Você conhece aquela sensação indescritível de acertar um Snatch perfeito. A barra sobe rente ao corpo, você desliza para baixo dela com velocidade e a recebe lá embaixo, na posição de agachamento profundo, com os braços travados e estáveis. É um momento de pura física e biomecânica funcionando em harmonia. No entanto, você também deve conhecer o outro lado da moeda, que é aquela pontada fina no topo do ombro ou a dor surda que aparece horas depois do treino, transformando tarefas simples como pentear o cabelo ou pegar um objeto no armário alto em um verdadeiro desafio doloroso.
A complexidade do Snatch exige uma mobilidade e uma estabilidade que poucas outras atividades humanas demandam. Quando você joga uma carga alta para cima da cabeça em uma velocidade explosiva, suas articulações precisam absorver e estabilizar essa força em frações de segundo. O ombro é a articulação mais móvel do corpo humano, mas esse excesso de liberdade cobra um preço alto em estabilidade. Seus ombros são o elo final da corrente que segura a barra sobre sua cabeça e qualquer falha nessa estrutura não resulta apenas em um levantamento perdido, mas em microtraumas que se acumulam treino após treino.
O impacto do Snatch nos ombros: Como a fisioterapia pode ajudar
Como fisioterapeuta, vejo frequentemente praticantes de levantamento de peso e CrossFit ignorarem os sinais iniciais de desconforto. Você talvez ache que um pouco de gelo e anti-inflamatório vão resolver o problema, mas a dor no ombro derivada do Snatch raramente é apenas um problema local. Ela costuma ser o sintoma de algo que não está funcionando bem na sua mecânica ou na sua preparação.[2][3][4] Vamos conversar francamente sobre o que acontece dentro do seu corpo quando você faz esse movimento e como podemos manter você levantando pesos pesados sem destruir suas articulações no processo.
A Biomecânica do Snatch: Onde o Perigo Mora
A Posição de Recepção Overhead e a Anatomia
A posição final do Snatch coloca o ombro em uma situação de extrema vulnerabilidade anatômica. Você precisa manter os braços em abdução máxima e rotação externa, tudo isso enquanto segura uma carga pesada que tenta empurrar seus braços para trás e para baixo. Anatomica e fisiologicamente falando, você está levando a cabeça do úmero ao limite do contato com a cavidade glenóide. É uma posição que exige que seus ligamentos e cápsula articular estejam íntegros, mas principalmente que seus músculos estabilizadores estejam ativos e sincronizados. Se você relaxar por um milissegundo na recepção da barra, a estrutura passiva do ombro sofre todo o impacto.
Muitos atletas focam apenas na força bruta para subir a barra, esquecendo que a recepção exige uma “força inteligente”. Seus músculos precisam estar pré-ativados antes mesmo de a barra chegar ao ponto mais alto. Quando você recebe a barra com os ombros “moles” ou em uma posição passiva, você permite que a cabeça do úmero deslize excessivamente dentro da articulação. Isso cria forças de cisalhamento que agridem estruturas nobres como o labrum, que é a cartilagem que ajuda a “vedar” a articulação. Entender que a recepção é um movimento ativo e não passivo é o primeiro passo para proteger sua integridade física.
Além da ativação muscular, a própria anatomia óssea de cada indivíduo dita o conforto ou o desconforto nessa posição. Algumas pessoas possuem um acrômio, que é o teto do ombro, com um formato mais curvo ou ganchoso, o que diminui naturalmente o espaço por onde passam os tendões. Se você tem essa predisposição anatômica e força uma posição de Snatch sem a técnica adequada, você está basicamente esmagando seus tendões contra o osso a cada repetição. A fisioterapia ajuda você a descobrir se sua limitação é óssea, o que exige adaptação da técnica, ou se é de tecidos moles, o que podemos trabalhar com exercícios e terapia manual.
