O perigo das subluxações de ombro em exercícios de tração

O perigo das subluxações de ombro em exercícios de tração

Você está lá na puxada alta, coloca uma carga desafiadora, se pendura na barra e, de repente, sente aquele “click” estranho no ombro. Não chega a ser uma dor insuportável que te faz largar o peso gritando, mas é uma sensação agoniante de que o osso do braço deu uma “sambada” para fora e voltou. Se você já sentiu isso, ou se sente que seu braço fica “frouxo” ao segurar pesos pesados para baixo, precisamos ter uma conversa séria. Você provavelmente está lidando com episódios de subluxação, e continuar ignorando isso nos seus treinos de costas (tração) é o caminho mais rápido para uma cirurgia.

Como fisioterapeuta, vejo isso acontecer o tempo todo. O aluno foca tanto em proteger o ombro nos exercícios de empurrar (como o supino), com medo de impacto, que esquece que os exercícios de puxar têm um mecanismo de lesão próprio e silencioso: a decoaptação. Na tração, a força do peso quer arrancar o seu braço do corpo. Se os seus estabilizadores não estiverem acordados, é exatamente isso que vai começar a acontecer, milímetro por milímetro.

Vamos mergulhar fundo no que acontece dentro da sua articulação. Quero que você entenda a mecânica da sua lesão para que possa treinar com inteligência. Não é sobre parar de treinar, é sobre aprender a controlar a estabilidade dinâmica do seu ombro antes que ele decida sair do lugar de vez e te deixar de molho por meses.

Entendendo a anatomia da instabilidade: Por que o ombro “solta”?

A articulação glenoumeral: Uma bola de golfe num ‘tee’

Para entender o perigo, você precisa visualizar sua anatomia. A maioria das articulações do corpo, como o quadril, é feita de um encaixe profundo, como uma bola dentro de uma taça. É super estável. O ombro não. O ombro é projetado para mobilidade máxima, não para estabilidade óssea. Ele se parece mais com uma bola de golfe equilibrada em cima de um ‘tee’ (aquele pino de madeira). A cavidade onde o osso do braço encaixa (a glenoide) é rasa e pequena.

Isso significa que a parte óssea faz muito pouco para segurar seu braço no lugar. Quem faz o trabalho pesado são os tecidos moles: ligamentos, cápsula articular e, principalmente, os músculos. Se você tem uma estrutura óssea rasa por genética ou desgaste, você já começa o jogo em desvantagem. Qualquer força que puxe essa bola para longe do centro do pino pode causar um deslizamento excessivo.

Na musculação, isso é crítico. Quando você segura uma barra pesada, a gravidade e a carga puxam a “bola de golfe” para baixo ou para os lados. Se você não tiver uma parede muscular ativa segurando essa bola centralizada, ela vai escorregar para a borda. É nesse escorregão que as estruturas nobres são pinçadas ou estiradas.

O papel do Labrum e a pressão negativa (vácuo) que perdemos

Para compensar essa falta de encaixe ósseo, temos uma estrutura incrível chamada Labrum. É um anel de cartilagem fibroso que aumenta a profundidade da glenoide e funciona como uma vedação, tipo a borracha de um desentupidor de pia. Ele cria uma pressão negativa (vácuo) dentro da articulação. Esse vácuo é a primeira linha de defesa contra a subluxação. Ele “suga” a cabeça do úmero contra a escápula.

Quando ocorrem subluxações repetitivas, esse anel pode sofrer microlesões ou descolamentos (lesões de Bankart ou SLAP). Se o Labrum rasga ou frouxa, você perde esse efeito de vácuo/sucção. Sem a vedação, o ombro fica instável. É como tentar grudar um desentupidor com a borda rasgada na parede; ele não segura.

Em exercícios de tração pesada, se esse vácuo não existe mais, o peso do haltere ou da máquina puxa o braço e abre um espaço na articulação. O líquido sinovial preenche esse espaço e você perde a estabilidade passiva. Agora, tudo depende exclusivamente da sua força muscular consciente. Se você fadigar, o ombro cai.

Diferença entre Luxação e Subluxação: O susto versus o problema silencioso

Muitos pacientes confundem os termos. A luxação é o evento traumático completo: o osso sai totalmente do lugar, a articulação deforma, a dor é lancinante e, muitas vezes, você precisa ir ao hospital para colocar no lugar. É um evento dramático que ninguém esquece.

subluxação, que é o nosso foco aqui, é mais traiçoeira. É um deslocamento parcial e momentâneo.[4][5] O osso sai um pouco do trilho, estica a cápsula no limite, mas volta sozinho imediatamente. Pode doer na hora, dar um formigamento, ou apenas uma sensação de “aflição” profunda.

