Você acabou de sair daquele “leg day” insano. O treino rendeu, as cargas subiram, mas no dia seguinte, ou talvez 48 horas depois, apareceu uma dorzinha chata, pontual, bem na lateral do quadril. Não é aquela dor muscular gostosa de dever cumprido espalhada pela nádega; é uma fisgada aguda, localizada onde o osso “salta” na lateral da coxa. Você tenta ignorar, alonga, toma um anti-inflamatório, mas no próximo treino de agachamento, lá está ela de novo, te impedindo de descer com qualidade.
Como fisioterapeuta, vejo essa história se repetir semanalmente no meu consultório. O que você está sentindo provavelmente não é “apenas uma dorzinha”, mas sim um sinal de alerta da inserção dos tendões glúteos (médio e mínimo) no trocânter maior do fêmur. É a famosa tendinopatia glútea, que antigamente chamávamos erradamente de bursite trocantérica. A boa notícia? Você não precisa parar de treinar para sempre, mas precisa mudar como você treina agora.
Se você continuar forçando em cima de um tendão que está gritando por socorro mecânico, a tendência é a degeneração do tecido. Vamos entender o que está acontecendo biomecanicamente no seu quadril e traçar um plano de batalha prático para tirar essa dor da sua rotina e devolver a potência aos seus agachamentos.
Desvendando a Dor: Por que a Inserção do Glúteo “Grita” no Pós-Treino?
O papel da sobrecarga excêntrica no tendão
Para entender a dor, precisamos entender a função. O glúteo médio não serve apenas para abrir a perna na cadeira abdutora. A função vital dele é estabilizar a sua pelve quando você está em uma perna só (como na fase de passada da corrida ou no afundo). Quando você faz um agachamento pesado ou um afundo, o tendão do glúteo precisa segurar a estabilidade do fêmur enquanto ele se alonga sob tensão. Isso é a fase excêntrica.
Se você aumentou a carga ou o volume do treino muito rápido, a capacidade do tendão de suportar essa carga excêntrica foi superada. O tendão é como uma corda robusta; se você puxar com força demais e com muita frequência sem dar tempo de recuperação, as fibras começam a sofrer micro-rupturas. A dor na inserção é o tendão dizendo: “Não consigo segurar essa carga freando o movimento tantas vezes”.
A compressão contra o trocânter maior: O erro da “fechada” de joelho
Aqui está o segredo biomecânico que a maioria esquece: tendões odeiam compressão. O tendão do glúteo se insere no osso lateral do quadril (trocânter). Quando você deixa o joelho cair para dentro durante o agachamento (valgo dinâmico) ou cruza a linha média durante um afundo, você estica o tendão e o comprime contra o osso, como se estivesse esfregando uma corda numa quina de pedra.
Essa combinação de tensão (puxar) + compressão (esmagar contra o osso) é a receita perfeita para a tendinopatia insercional. Muitas vezes, a dor não vem só do peso que você levanta, mas da falta de controle do seu joelho, que colapsa para dentro e “esmaga” a inserção do tendão a cada repetição.
Diferenciando a dor muscular “boa” da dor tendínea patológica
É crucial saber distinguir. A dor muscular tardia (DMT) é aquela sensação de cansaço, rigidez e dor difusa na “carne” do glúteo, que melhora quando você aquece e se movimenta. Ela é o sinal de adaptação e hipertrofia.
Já a dor da lesão tendínea é diferente: ela é pontual (você aponta com um dedo na lateral do quadril), geralmente fria (piora de manhã ou após ficar muito tempo sentado) e tem um comportamento de “aquecimento traiçoeiro”. Ela dói no início do treino, melhora enquanto o corpo está quente e volta muito pior à noite ou no dia seguinte. Se sua dor segue esse padrão de “piora-melhora-piora muito”, pare de ignorar: é o tendão.
O Grande Impostor: É Tendão, Bursa ou Coluna?
Sinais de que a culpa é da coluna lombar
Muitas vezes recebo pacientes tratando o quadril há meses sem melhora, e o problema estava na coluna. Nervos que saem da região lombar baixa (L4, L5, S1) inervam a região glútea. Uma hérnia de disco ou uma inflamação facetária pode irradiar dor exatamente para a lateral do quadril.
Como diferenciar? Se você tem dor no glúteo mas também sente formigamento na perna, dor nas costas ao tossir/espirrar, ou se a dor muda de lugar dependendo de como você mexe a coluna, desconfie da lombar. Nesse caso, tratar o glúteo é enxugar gelo; precisamos tratar as costas.
A Síndrome do Piriforme e a confusão com a ciática
Mais profunda, no meio da nádega, existe o músculo piriforme. Quando ele está tenso, pode comprimir o nervo ciático. A dor aqui é mais no “miolo” do bumbum, diferente da dor lateral do glúteo médio. Se a sua dor é bem no centro da nádega e piora ao sentar em superfícies duras ou dirigir, pensamos mais em Piriforme do que em tendinopatia insercional lateral.
Bursite trocantérica: Vilã ou consequência?
Você provavelmente já ouviu que tem “bursite”. A verdade científica atual é que a bursite isolada é rara. Quase sempre, a bursa (uma bolsinha de líquido que protege o tendão) inflama porque o tendão do glúteo já está doente e inchado. A bursa é a vítima, não a criminosa.
Focar o tratamento apenas em “desinflamar a bursa” com gelo e remédios é paliativo. Se não tratarmos a fraqueza e a degeneração do tendão do glúteo que está irritando a bursa, a inflamação voltará assim que o efeito do remédio passar. O foco deve ser a reabilitação do tendão.