A Rotação Interna Excessiva e o Espaço Subacromial
Um erro técnico muito comum que observamos na clínica é a rotação interna dos ombros durante a fase de puxada ou na recepção. Quando você roda o ombro internamente enquanto eleva o braço, você diminui drasticamente o espaço subacromial.[5] Imagine que existe um túnel no seu ombro por onde passa o tendão do supraespinhal. Quando você faz a rotação interna com o braço levantado, você estreita esse túnel. Agora adicione uma barra de 50, 80 ou 100 quilos comprimindo tudo isso. O resultado é um pinçamento contínuo que gera inflamação e dor.[4]
Esse padrão de movimento errado muitas vezes vem de uma tentativa do corpo de compensar a falta de força ou mobilidade. Você pode estar tentando manter a barra perto do corpo usando os trapézios superiores em excesso e rodando os ombros para frente. Isso cria um ciclo vicioso onde a má técnica gera dor, e a dor gera mais compensações na técnica para fugir do desconforto. Corrigir isso não é apenas uma questão de “pensar” em rodar o ombro para fora, mas de ter a capacidade muscular e articular para sustentar essa posição sob fadiga.
A rotação externa, por outro lado, abre esse espaço subacromial e permite que a cabeça do úmero gire livremente sem colidir com o acrômio. Trabalhar a mobilidade de rotação externa não serve apenas para deixar o movimento mais bonito, mas para garantir que as estruturas internas do seu ombro tenham espaço para “respirar”. Se você sente uma pontada aguda na frente ou no topo do ombro ao levantar o braço, é muito provável que você esteja lidando com as consequências dessa falta de espaço funcional causada por padrões de movimento ineficientes.[6]
A Cadeia Cinética e a Influência dos Membros Inferiores
Você pode se surpreender ao saber que a causa da sua dor no ombro pode estar no seu tornozelo ou no seu quadril. O corpo humano funciona em cadeias cinéticas, o que significa que o movimento é uma sequência de eventos interligados. No Snatch, se você tem pouca mobilidade de tornozelo, seu tronco tende a inclinar mais para frente durante o agachamento profundo.[2] Para não deixar a barra cair à frente do corpo, você compensa levando os braços excessivamente para trás, forçando o ombro além da sua amplitude fisiológica normal.
Essa compensação sobrecarrega a cápsula anterior do ombro e os músculos do manguito rotador, que precisam trabalhar dobrado para impedir que o ombro desloque anteriormente. O fisioterapeuta experiente não olha apenas para onde dói; nós olhamos para como você se move como um todo. Se corrigirmos apenas o ombro e ignorarmos o tornozelo rígido, a dor voltará assim que você pegar na barra novamente, pois a mecânica do movimento continuará forçando a articulação superior para compensar a inferior.
O mesmo princípio se aplica à extensão do quadril e à mobilidade torácica. Se sua coluna torácica é rígida e “travada” em cifose, você não consegue estender a parte superior das costas para receber a barra. A única maneira de colocar os braços acima da cabeça nesse cenário é compensar com a coluna lombar ou forçar a articulação glenoumeral (do ombro) ao extremo. Tratamos o ombro, mas muitas vezes a “cura” vem de soltar o tornozelo e ganhar mobilidade na caixa torácica, permitindo que o ombro trabalhe dentro de uma zona de conforto e segurança.
As Principais Lesões de Ombro no Levantamento de Peso[2]
Entendendo a Síndrome do Impacto Subacromial
A Síndrome do Impacto é, sem dúvida, a queixa campeã nos consultórios quando se trata de levantadores de peso. Ela ocorre quando os tendões do manguito rotador e a bursa subacromial ficam irritados e inflamados devido ao atrito repetitivo contra o acrômio.[4][5] No início, você sente apenas um desconforto leve após o treino, que melhora com o aquecimento. Com o tempo, essa dor passa a aparecer durante o treino e, em estágios avançados, atrapalha até o sono. A dor é característica: piora ao levantar o braço acima da linha do ombro e pode irradiar para a lateral do braço.
O perigo dessa síndrome é que ela é progressiva. O que começa como uma bursite (inflamação da bursa) pode evoluir para uma tendinite e, se não tratada, para uma ruptura parcial ou total do tendão. O tendão inflamado fica mais espesso, ocupando mais espaço no túnel que já está estreito, gerando mais atrito e mais inflamação. É um ciclo inflamatório que precisa ser quebrado. Ignorar essa dor e continuar treinando pesado “na raça” é o caminho mais rápido para uma lesão que pode te tirar dos treinos por meses.
