Terapia por Ondas de Choque: O fim das tendinites crônicas em atletas?

Terapia por Ondas de Choque: O fim das tendinites crônicas em atletas?

Você provavelmente está lendo isso porque já tentou de tudo. Gelo, anti-inflamatórios, repouso, fisioterapia convencional com “choquinho” e ultrassom, mas aquela dor no tendão continua voltando toda vez que você aumenta a intensidade do treino. Eu vejo isso todos os dias no consultório. Atletas frustrados, prontos para desistir do esporte ou encarar uma cirurgia, porque uma tendinite que parecia simples virou um monstro crônico de meses ou anos. É aqui que entra a Terapia por Ondas de Choque (TOC).

Não estamos falando de um “choque elétrico”, e sim de uma onda acústica de alta energia. Imagine um avião quebrando a barreira do som; aquele estrondo sônico é, fisicamente, uma onda de choque. Na clínica, usamos uma pistola de ar comprimido ou eletromagnética que dispara um projétil interno, gerando uma onda de impacto mecânico que penetra no seu tecido. Parece agressivo, e de certa forma é, mas é uma agressão controlada e necessária.

A grande sacada dessa terapia não é apenas aliviar a dor momentaneamente. O objetivo é biológico. Queremos causar uma microlesão controlada em um tecido que “desistiu” de cicatrizar. Seu corpo, que já tinha ignorado aquela tendinite velha, recebe um sinal de alerta máximo para reiniciar o processo de cura. Vamos conversar sobre como isso funciona na prática e se é a solução para o seu caso.

O que é essa “martelada” biológica e como ela funciona?

Mecanotransdução: Transformando impacto físico em cura química

O conceito mais fascinante que você precisa entender é a mecanotransdução. Parece complicado, mas é simples: suas células têm a capacidade de sentir estímulos mecânicos (como pressão, estiramento ou impacto) e transformar essa sensação física em uma resposta química. Quando a onda de choque bate no tecido doente, ela comprime e distorce as células.

Essa distorção física faz com que as células liberem uma enxurrada de substâncias curativas. Estamos falando de fatores de crescimento, óxido nítrico e proteínas anti-inflamatórias. É como se estivéssemos sacudindo a fábrica celular e gritando “acordem e voltem ao trabalho!”. Sem esse estímulo mecânico potente, o tecido crônico (fibrosado e degenerado) permaneceria inerte, sem capacidade de auto-reparo.

Portanto, a onda de choque não é apenas uma massagem profunda. Ela é um gatilho para alterar a bioquímica local. Ela muda o ambiente celular de um estado de degeneração estagnada para um estado de regeneração ativa. É por isso que os resultados costumam ser duradouros, pois estamos tratando a biologia do tendão, não apenas mascarando o sintoma.

A neovascularização: Criando novas estradas para o sangue chegar

Um dos maiores problemas dos tendões é que eles são tecidos pouco vascularizados. O sangue chega pouco neles, o que significa menos oxigênio e nutrientes para reparo. Uma tendinose crônica é, muitas vezes, um tecido que está morrendo de fome e cheio de cicatrizes que bloqueiam o fluxo sanguíneo.

A Terapia por Ondas de Choque estimula comprovadamente a neovascularização. Isso significa a formação de novos vasos sanguíneos microscópicos. A energia da onda cria micro-rupturas nos capilares existentes e estimula a liberação de fatores de crescimento endotelial vascular (VEGF). O corpo responde construindo novas “estradas” para levar suprimentos para a área lesionada.

Com mais sangue chegando, o metabolismo local aumenta. O tecido morto e as toxinas são removidos mais rapidamente, e os blocos de construção para o novo colágeno chegam com mais facilidade. É uma revitalização completa da infraestrutura de suporte do seu tendão.

Diferença entre Ondas Radiais e Focais: Qual a ideal para o seu caso?

