo de recuperação celular de uma forma que o repouso sozinho demoraria dias para fazer. É dar um “reset” no ambiente químico daquela musculatura.
O alívio da dor através do bloqueio neural
Existe uma teoria muito interessante na fisioterapia chamada Teoria das Comportas. Basicamente, seu cérebro só consegue prestar atenção em um número limitado de estímulos por vez. A ventosa gera um estímulo sensorial muito forte de sucção e estiramento da pele. Esse sinal viaja rápido pelos nervos e chega à medula espinhal, competindo com o sinal da dor que estava vindo da sua lesão.
Ao bombardear o sistema nervoso com essa sensação de sucção, nós “fechamos o portão” para a dor. O cérebro foca na ventosa e “esquece” a dor muscular por um tempo. Isso gera um alívio quase imediato e permite que o músculo relaxe, pois ele não precisa mais ficar em espasmo protetor contra a dor.
Além disso, a sucção estimula mecanorreceptores que diminuem o tônus muscular. É uma via de mão dupla: tratamos o tecido fisicamente e enganamos o sistema nervoso para que ele baixe a guarda. O resultado é aquela sensação de moleza e relaxamento profundo que você sente logo depois que tiramos os copos.
Ventosaterapia Estática: O “Sniper” dos Pontos-Gatilho
Tratando isquemias locais e nós de tensão
A ventosa estática é quando colocamos o copo em um ponto e deixamos ele lá, parado, fazendo o trabalho dele. Essa técnica é o que eu chamo de “tiro de precisão”. Ela é perfeita para tratar os famosos pontos-gatilho (trigger points), aqueles nós duros e doloridos que você sente no trapézio ou no meio das costas. Esses nós são áreas de hipóxia, onde o tecido está sufocado.
Ao colocar a ventosa estática exatamente em cima do nó, criamos uma força de sucção concentrada e contínua. Isso força a abertura dos capilares naquele ponto minúsculo que estava travado. Diferente da dinâmica, que espalha o efeito, a estática foca toda a energia de cura em um centímetro quadrado de tecido doente. É uma intervenção cirúrgica sem bisturi.
O objetivo aqui é vencer a resistência do nó pela insistência. A sucção constante por alguns minutos exaure a capacidade do músculo de se manter contraído. Ele eventualmente cede e relaxa, permitindo que o sangue volte a circular. É fascinante sentir o nó “derretendo” debaixo do copo conforme o tempo passa.
A importância do tempo de permanência e a marca roxa
Na ventosa estática, o tempo é um fator crucial. Deixamos os copos agindo entre 5 a 15 minutos, dependendo da sua tolerância e da resposta da sua pele. É aqui que as marcas roxas mais escuras costumam aparecer. E entenda bem: essa marca não é um hematoma de pancada. É o resultado do sangue estagnado e toxinas sendo puxados para a superfície e filtrados pelo sistema linfático.
Quanto mais tempo deixamos, mais profundo é o efeito, mas também maior a marca. Essa marca nos dá um mapa visual da saúde do seu tecido. Áreas que ficam muito roxas indicam que ali havia muita estagnação de sangue e inflamação antiga. Áreas que ficam apenas rosadas indicam um tecido mais saudável e com boa circulação.
Não buscamos a marca roxa por estética ou para postar no Instagram. Ela é uma consequência biológica do extravasamento de sangue dos capilares sob pressão. Isso ativa o sistema imunológico local para limpar a área, o que inicia um processo de cura secundário muito poderoso após a sessão ter acabado.
Indicações precisas para dores agudas e pontuais
Eu escolho a ventosa estática quando você chega com uma dor aguda e localizada. Por exemplo, aquele torcicolo que não deixa você virar o pescoço, ou uma dor lombar pontual que trava seu movimento. Nesses casos, o tecido está tão sensível que tentar deslizar a ventosa seria tortura. A aplicação estática é mais tolerável e resolve o problema pontual.
Também é a escolha ideal para articulações específicas, como joelhos ou ombros, onde queremos aumentar o espaço articular e a mobilidade sem irritar a pele com atrito. Colocamos as ventosas ao redor da articulação e pedimos para você fazer movimentos leves. Isso se chama “Ventosa com Movimento” e é uma variação fantástica da estática.
Se você tem uma lesão antiga que vive incomodando no mesmo lugar, a ventosa estática é a ferramenta para quebrar esse ciclo de dor crônica localizada. Ela reinicia a inflamação de forma controlada para que o corpo finalmente conserte o que estava pendente.
Ventosaterapia Dinâmica: A “Drenagem” Miofascial Profunda
Deslizamento sobre trilhos anatômicos e fáscias
A ventosa dinâmica, ou deslizante, é quando aplicamos óleo na pele e movemos o copo com vácuo ao longo dos músculos. Se a estática é um tiro de precisão, a dinâmica é como passar um rolo compressor para alisar o asfalto. O objetivo aqui é tratar grandes áreas e longas cadeias musculares, como toda a musculatura das costas ao lado da coluna ou a lateral da coxa.