Estratégias de “Primeiros Socorros” e Correção de Movimento
Ajustando a largura da base no agachamento e afundo
Vamos para a prática. Se está doendo, precisamos tirar a compressão. No agachamento, evite bases muito fechadas ou muito abertas se elas forçarem seu joelho para dentro. O “Afundo” ou “Passada” é o exercício mais agressivo para essa condição.
Experimente fazer o afundo com uma base um pouco mais larga lateralmente (não coloque um pé exatamente na frente do outro como se andasse na corda bamba). Afastar os pés na largura do quadril durante o afundo diminui a caída do quadril para o lado (adução), aliviando a pressão no tendão imediatamente. Se mesmo assim doer, suspenda os exercícios unilaterais temporariamente e foque em bilaterais (como o Leg Press) onde a estabilidade é maior.
O perigo de “cruzar as pernas” e o hábito de dormir de lado
O tratamento acontece nas 23 horas que você não está treinando. Sentar com as pernas cruzadas é veneno para quem tem dor na inserção do glúteo, pois coloca o tendão em estiramento e compressão máximos. Evite a todo custo.
Dormir também é um desafio. Se você dorme de lado sobre o quadril dolorido, comprime a região. Se dorme sobre o lado sadio, a perna de cima “cai”, cruzando a linha média e alongando o tendão machucado a noite toda. A solução? Dormir de lado com um travesseiro grosso entre os joelhos. Isso mantém o quadril alinhado e o tendão em repouso neutro.
Liberação miofascial: Onde soltar e onde NÃO tocar
Pode massagear? Sim, mas no lugar certo. Libere a tensão no ventre muscular do glúteo (a parte carnuda da nádega) e no Tensor da Fáscia Lata (o músculo lateral da coxa). Isso ajuda a diminuir a tração no tendão.
Porém, nunca massacre a inserção óssea (o local da dor lateral) com rolo de liberação rígido ou bolinha de tênis. Comprimir um tendão que já sofre por compressão é apagar fogo com gasolina. Solte os músculos ao redor, mas deixe o ponto doloroso em paz para não irritar ainda mais a bursa.
O Caminho da Cura Ativa: Protocolo de Fortalecimento Inteligente
Isometria: O analgésico natural
Quando a dor está aguda, o melhor remédio não é repouso total, é isometria. Contrações estáticas (sem movimento) têm um efeito analgésico poderoso no tendão.
Faça o seguinte: deite de lado (lado da dor para cima), com os joelhos dobrados. Levante a perna de cima apenas uns 5 dedos e segure. Fique lá por 30 a 45 segundos. Descanse. Repita 3 vezes. Você vai sentir o glúteo trabalhar sem a fricção do movimento. Isso acalma a dor e mantém o músculo ativo. Faça isso antes do treino ou em dias de dor.
Reeducação do Glúteo Médio: Muito além da cadeira abdutora
A cadeira abdutora é boa, mas não funcional. Precisamos ensinar seu glúteo a estabilizar, não só a abrir a perna. Exercícios como o “Ostra” (Clam Shell) ou a caminhada lateral com mini-band (elástico) nos joelhos ou pés são excelentes para recrutar as fibras posteriores do glúteo médio, que geralmente são as mais fracas.
Foque na qualidade: o tronco não pode balançar. O movimento vem só do quadril. Se você sente a coxa (TFL) queimar mais que o bumbum, a técnica está errada. Precisamos acordar o glúteo.
Controle pélvico: O segredo para tirar a carga do tendão
O objetivo final é evitar que seu quadril “caia” para o lado quando você pisa (sinal de Trendelenburg). Treine o “Step Down”: fique em um degrau com a perna ruim e desça a perna boa devagar em direção ao chão, focando em manter o joelho da perna de apoio alinhado e a bacia nivelada.
Esse controle excêntrico é o que vai blindar seu tendão para voltar a agachar pesado. Se você domina o controle do seu quadril, o tendão para de sofrer cargas excessivas.
Retorno ao Treino Pesado: Gerenciando a Carga
A regra dos “10%” e a monitorização da dor
Quando voltar a treinar pesado? Use a dor como guia. Dor leve (até 3/10) durante o exercício é aceitável, desde que ela não piore na manhã seguinte. Se a dor matinal aumentou, a carga de ontem foi excessiva.
Não aumente a carga ou volume mais do que 10% por semana. O tendão tem um metabolismo lento; ele demora a se adaptar. A pressa é a maior causa de recidiva. Paciência é parte do tratamento.
Substituições temporárias
Se o agachamento livre dói, tente o agachamento taça (Goblet Squat) ou o Leg Press, onde a estabilidade é maior. Troque a corrida (alto impacto) por bicicleta ou elíptico temporariamente para manter o cardio sem martelar o tendão. Evite pliometria (saltos) até que a dor esteja controlada, pois o tendão funciona como uma mola e molas doentes não gostam de impacto rápido.
Para finalizar nosso guia, se mesmo com todos esses ajustes a dor persistir, existem terapias clínicas que aceleram muito a biologia da cura. A Terapia por Ondas de Choque é hoje o padrão-ouro para tendinopatias crônicas e calcificações, estimulando a regeneração do tecido “morto”. O Dry Needling (agulhamento a seco) ajuda a soltar os nós de tensão no glúteo que puxam o tendão.
Também usamos o Laser de Alta Potência para controle inflamatório e de dor, e a Eletroestimulação para ensinar o glúteo a contrair de novo (reverter a inibição artrogênica). Lembre-se: o tratamento é ativo. Remédio tira a dor, mas só o fortalecimento e a correção biomecânica curam o tendão. Bom treino e cuide desse quadril!

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”