No consultório, temos dois tipos principais de equipamentos. As Ondas Radiais são geradas pneumaticamente (ar comprimido). Elas se espalham como um leque a partir da pele. São excelentes para tratar áreas maiores e mais superficiais, como a fáscia plantar, o tendão de Aquiles e músculos tensos. Elas têm um efeito muito bom também no relaxamento muscular associado à lesão.

Já as Ondas Focais são geradas eletromagneticamente e concentram toda a energia em um ponto profundo e minúsculo, como uma lupa concentrando a luz do sol. Elas penetram muito mais fundo sem machucar a pele. Usamos as focais para problemas mais profundos, como calcificações no ombro, tendinites perto do osso do quadril ou fraturas por estresse que não consolidam.

Saber qual usar faz toda a diferença. Muitas vezes, combinamos as duas. Usamos a radial para soltar a musculatura em volta e a focal para atacar o ponto exato da lesão no tendão. O fisioterapeuta precisa avaliar a profundidade e a natureza da sua lesão para escolher a ferramenta certa, senão é como tentar pregar um prego com uma chave de fenda.

A verdade sobre a dor durante e após a sessão

O fenômeno da “Analgesia por Hiperestimulação”

Vou ser sincero com você: a aplicação dói. Se não doer, provavelmente não estamos no lugar certo ou a intensidade está baixa demais para gerar o efeito biológico que queremos. Durante a sessão, buscamos o ponto de maior dor (o “biofeedback”) e aplicamos a energia ali. No entanto, acontece algo curioso após alguns segundos ou minutos: a dor diminui drasticamente.

Chamamos isso de analgesia por hiperestimulação. O estímulo é tão intenso e frequente que o sistema nervoso “esgota” a capacidade de transmitir o sinal de dor ou libera endorfinas locais para bloquear a sensação. É como se sobrecarregássemos o sistema e ele desligasse o disjuntor da dor temporariamente.

A maioria dos pacientes sai da sessão caminhando melhor do que entrou, com uma sensação de alívio ou dormência na área. Esse efeito analgésico imediato é ótimo, mas não significa que está curado. É apenas o sistema nervoso reagindo ao bombardeio sensorial.

O que esperar nas 24 a 48 horas seguintes (o efeito rebote)

Eu sempre aviso meus pacientes: “amanhã pode doer mais”. Como estamos provocando uma nova inflamação controlada para reiniciar a cicatrização, é natural que o corpo reaja. Nas 24 a 48 horas após a sessão, você pode sentir um desconforto, um peso ou uma dor latejante no local.

Isso não é um sinal de que o tratamento deu errado; pelo contrário, é sinal de que seu sistema imunológico respondeu ao chamado. Estamos transformando uma condição crônica (fria) em uma condição aguda (quente) para que o corpo volte a prestar atenção nela.

Geralmente, essa dor pós-sessão é perfeitamente tolerável e não exige medicação. Mas é crucial que você não tome anti-inflamatórios nesse período. Se você tomar um remédio para cortar a inflamação, você está cortando o efeito do tratamento que acabamos de fazer. Deixe o corpo trabalhar.

Por que a anestesia local é proibida nesse procedimento

Pode parecer tentador pedir uma anestesia local ou passar uma pomada anestésica antes para não sentir dor, mas isso é contraindicado na maioria dos protocolos sérios de ondas de choque. Primeiro, porque eu preciso do seu feedback. Você precisa me dizer “é aí que dói” para eu saber que estou atingindo o tecido doente e não um nervo ou vaso saudável.

Segundo, e mais importante, estudos mostram que o uso de anestésicos locais pode diminuir a eficácia da terapia. Acredita-se que o anestésico interfira na mecanotransdução e na resposta neural que buscamos.

Você precisa sentir a dor para que o cérebro entenda onde está o problema. É uma parceria entre terapeuta e paciente. Eu controlo a máquina, mas você é o GPS. Aguentar o desconforto por alguns minutos é o preço para acordar a cura do seu tendão.