O tratamento não envolve necessariamente parar de treinar completamente, mas exige modificação de carga e amplitude.[5] Precisamos desinflamar a região, não apenas com remédios, mas removendo o fator mecânico que causa a agressão. Isso significa melhorar a postura da escápula, garantir que a cabeça do úmero esteja bem centralizada e fortalecer os músculos que puxam essa cabeça para baixo, impedindo que ela suba e esmague os tendões contra o teto do ombro durante o movimento do Snatch.
Lesões Labrais e a Instabilidade Articular
Diferente do impacto, que é um problema de “espaço”, as lesões labrais são problemas de “estabilidade”. O labrum é como um anel de borracha que aumenta a profundidade da cavidade onde o braço se encaixa. No Snatch, a força de tração e rotação súbita pode causar o descolamento dessa estrutura, conhecido como lesão SLAP (quando ocorre na parte superior). Isso é comum quando a barra é recebida de forma descontrolada ou quando há um trauma agudo, como quase perder um levantamento para trás e tentar segurá-lo à força.
Os sintomas de uma lesão no labrum podem ser mais sutis e confusos. Você pode sentir estalos profundos, uma sensação de que o ombro está “solto” ou “bambo”, e dor profunda que é difícil de localizar com o dedo. Em casos mais severos, o ombro pode até sair do lugar (luxar) ou dar a sensação de que vai sair. Para um atleta de Snatch, a estabilidade é tudo.[2] Um labrum lesionado compromete a capacidade do seu ombro de saber onde está no espaço e de reagir às cargas rápidas.
A reabilitação de lesões labrais é focada intensamente em propriocepção e controle neuromuscular. Como a estrutura passiva (o “anel de borracha”) está comprometida, precisamos ensinar os músculos ao redor a fazerem o trabalho extra de estabilização dinâmica. É um processo que exige paciência, pois o labrum tem uma vascularização pobre e cicatriza lentamente. Em muitos casos, conseguimos evitar a cirurgia tornando a musculatura tão competente que ela compensa a falha na estrutura interna.
O Estresse no Manguito Rotador e Tendinopatias
O manguito rotador não serve apenas para rodar o braço; sua função primordial é manter a cabeça do úmero centralizada na glenoide. Durante o Snatch, esses quatro pequenos músculos trabalham exaustivamente para contrapor a força poderosa do deltoide e dos grandes dorsais. Se houver um desequilíbrio de forças — por exemplo, um deltoide muito forte puxando para cima e um manguito fraco incapaz de estabilizar —, o tendão sofre.[4] As tendinopatias (degeneração do tendão) ocorrem quando a taxa de desgaste supera a taxa de regeneração do tecido.
Você precisa entender que tendão não gosta de mudança brusca de carga. Se você decide aumentar o volume do seu treino de Snatch drasticamente de uma semana para a outra, seus músculos podem aguentar, mas seus tendões provavelmente não. Eles precisam de tempo para se adaptar à tensão mecânica. A dor da tendinopatia costuma ser aquele incômodo que “esquenta” e melhora durante o treino, mas volta com força total no dia seguinte, muitas vezes com rigidez matinal.
Tratar uma tendinopatia exige carga.[1] Isso mesmo, repouso total geralmente não resolve tendinopatias crônicas. O tendão precisa de estímulo mecânico controlado para reorganizar suas fibras de colágeno. Usamos exercícios isométricos (sem movimento) para alívio da dor inicial e, progressivamente, introduzimos cargas excêntricas e concêntricas para “ensinar” o tendão a suportar carga novamente. É um ajuste fino entre colocar carga suficiente para estimular a cura e não colocar carga excessiva para piorar a lesão.
