Você provavelmente conhece a sensação: aquele treino insano de perna na terça-feira e, na quinta de manhã, parece que um caminhão passou por cima das suas coxas. Ou talvez você tenha dado um pique no futebol de domingo e sentiu aquela “fisgada” que não te larga. Isso são microlesões musculares. O corpo humano é uma máquina fantástica de autocura, mas, às vezes, ele é um pouco lento e desorganizado. É aí que eu entro. Como fisioterapeuta, meu trabalho não é apenas assistir seu corpo se curar; é ser o engenheiro que acelera a obra e garante que a parede (seu músculo) fique mais forte do que era antes, e não cheia de rachaduras.
Muitos pacientes chegam ao consultório achando que fisioterapia é só “choquinho” e gelo. Grande erro. A fisioterapia moderna é sobre modular a biologia. Nós usamos ferramentas físicas — luz, movimento, pressão e eletricidade — para conversar com as suas células e dizer: “Ei, trabalhem mais rápido e com mais capricho aqui”.
Se você quer entender como transformar semanas de recuperação em dias, e sair dessa lesão com um tecido de qualidade, precisa entender o que estamos fazendo lá dentro. Vamos abrir o capô da sua musculatura e ver como a mágica (ou melhor, a ciência) acontece.
O que acontece “debaixo do capô”: Entendendo a microlesão
A inflamação não é a vilã (é a equipe de limpeza)
A primeira coisa que você precisa deletar da mente é que inflamação é sempre ruim. Quando você rompe as fibras musculares (seja por treino intenso ou lesão), seu corpo entra em estado de alerta. Ele precisa limpar a bagunça. As células danificadas soltam sinais químicos que chamam os macrófagos — pense neles como os garis do seu corpo. Eles chegam para comer o tecido morto.
Esse processo gera inchaço, calor e dor. Se tomarmos um anti-inflamatório potente logo de cara, mandamos os garis embora. O resultado? O “lixo” celular fica lá, e a reconstrução atrasa. Na fisioterapia, nós controlamos essa inflamação para que ela não seja excessiva (o que causaria dor demais e inibição muscular), mas nunca queremos bloqueá-la totalmente nas primeiras 48 horas. Precisamos desse sinal químico para iniciar a próxima fase.
A fase de reparo e a “cola” biológica desorganizada
Passado o susto inicial, seu corpo começa a produzir colágeno para tapar o buraco. Imagine que você fez um furo na parede e está passando massa corrida. O corpo joga essa “massa” (tecido cicatricial) de qualquer jeito, só para fechar a ferida rápido. É um tecido provisório, mais fraco e totalmente bagunçado.
Aqui mora o perigo de não tratar. Se você deixar o corpo agir sozinho no piloto automático, ele cria uma cicatriz interna rígida, parecida com um emaranhado de fios de fone de ouvido no bolso. Esse bolo de fibras não contrai direito e, pior, é o ponto exato onde você vai se lesionar de novo no futuro porque ele não tem elasticidade.
Remodelação: Por que o músculo precisa aprender a alinhar
A terceira fase é a remodelação. É aqui que transformamos aquela “massa corrida” grosseira em uma parede de tijolos alinhados e fortes. O fisioterapeuta atua guiando esse processo. As fibras de colágeno precisam ser puxadas e esticadas na direção certa para que se alinhem com as fibras musculares originais.
Se você ficar deitado no sofá (repouso absoluto), as fibras cicatrizam encurtadas. Quando você tentar correr de novo… plaft. Elas rompem. A fisioterapia introduz estímulos que “penteiam” essas fibras, garantindo que o novo tecido suporte a tração e a carga do seu esporte.
As ferramentas tecnológicas: Dando energia extra para a célula
Fotobiomodulação (Laser e LED): O “café” da mitocôndria
Uma das minhas ferramentas favoritas é o Laser de Baixa Potência ou LEDs terapêuticos. Não, isso não vai queimar sua pele. A luz penetra no tecido e atinge a mitocôndria, a usina de energia da célula. Lá dentro, ela estimula a produção de ATP (energia celular).
Imagine que suas células estão trabalhando em turno dobrado para consertar o músculo e estão ficando cansadas. O Laser chega como um café expresso duplo. Ele dá energia extra para que a célula trabalhe mais rápido na síntese de proteínas e na regeneração. Estudos mostram que isso pode acelerar o fechamento da lesão e melhorar a qualidade do tecido final significativamente.
Eletroterapia: Usando a eletricidade para drenar o “lixo” metabólico
Sabe aquela sensação de perna pesada cheia de líquido? Usamos correntes elétricas específicas (não aquelas que doem, mas as que fazem o músculo palpitar ritmicamente) para criar um efeito de bombeamento. O músculo contrai e relaxa levemente, espremendo os vasos sanguíneos e linfáticos.
Isso ajuda a drenar o edema (inchaço) e os metabólitos ácidos que estão irritando as terminações nervosas. É como desentupir o ralo da pia: a água suja desce, e o sangue novo, rico em oxigênio e nutrientes, consegue chegar para nutrir a área lesionada.
O mito do gelo eterno: Quando parar de congelar a lesão
Gelo é ótimo nas primeiras horas para analgesia (alívio da dor) e para conter um inchaço monstruoso. Mas usar gelo por uma semana seguida pode ser um tiro no pé. O gelo contrai os vasos sanguíneos (vasoconstrição). Para curar, precisamos de sangue chegando (vasodilatação).