Nós deslizamos a ventosa seguindo o sentido das fibras musculares e da fáscia. Isso funciona como um “alisamento” interno. Imagine um lençol amassado sobre a cama; a ventosa dinâmica é o ferro de passar que estica e alinha as fibras desse lençol (sua fáscia). É extremamente eficaz para quem sente o corpo todo travado e rígido.
Essa técnica aborda os “trilhos anatômicos”, que são conexões de fáscia que ligam o pé à cabeça. Ao deslizar a ventosa por todo o trajeto, garantimos que não estamos soltando apenas um ponto, mas liberando a tensão de todo o sistema. É uma sensação de liberdade de movimento muito maior do que tratar apenas um ponto isolado.
O papel do lubrificante e a mobilização de fluidos
Para a ventosa deslizar, precisamos de um meio lubrificante, geralmente óleo vegetal ou creme neutro. O deslizamento cria uma onda de fluido na frente do copo. Estamos literalmente empurrando linfa e sangue venoso em direção aos gânglios para serem drenados. É uma versão turbinada da drenagem linfática, mas com foco em tecidos mais profundos.
Essa mobilização de fluidos é excelente para pós-treino ou para quem retém muito líquido e se sente inchado. A fricção gerada pelo deslizamento também aquece muito a pele, aumentando ainda mais a vasodilatação superficial. O paciente sente um calor agradável e uma diminuição rápida da rigidez.
O movimento rítmico do deslizamento também tem um efeito calmante sobre o sistema nervoso. Diferente da pressão fixa da estática, o movimento contínuo pode ser muito relaxante, semelhante a uma massagem profunda, desde que a pressão do vácuo esteja ajustada para não causar dor excessiva.
Preparação para o movimento e ganho de amplitude
Eu adoro usar a ventosa dinâmica antes de exercícios de mobilidade ou treino. Como ela aquece o tecido e torna a fáscia mais maleável, ela prepara o corpo para se mexer. Se você sente que seus isquiotibiais (parte de trás da coxa) estão curtos e limitando seu agachamento, alguns minutos de ventosa dinâmica soltam essa restrição elástica.
Ela reduz a viscosidade dos tecidos. Tecidos frios e rígidos são como mel na geladeira; tecidos trabalhados com ventosa dinâmica são como mel aquecido. Eles fluem. Isso previne lesões musculares, pois um tecido flexível absorve melhor as cargas do esporte do que um tecido rígido.
Para atletas que precisam de recuperação rápida entre competições, a dinâmica é a escolha de ouro. Ela “limpa” o músculo do lactato e outras toxinas metabólicas rapidamente, sem deixar a dor residual intensa que a ventosa estática profunda às vezes deixa nos pontos de maior tensão.
O Diagnóstico Diferencial: Quando Escolher Cada Técnica
Avaliando a qualidade do tecido: Rigidez vs. Estagnação
A decisão entre estática e dinâmica começa na minha avaliação com as mãos. Eu toco suas costas. Se sinto uma área fria, rígida como uma tábua e sem pontos específicos de dor aguda, geralmente opto pela Dinâmica. Precisamos trazer vida, calor e movimento para essa área extensa. O tecido precisa “acordar” e deslizar novamente.
Por outro lado, se ao palpar eu encontro aquele “caroço” que faz você pular de dor na maca, e o resto do tecido parece normal, a escolha é a Estática. Aquele ponto é uma área de estagnação concentrada. Passar a ventosa deslizando ali vai doer demais e pode não ser suficiente para desativar o nó. Precisamos da pressão contínua e focal para resolver aquele bloqueio específico.
Às vezes, encontramos os dois problemas. Uma musculatura globalmente tensa com pontos de dor aguda. Nesse caso, o raciocínio clínico deve guiar a sequência do tratamento para não sobrecarregar o sistema do paciente.
O feedback do paciente durante a aplicação
Você é parte ativa dessa escolha. A ventosaterapia dinâmica tende a ser mais sensível durante a aplicação porque estamos puxando a pele enquanto a movemos. Para alguns pacientes com fibromialgia ou hipersensibilidade, isso é insuportável. Nesses casos, a estática, com pressão controlada, é muito mais bem aceita e segura.
Eu sempre pergunto: “Essa dor é de alívio ou de sofrimento?”. Se for sofrimento, mudamos a técnica ou a pressão. A terapia não pode ser uma tortura. Se a pele do paciente é muito flácida ou tem muitos pelos, a dinâmica pode perder o vácuo constantemente, tornando a estática a única opção viável tecnicamente.