O Papel Fundamental da Escápula na Saúde do Ombro
A Escápula como Base de Suporte para o Braço
Imagine tentar disparar um canhão a partir de uma canoa instável na água. O canhão é o seu braço e a canoa é a sua escápula. Se a base (a escápula) não estiver estável, toda a força que você tenta gerar ou absorver com o braço será dissipada ou causará danos. A escápula é a fundação sobre a qual o complexo do ombro opera. No Snatch, ela precisa ser uma rocha sólida para transferir a força das pernas e do tronco para a barra, mas ao mesmo tempo precisa ser móvel o suficiente para girar e permitir que o braço suba.
Muitos atletas têm o que chamamos de escápula “alada” ou instável, onde a borda do osso levanta das costas. Isso significa que os músculos que deveriam “colar” a escápula no tórax, como o serrátil anterior e o trapézio inferior, não estão fazendo seu trabalho. Sem essa estabilização, o manguito rotador, que se origina na escápula, não tem um ponto fixo eficiente para puxar. O resultado é uma perda significativa de força e um aumento exponencial do risco de lesão.
Você precisa pensar na sua escápula antes de pensar no seu braço. Exercícios de consciência corporal que ensinam você a posicionar e controlar suas escápulas são vitais. No Snatch, especificamente na posição de recepção, a escápula deve estar rodada superiormente e inclinada posteriormente. Se ela não chegar nessa posição, o úmero bate no acrômio. Portanto, treinar a força e o posicionamento escapular não é apenas “acessório”, é pré-requisito para levantar pesado com segurança.[1]
Discinesia Escapular e a Perda do Ritmo
A discinesia escapular é o termo técnico chique para “movimento errado da escápula”. Existe um ritmo natural, uma dança sincronizada entre o úmero (braço) e a escápula. Para cada grau que seu braço sobe, a escápula deve se mover em uma proporção específica. Quando esse ritmo é quebrado — seja por encurtamento do peitoral menor ou fraqueza do trapézio —, o movimento se torna desarmônico. Você pode ver isso visivelmente em alguns atletas: o ombro sobe em direção à orelha (encolhimento) antes do braço levantar, indicando uma dominância excessiva do trapézio superior.
Essa alteração do ritmo muda toda a mecânica da articulação glenoumeral. No Snatch, isso é catastrófico. Se a escápula não girar para cima rápido o suficiente durante a puxada da barra, você chegará ao bloqueio articular prematuramente. Isso obriga você a compensar com a coluna lombar ou a forçar o ombro, gerando o impacto que mencionamos antes. A discinesia muitas vezes não dói na escápula em si, mas causa a dor no ombro. Tratamos a causa (escápula) para curar o sintoma (ombro).
Identificar a discinesia exige um olhar clínico apurado. Filmamos o atleta de costas, observamos o movimento em câmera lenta e comparamos os dois lados. Muitas vezes, a discinesia aparece apenas sob fadiga. O atleta faz as primeiras repetições perfeitamente, mas na quinta repetição a escápula começa a “voar”. Isso indica que a resistência muscular dos estabilizadores é insuficiente para o volume de treino proposto. O tratamento foca em reeducar esse padrão de movimento até que ele se torne subconsciente.
Fortalecimento dos Estabilizadores Escapulares
Não adianta ter deltoides gigantes se os músculos que seguram a base do seu ombro são fracos. O serrátil anterior, muitas vezes esquecido, é o principal responsável por manter a escápula colada ao tórax e por girá-la para cima. O trapézio inferior é crucial para contrapor a força do trapézio superior e manter os ombros longe das orelhas. O fortalecimento desses músculos deve ser feito com exercícios específicos, isolados inicialmente, e depois integrados ao movimento complexo.
Exercícios como “Y-raises”, “T-raises” e variações de flexão de braço com ênfase na protração (push-up plus) são fundamentais. Mas a execução é tudo. Não é sobre quanto peso você levanta nesses exercícios, mas sobre a qualidade da ativação. Se você faz um exercício para trapézio inferior mas sente o pescoço (trapézio superior) queimar, você está reforçando o padrão errado. A fisioterapia usa o toque e o feedback visual para garantir que você está ativando o músculo certo na hora certa.