Depois da fase aguda (geralmente 48-72h), frequentemente trocamos o gelo pelo calor ou contraste. O calor traz sangue, relaxa a musculatura que está tensa em volta da lesão e melhora a elasticidade do tecido. Saber a hora exata de parar o gelo e começar o calor é um “timing” clínico que faz toda a diferença na velocidade da recuperação.
A Biologia da “Mão na Massa”: Como a Terapia Manual Organiza o Caos
Quebrando a fibrose: A diferença entre cicatriz e músculo elástico
Lembra daquela “massa corrida” bagunçada que falei? A terapia manual (massagem profunda, liberação miofascial, técnicas instrumentais) serve para quebrar fisicamente essas aderências. Nós aplicamos força mecânica sobre o tecido para soltar as fibras que grudaram umas nas outras.
Isso dói um pouco? Às vezes, sim. É aquele desconforto “gostoso” de quem está soltando um nó. Ao soltar essas aderências (fibrose), devolvemos ao músculo a capacidade de deslizar. Músculo que não desliza é músculo que rasga. A mão do fisioterapeuta sente onde o tecido está “crocante” ou denso e trabalha ali até que ele fique macio e complacente novamente.
O toque como “analgésico” para o cérebro (Neurofisiologia)
Existe um efeito neurológico poderoso no toque. Quando tocamos e manipulamos a região dolorida com segurança, estamos enviando uma enxurrada de informações sensoriais para o seu cérebro que competem com o sinal de dor (Teoria das Comportas). Além disso, reduzimos o medo do movimento (cinesiofobia).
Muitas vezes, o músculo está travado não porque ainda está machucado, mas porque o cérebro está com medo de soltá-lo e criou um espasmo protetor. A terapia manual “convence” o sistema nervoso de que está tudo bem relaxar aquela área, o que melhora a circulação e alivia a dor instantaneamente.
Drenagem linfática manual: Ajudando o sistema de esgoto do corpo
Às vezes, a máquina de alta tecnologia não substitui a mão. Em lesões com muito hematoma ou inchaço, a drenagem manual é imbatível. Nós guiamos o excesso de líquido para os gânglios linfáticos, limpando a área congestionada.
Um tecido inchado é um tecido sufocado. Ao reduzir o edema manualmente, diminuímos a pressão interna no músculo, o que alivia a dor por compressão e permite que as células de reparo cheguem mais facilmente ao local do “acidente”.
Carga e Movimento: Ensinando o Músculo a Ser Forte de Novo
Mecanotransdução: Transformando movimento físico em cura química
Esta é a minha palavra favorita na fisioterapia: Mecanotransdução. É a capacidade das suas células de sentirem a carga mecânica (movimento/peso) e transformarem isso em resposta química. As células do seu músculo precisam de carga para saber como se alinhar.
Se você só faz repouso, a célula não sabe em que direção depositar o colágeno. Quando começamos exercícios controlados precocemente, estamos dizendo quimicamente para a célula: “Construa fibras fortes nessa direção aqui, porque vamos precisar delas”. O movimento é o remédio mais potente que existe para a qualidade do tecido.
A mágica do exercício excêntrico no alinhamento das fibras
O exercício excêntrico é quando você faz força enquanto o músculo está alongando (por exemplo, a fase de descer a barra no supino ou descer o calcanhar num degrau). Esse tipo de contração é o padrão-ouro para tratar tendões e músculos lesionados.
Durante a fase excêntrica, geramos uma tensão enorme nas fibras individuais, o que força o colágeno novo a se alinhar perfeitamente. Além disso, o treino excêntrico aumenta o comprimento do fascículo muscular, prevenindo futuras lesões por estiramento. É a vacina contra a reincidência da lesão.
O “Semáforo da Dor”: Como saber se você está exagerando na carga
“Mas doutor, não vai doer?” Vai. Mas existe a dor boa e a dor ruim. Eu ensino meus pacientes a usar o Semáforo da Dor. Uma dor nota 0 a 3 (desconforto leve) durante o exercício é aceitável e até desejável na fase de reabilitação. Significa que estamos estimulando o tecido.
Se a dor passar de 4 ou 5, ou se ela persistir no dia seguinte pior do que estava, o sinal é vermelho: a carga foi excessiva. A fisioterapia é a arte de encontrar esse ponto ideal — carga suficiente para estimular a cura, mas não tanta a ponto de causar novos danos. É um ajuste fino diário.
Para fechar, a fisioterapia não é mágica, é biologia aplicada. Para acelerar a cicatrização dessas microlesões, utilizamos um combo de Fotobiomodulação (Laser) para dar energia celular, Terapia Manual e Liberação Miofascial para organizar as fibras e evitar cicatrizes ruins, e, o mais importante, a Cinesioterapia (Exercícios Terapêuticos) com carga controlada e ênfase excêntrica.
Também podemos lançar mão de Botas de Compressão Pneumática para drenagem rápida pós-treino e Dry Needling (Agulhamento a Seco) para “resetar” pontos de tensão específicos que impedem o fluxo sanguíneo. Se você combinar essas terapias com bom sono e nutrição, seu corpo não só vai se curar mais rápido, como vai construir uma versão mais resistente de si mesmo.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”