O perigo da subluxação é que ela permite que você continue treinando. Você pensa “foi só um mal jeito”, roda o braço e volta para a série. Mas a cada subluxação, seus ligamentos ficam mais frouxos, como um elástico de roupa velha que perde a elasticidade. Com o tempo, é preciso cada vez menos carga para o ombro sair do lugar, evoluindo para uma instabilidade multidirecional crônica.

O Mecanismo da Tração: Quando puxar se torna perigoso

A força de decoaptação: O que acontece quando o peso puxa seu braço para baixo?

Na fisioterapia, chamamos de “decoaptação” a força que separa as superfícies articulares. Exercícios de empurrar (supino, desenvolvimento) geram compressão (coaptação), o que, ironicamente, ajuda na estabilidade. Já os exercícios de tração (puxadas, levantamento terra, remadas) geram decoaptação. O peso quer alongar seu braço.

Se você tem um ombro instável, essa força de tração é o inimigo número um se não for controlada. Imagine que seus ligamentos são cordas segurando uma ponte levadiça. Se você pendura um peso excessivo nessas cordas sem suporte, elas vão esgarçar. Nos exercícios de tração, se você relaxa a musculatura, toda a carga vai para esses ligamentos já frouxos.

Isso é especialmente perigoso na fase excêntrica do movimento (quando você está esticando o braço para voltar à posição inicial). É nesse momento que a maioria das pessoas “desliga” o músculo e deixa o peso puxar. Esse “tranco” final é o momento exato onde a cabeça do úmero é arrastada para baixo (subluxação inferior), estressando a cápsula articular e os nervos do plexo braquial.

Puxada Vertical (Lat Pulldown) e o risco do “Dead Hang” descontrolado

A puxada vertical ou a barra fixa são clássicos da construção de dorsais, mas escondem uma armadilha: o “Dead Hang” ou a posição de suspensão morta. É aquele momento lá embaixo, quando os braços estão totalmente esticados acima da cabeça e o corpo está pendurado.

Para um ombro saudável, isso é um bom alongamento. Para um ombro instável, é um convite ao desastre. Nessa posição, se você não mantiver as escápulas ativas e deprimidas (puxadas para baixo), a cabeça do úmero colide com o acrômio e, simultaneamente, é puxada para fora da glenoide.

O erro comum é relaxar os ombros nas orelhas a cada repetição para “alongar a dorsal”. Se você tem histórico de subluxação, esse relaxamento total faz com que você perca a tensão muscular protetora. O úmero fica pendurado apenas pelos ligamentos e pelo labrum. Repetir isso 10 ou 12 vezes por série é basicamente martelar a estrutura de estabilidade do seu ombro até ela ceder.

Remadas e a falha na retração escapular: Quando o úmero desliza para frente

Nas remadas (tração horizontal), o risco muda de direção. Aqui, o perigo acontece geralmente quando você deixa o peso puxar seu braço para frente na fase de alongamento, permitindo que o ombro “arredonde” para frente (protração excessiva).

Se você deixa o ombro ir muito para frente sem controle, a cabeça do úmero é empurrada contra a parte de trás da cápsula ou desliza anteriormente se houver uma extensão excessiva do braço atrás do corpo na fase de puxada. Mas o foco aqui é a tração anterior.

Muitos praticantes têm o peitoral encurtado e as costas fracas. Quando soltam o peso na remada, a escápula “alça voo” e o úmero é anteriorizado. Isso cria uma subluxação anterior sutil, mas repetitiva. A sensação é de uma pontada na frente do ombro no final do movimento de alongar. Isso não é o músculo alongando, é a cápsula anterior gritando.

Sinais de Alerta e o “Sinal do Sulco”

Identificando a frouxidão ligamentar: Você é hipermóvel?

Você precisa saber se o seu “hardware” é frouxo de fábrica. Algumas pessoas têm frouxidão ligamentar generalizada. Faça um teste rápido: você consegue encostar o polegar no antebraço? Seus cotovelos esticam mais do que o normal (hiperextensão)? Se sim, seus ligamentos do ombro também são frouxos.

Para essas pessoas, a musculação não é apenas estética, é uma necessidade de sobrevivência articular. Porém, a margem de erro é menor. Um sinal visual clássico no ombro é o “Sinal do Sulco”.

Fique de frente para o espelho, relaxe o braço ao lado do corpo e segure um peso pesado na mão. Se aparecer um “degrau” ou um buraco visível logo abaixo do acrômio (na parte lateral superior do ombro), isso é o sinal do sulco positivo. Significa que o peso está puxando seu úmero para baixo e seus ligamentos não estão segurando. Se você vê isso, exercícios de tração pesada sem técnica adaptada são proibidos até que você fortaleça a base.

A sensação de “braço morto” ou formigamento durante o treino

Às vezes, a subluxação não dói no osso, ela irrita o nervo. O plexo braquial (o emaranhado de nervos que vai para o braço) passa bem na frente da articulação. Quando o ombro subluxa para frente ou para baixo, ele estira esses nervos.