O seu conforto dita o ritmo. Se você está tenso esperando a próxima passada da ventosa, você está contraindo o músculo que eu quero relaxar. Isso anula o tratamento. A técnica escolhida deve ser aquela que permite que você solte o corpo na maca.
Combinando as duas técnicas na mesma sessão
O segredo dos melhores resultados muitas vezes está no “combo”. Gosto de começar com a Dinâmica com uma sucção leve. Isso serve como um aquecimento, trazendo sangue para a superfície, espalhando o óleo e preparando o sistema nervoso. O paciente se acostuma com a sensação e a fáscia superficial solta.
Depois desse preparo geral, eu identifico onde os problemas persistem. Onde a pele ficou mais vermelha? Onde o músculo ainda está duro? Aí eu entro com a Estática nesses pontos específicos, com uma sucção mais forte, para finalizar o serviço. É a estratégia do funil: começamos largo e terminamos focado.
Essa abordagem híbrida garante que tratamos tanto a restrição fascial global quanto os pontos-gatilho locais. O paciente sai da sessão sentindo-se leve (efeito da dinâmica) e sem as pontadas de dor (efeito da estática). É o melhor dos dois mundos aplicado com inteligência.
Mitos e Verdades sobre as Marcas e a Recuperação
Por que a cor da marca importa (e quando não importa)
Existe um mito de que “quanto mais roxo, melhor”. Isso é perigoso. Se ficar preto ou criar bolhas, causamos uma lesão na pele desnecessária. No entanto, a cor nos conta uma história diagnóstica segundo a Medicina Tradicional Chinesa, que ainda usamos como referência.
Marcas pálidas ou brancas indicam falta de circulação e deficiência de energia. Marcas vermelhas vivas indicam calor e inflamação aguda. Marcas roxas ou escuras indicam estagnação severa de sangue e toxinas antigas. Isso me ajuda a planejar as próximas sessões. Se ficou muito roxo, eu sei que aquela área precisa de mais atenção circulatória.
Mas atenção: nem todo mundo fica roxo. Pessoas com pele mais grossa ou boa circulação podem não marcar tanto, e isso não significa que o tratamento não funcionou. A eficácia é medida pelo alívio da dor e ganho de movimento, não pela tatuagem temporária que você leva para casa.
O processo de reabsorção e o sistema imunológico
A marca que fica é, tecnicamente, um extravasamento de sangue (equimose). Seu corpo interpreta isso como algo que precisa ser limpo. Ele envia células de defesa (macrófagos) para “comer” esse sangue velho e os pigmentos.
Esse processo ativa o sistema imunológico localmente. Enquanto seu corpo limpa a marca da ventosa, ele acaba limpando também restos de inflamação antiga que estavam ali por perto. É uma “carona” bioquímica. Por isso, a região continua melhorando dias depois da aplicação. Estamos usando o próprio sistema de limpeza do corpo para restaurar o tecido.
As marcas geralmente somem entre 3 a 7 dias. Se demorar mais que isso, é sinal de que seu sistema circulatório ou linfático está lento, e talvez precisemos trabalhar mais drenagem e exercícios aeróbicos no seu tratamento.
Cuidados pós-sessão para evitar sensibilidade excessiva
Depois de uma sessão forte, a pele fica sensível. Os poros estão abertos e a vascularização está máxima. Eu sempre recomendo: evite banhos muito quentes nas primeiras 4 horas, pois isso pode aumentar a vasodilatação e causar tontura ou coceira na pele.
Mantenha a área coberta e protegida do frio e do vento direto. Beba muita água. Como mobilizamos muitas toxinas e fluidos, seu corpo precisa de água para filtrar tudo isso nos rins e eliminar. Se você não beber água, pode sentir dor de cabeça ou fadiga no dia seguinte, a famosa “ressaca” do tratamento.
Evite treinar pesado o mesmo grupo muscular no dia da aplicação. O tecido foi manipulado e precisa de um tempo para se reorganizar. Dê um descanso de 24 horas para aquela região específica e você colherá os benefícios máximos da terapia.
Para finalizar nosso papo, a ventosaterapia, seja ela estática ou dinâmica, é uma ferramenta poderosa dentro de um plano de tratamento maior. Ela prepara o terreno para que outras terapias funcionem melhor.
Geralmente, associamos a ventosa com a Terapia Manual para refinar o que o copo soltou grosseiramente. O Dry Needling (Agulhamento a Seco) é um excelente complemento para pontos profundos que nem a ventosa estática alcançou. E, claro, nada disso se sustenta sem Exercícios Corretivos. A ventosa solta, mas é o exercício que ensina o músculo a trabalhar corretamente nessa nova amplitude livre de dor. Use a ventosa com sabedoria e estratégia, e seu corpo agradecerá.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”