Incorpore esses exercícios no seu aquecimento como ativação ou no final do treino como acessório. Para o Snatch, a estabilidade overhead é construída com a barra acima da cabeça. Caminhadas com peso overhead (Overhead Carries) ou sustentação isométrica na posição de agachamento (Snatch Balance isométrico) são excelentes para ensinar a escápula a se manter estável sob carga, transferindo a força do “chão” da academia para a barra de forma eficiente.
Voltando para a Barra: Critérios de Alta e Retorno[6]
Diferenciando Dor de Desconforto Muscular
Uma das partes mais difíceis da reabilitação é saber quando é seguro voltar a treinar. Você precisa aprender a linguagem do seu corpo. Existe uma diferença crucial entre a dor “boa” do treino, que é muscular, difusa e aparece após o esforço, e a dor “ruim” da lesão, que é aguda, pontual (você aponta com um dedo) e muitas vezes acontece durante o movimento. No retorno ao Snatch, um leve desconforto pode ser aceitável, mas dor aguda ou dor que altera sua mecânica de movimento é um sinal vermelho.
Usamos uma escala de dor de 0 a 10. Durante os exercícios de reabilitação e retorno gradual, uma dor até 2 ou 3, que cessa logo após o término do exercício e não piora no dia seguinte, é considerada “segura”. Isso indica que estamos estressando o tecido o suficiente para gerar adaptação, mas não para causar dano. Se a dor passar desse limiar ou persistir por mais de 24 horas, ajustamos a carga ou o volume. A comunicação honesta entre você e seu fisioterapeuta é vital aqui; esconder a dor para “voltar logo” só atrasa o processo.
Também avaliamos a dor noturna. Se após um treino de retorno você volta a ter dor para dormir ou acorda com o ombro latejando, exageramos na dose. O retorno deve ser encarado como um tratamento em si. Cada treino é uma dose de medicamento: se for pouco, não faz efeito; se for muito, intoxica. Encontrar a dose ideal de treino é a chave para uma recuperação sustentável e duradoura.
Progressão de Carga e Complexidade Técnica[1]
Não voltamos direto para o Snatch completo com carga máxima. O retorno é fatiado. Começamos com movimentos parciais e com menos demanda de mobilidade e velocidade. O “Muscle Snatch”, por exemplo, pode ser introduzido cedo para trabalhar a trajetória da barra sem o impacto da recepção dinâmica. Depois, evoluímos para “Power Snatch”, onde a recepção é mais alta e exige menos mobilidade extrema de ombro e torácica, antes de finalmente chegar ao “Squat Snatch” completo.
A carga também segue uma progressão lógica. Inicialmente, trabalhamos com volume maior e carga menor para promover fluxo sanguíneo e adaptação tecidual. Conforme a confiança e a integridade do tecido aumentam, invertemos a equação: aumentamos a carga e diminuímos o volume. É fundamental monitorar a técnica sob fadiga.[1][2][7] Muitas vezes, o atleta está bem na primeira repetição, mas na terceira a escápula perde a estabilidade. Nesse ponto, o treino deve parar ou o peso deve ser reduzido. A qualidade do movimento é inegociável nesta fase.[8]
Além da carga na barra, a velocidade é um fator de estresse. Movimentos lentos são mais controláveis e menos agressivos para o labrum e tendões. Movimentos explosivos aumentam a força de tração exponencialmente. Por isso, reinserimos a velocidade gradualmente. Você pode fazer puxadas lentas e controladas antes de tentar entrar embaixo da barra com velocidade máxima. Respeitar essas etapas constrói uma base sólida que previne a temida recidiva da lesão.
O Fator Psicológico e o Medo do Movimento
A cinesiofobia, ou medo do movimento, é real e pode ser tão incapacitante quanto a lesão física. Depois de sentir uma dor aguda no Snatch, seu cérebro cria um mecanismo de proteção. Ele antecipa a dor e, inconscientemente, altera sua coordenação motora para “proteger” a área, muitas vezes causando tensão muscular excessiva e travamento do movimento. Você pode se pegar hesitando na hora de entrar embaixo da barra ou segurando o movimento antes da extensão completa.[9]
Como fisioterapeuta, preciso tratar sua confiança tanto quanto seu tendão. Expor você gradualmente ao movimento que causou a dor, em um ambiente controlado e sem dor, ajuda a “reprogramar” o cérebro. Mostramos que o movimento é seguro. Celebrar pequenas vitórias, como conseguir levantar o braço sem dor ou fazer um Snatch com a barra vazia com técnica perfeita, ajuda a reconstruir essa confiança.