Se durante uma puxada ou remada você sente o braço ficar repentinamente fraco, pesado, ou sente um choque/formigamento descendo para a mão (a famosa síndrome do “braço morto”), pare imediatamente. Isso é uma subluxação transitória comprimindo estruturas neurais.

Insistir no treino com essa sensação pode levar a danos nervosos duradouros, como a lesão do nervo axilar, que vai desligar seu músculo deltoide e atrofiar seu ombro. Esse sinal neurológico é o corpo gritando que a estabilidade mecânica falhou completamente.

A fadiga do manguito rotador como gatilho para a subluxação

O manguito rotador é quem centraliza a bola no pino. Mas são músculos pequenos e de resistência, não de força bruta. Em um treino de costas intenso, os grandes músculos (dorsais, trapézio) aguentam muita carga e por muito tempo. O manguito cansa primeiro.

Quando o manguito fadiga, ele para de centralizar a cabeça do úmero. É nesse momento, geralmente nas últimas repetições da última série, que a subluxação acontece. Você ainda tem força nas costas para puxar, mas não tem mais estabilidade fina no ombro para segurar a articulação.

Se você percebe que seu ombro começa a estalar ou doer apenas no final do treino, isso é fadiga dos estabilizadores. É um sinal claro de que o volume do seu treino está excedendo a capacidade do seu manguito de manter a articulação segura.

Estratégias de Proteção e Ajuste de Técnica

A técnica de “Active Shoulders” (Ombros Ativos): Nunca relaxe totalmente na excêntrica

Esta é a regra de ouro para quem tem instabilidade: nunca entre em relaxamento passivo sob carga. Em exercícios de tração, você deve manter o que chamamos de “Active Shoulders”.

Na barra fixa ou puxada alta, mesmo quando seus braços estiverem totalmente esticados lá em cima, você deve manter uma leve depressão escapular. Imagine que quer manter as orelhas longe dos ombros. Mantenha uma tensão constante nos músculos dorsais e serrátil.

Isso garante que a carga seja suportada pelos músculos (que são elásticos e contráteis) e não pendurada nos ligamentos e labrum (que são estáticos). Essa pequena ativação mantém a cabeça do úmero coaptada na glenoide, prevenindo a tração inferior que causa a subluxação.

Ajustando a amplitude: Por que parar antes da extensão total salva seu labrum

Se o seu ombro é instável, a amplitude completa de movimento (ROM) pode não ser para você agora. E está tudo bem. Hipertrofia se constrói com tensão, não necessariamente com amplitude extrema que coloca a articulação em risco.

Em remadas, não deixe o ombro ir lá na frente buscar o peso a ponto de arredondar as costas. Pare o movimento um pouco antes, mantendo a escápula neutra. Na puxada vertical, não estique os cotovelos 100% se você sente que perde o controle no final.

Trabalhe em uma amplitude onde você tem 100% de controle muscular. Chamamos isso de “amplitude ativa funcional”. Conforme você ganha força e estabilidade, pode tentar ganhar esses graus finais de volta, mas nunca force uma amplitude onde você sente o “clique” ou a instabilidade.

Fortalecimento isométrico e estabilização rítmica antes da carga

Antes de começar a puxar ferro, você precisa “ligar” os sensores do seu ombro. O aquecimento na esteira não serve para nada aqui. Você precisa de ativação neuromuscular específica.

Use a estabilização rítmica: fique em pé, braço esticado à frente, e peça para um parceiro (ou use a outra mão) tentar empurrar seu braço para várias direções aleatórias enquanto você tenta mantê-lo parado no espaço. Isso acorda o reflexo de proteção do manguito rotador.

Outra técnica é a isometria de rotação externa e interna antes do treino. Pegue um elástico leve ou pressione a mão contra a parede. Segure a contração por 10 a 15 segundos. Isso pré-ativa o manguito, aumentando a rigidez muscular e a sensibilidade dos proprioceptores, deixando o ombro “alerta” para a carga pesada que virá.


Para fechar nossa conversa, se você está sofrendo com subluxações frequentes, o tratamento conservador bem feito na fisioterapia é soberano. Focamos em reeducação neuromuscular para ensinar seu cérebro onde o ombro deve estar. Utilizamos eletroestimulação (FES) associada ao movimento para recrutar fibras profundas que você “esqueceu” como usar.

O fortalecimento específico dos rotadores externos e escapulares é a base de tudo. Em casos onde a estrutura óssea ou labral está muito danificada (lesões grandes de Bankart ou Hill-Sachs), a cirurgia pode ser necessária para estabilizar mecanicamente, mas a reabilitação funcional é o que garante o retorno ao esporte. Não ignore os estalos. Seu ombro está te avisando antes de quebrar. Escute-o, ajuste o treino e busque ajuda especializada para blindar essa articulação.

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