Por que a Onda de Choque sozinha não faz milagre (A importância da Carga)

O erro de tratar o tendão como um pneu furado (ele precisa de movimento)

Muitos pacientes acham que vão fazer as 3 ou 5 sessões de ondas de choque, ficar em repouso no sofá e voltar a correr maratonas. Isso não vai acontecer. A onda de choque prepara o terreno, mas quem constrói o novo tendão é o exercício. Tendão não se cura com repouso absoluto; ele atrofia.

O tendão precisa de carga mecânica para alinhar as novas fibras de colágeno que a onda de choque estimulou. Se você apenas estimula a produção de colágeno mas não dá a direção de força (através do exercício), as fibras crescem bagunçadas, formando uma cicatriz ineficiente que vai doer de novo no futuro.

A terapia abre uma “janela de oportunidade” onde a dor diminui e o tecido fica mais maleável. É nessa janela que precisamos introduzir exercícios específicos. Se você apenas fizer a máquina e for para casa, jogou dinheiro fora.

Exercícios isométricos e excêntricos: O casamento perfeito com a terapia

Logo após a sessão ou nos dias seguintes, iniciamos um protocolo de exercícios. Os isométricos (fazer força sem movimento, como segurar um peso parado) são fantásticos para aliviar a dor e manter a força do tendão sem irritá-lo. Eles funcionam como um analgésico natural.

Conforme a tolerância aumenta, entramos com os exercícios excêntricos (focar na fase de descida do movimento, freando a carga). A contração excêntrica é o estímulo mais poderoso para remodelar o tendão e torná-lo forte novamente.

A onda de choque melhora a biologia (células, sangue, fatores de crescimento), e o exercício melhora a estrutura física (força, alinhamento, resistência). Um não vive sem o outro no tratamento de atletas.

A falha na gestão de carga: O principal motivo de recidiva

Se o seu tendão parou de doer após o tratamento, isso não significa que ele está pronto para a carga máxima. O tecido novo ainda está amadurecendo. O maior erro é voltar ao volume de treino anterior rápido demais.

Precisamos de uma progressão gradual. Se você corria 10km, não vai voltar correndo 10km na primeira semana sem dor. Vamos começar com 3km, alternando com caminhada, e subir 10% por semana. A gestão de carga é o que garante que o tecido novo aguente o tranco.

A onda de choque tira a dor, mas a disciplina na gestão de carga previne que ela volte. Eu ajudo você a planejar esse retorno, ajustando dia a dia conforme a resposta do seu corpo.

A Fisiologia da “Reinicialização” Inflamatória: Resetando o sistema

Transformando uma lesão crônica (degenerada) em aguda (ativa)

Tendinite crônica, na verdade, deveria ser chamada de tendinose. O sufixo “ite” significa inflamação, mas em casos crônicos, não há mais células inflamatórias ativas. O que existe é um tecido degenerado, cinzento, sem vida e com colágeno de má qualidade. O corpo “desistiu” de consertar aquilo e apenas convive com o problema.

A onda de choque chega para quebrar esse ciclo de estagnação. Ao causar o microtrauma controlado, trazemos de volta as células inflamatórias agudas (macrófagos, neutrófilos) que iniciam o processo de limpeza e reparo.

Estamos, literalmente, transformando uma doença degenerativa velha e fria em uma lesão aguda e quente, que o corpo sabe como resolver. É um “reset” no sistema operacional da cicatrização. Damos uma segunda chance para o corpo fazer o trabalho direito dessa vez.

Quebrando calcificações: A ação mecânica direta no depósito de cálcio

Em alguns casos, como no ombro, o corpo deposita cálcio dentro do tendão numa tentativa desesperada de torná-lo mais forte. Isso forma uma “pedra” dentro do tendão, que causa uma dor terrível e limita o movimento.

A onda de choque tem um efeito mecânico direto nessas calcificações. A energia acústica impacta o depósito de cálcio e o fragmenta, como se fosse um martelo pneumático quebrando uma rocha em pedrinhas menores.

Uma vez fragmentado, o cálcio fica com uma consistência pastosa (como pasta de dente) e pode ser reabsorvido pelo sistema linfático e sanguíneo ao longo das semanas seguintes. É uma das poucas terapias não cirúrgicas capazes de eliminar calcificações tendíneas.

O papel das células-tronco e a regeneração tecidual profunda

Estudos recentes mostram que a onda de choque é capaz de estimular células-tronco mesenquimais endógenas (do próprio corpo). Essas células têm a capacidade de se diferenciar em tenócitos (células de tendão) saudáveis.

Isso significa que não estamos apenas reparando o tecido com cicatriz (fibrose), estamos regenerando tecido tendíneo real e funcional. Isso melhora a elasticidade e a capacidade de carga do tendão a longo prazo.

É tecnologia de ponta aplicada à reabilitação. Estamos usando a física para modular a biologia celular no nível mais profundo possível, promovendo uma cura verdadeira e estrutural.

Indicações de Ouro: Onde a terapia brilha mais

Fascite Plantar e Esporão: O alívio para quem pisa em agulhas

A fascite plantar é, talvez, a indicação número um mundial para ondas de choque. A fáscia plantar é um tecido espesso e pouco vascularizado, muito difícil de tratar com métodos convencionais.

A onda de choque solta a musculatura intrínseca do pé, quebra o ciclo de dor crônica e estimula a regeneração da fáscia na inserção do calcanhar. Pacientes que não conseguiam colocar o pé no chão de manhã costumam relatar alívio significativo já após a segunda ou terceira sessão.

Tendinopatia de Aquiles e Patelar: O pesadelo dos corredores e saltadores

O tendão de Aquiles e o Patelar são grandes, fortes e suportam cargas imensas. Quando adoecem, tornam-se espessos e dolorosos. A terapia por ondas de choque é extremamente eficaz aqui, especialmente para tendinopatias insercionais (onde o tendão gruda no osso) e de corpo médio.

Para corredores e jogadores de vôlei/basquete, essa terapia pode significar a diferença entre aposentadoria precoce e retorno à alta performance. Ela permite tratar o tecido sem precisar parar totalmente as atividades de baixo impacto.

Ombro e Cotovelo: Resolvendo o “ombro de nadador” e o “cotovelo de tenista”

No ombro, as tendinites do manguito rotador (especialmente com calcificação) respondem maravilhosamente bem. No cotovelo, a epicondilite lateral (cotovelo de tenista) é uma condição chata e persistente que a onda de choque consegue resolver ao estimular a cura na origem dos extensores do punho.

Essas são áreas onde a cirurgia deve ser o último recurso, e a onda de choque se posiciona como a melhor alternativa conservadora antes de pensar em bisturi.


Terapias Aplicadas e Indicadas

Para finalizar nosso papo, é importante que você saiba que a Terapia por Ondas de Choque raramente anda sozinha. No meu protocolo, ela é a estrela principal para o tecido crônico, mas associamos outras ferramentas para garantir o resultado. A Terapia Manual é essencial para soltar as cadeias musculares que estão tracionando o tendão. O Dry Needling (Agulhamento a Seco) ajuda a desativar pontos de gatilho nos músculos satélites que a onda de choque não focou.

Além disso, a Prescrição de Exercícios Terapêuticos (com controle de carga) é obrigatória. Sem fortalecer a musculatura para suportar a demanda do seu esporte, a dor vai voltar. E, claro, a Educação do Paciente sobre gestão de carga e repouso ativo. Normalmente, realizamos de 3 a 5 sessões de ondas de choque, com intervalo semanal (7 a 10 dias), para dar tempo ao corpo de realizar o processo inflamatório e reparador entre uma aplicação e outra. Se você tem uma dor que não passa há mais de 3 meses, essa pode ser a virada de chave que você estava esperando.

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