É importante que você reconheça esse medo e não o veja como fraqueza. É uma resposta biológica natural. Técnicas de visualização, onde você se imagina fazendo o movimento perfeito e sem dor antes de executar, podem ajudar. O retorno pleno ao esporte só acontece quando você confia no seu ombro o suficiente para se comprometer totalmente com o levantamento, sem hesitação. A dúvida no meio de um Snatch é a receita para o desastre, então a mente deve estar tão pronta quanto o corpo.
Terapias Aplicadas e Abordagens de Tratamento[5][7][10][11][12]
Terapia Manual e Liberação Miofascial
Quando você chega na clínica com o ombro travado e dolorido, a terapia manual é nossa primeira linha de ação para aliviar os sintomas e restaurar a mobilidade imediata. Utilizamos técnicas de mobilização articular, onde deslizamos suavemente a cabeça do úmero dentro da articulação para ganhar amplitude e reduzir a dor, lubrificando a articulação naturalmente. Isso é especialmente útil para cápsulas articulares rígidas (“ombro congelado” ou rigidez pós-traumática) que impedem você de alcançar a posição correta do Snatch.
A liberação miofascial é direcionada aos tecidos moles que estão “presos” ou tensos. Focamos em áreas chave como o peitoral menor (que puxa o ombro para frente), o latíssimo do dorso (que limita a elevação do braço) e a porção posterior do manguito rotador. Soltar esses pontos de tensão não apenas alivia a dor, mas melhora instantaneamente a mecânica do seu movimento. Muitas vezes, a “falta de força” é na verdade uma inibição causada por um músculo antagonista muito tenso.
Também utilizamos técnicas como o “Dry Needling” (agulhamento a seco) para desativar pontos-gatilho em músculos profundos que são difíceis de alcançar com as mãos, como o infraespinhal. Essa técnica pode promover um alívio rápido da dor referida e relaxamento muscular, abrindo uma janela de oportunidade para entrarmos com os exercícios corretivos logo em seguida. A terapia manual prepara o terreno; o exercício constrói a casa.
Exercícios de Controle Motor e Propriocepção
Esta é a fase onde “calibramos” o seu sistema nervoso. Não se trata apenas de ficar forte, mas de ficar coordenado.[2] Usamos exercícios que desafiam a estabilidade do ombro em posições instáveis.[1][2][8][9] Um exemplo clássico é o uso de elásticos ou a “Bodyblade”, que exigem que o ombro reaja a oscilações rápidas. Para o Snatch, reproduzimos a posição final com kettlebells invertidos (bottom-up), o que obriga você a ter um alinhamento perfeito e uma pegada firme para equilibrar o peso.
O PNF (Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva) é outra ferramenta poderosa. O fisioterapeuta aplica resistência em padrões diagonais de movimento, estimulando os reflexos musculares e ensinando o ombro a ser forte em amplitudes extremas. Isso simula as demandas reais do esporte de forma controlada. O objetivo é melhorar o tempo de reação dos seus estabilizadores: eles precisam “ligar” milissegundos antes da carga impactar a articulação.
Trabalhamos também a dissociação de cinturas. Ensinamos você a mover o braço independentemente da escápula e a escápula independentemente do tronco. Esse controle fino é o que diferencia o atleta amador que se lesiona constantemente do atleta de elite que levanta cargas enormes com aparente facilidade. O controle motor transforma a força bruta em força funcional e segura.
Recursos Regenerativos e Eletrotermofototerapia
Para auxiliar no processo biológico de cura, utilizamos tecnologias que aceleram a regeneração tecidual. O Laser de Baixa/Alta Potência e os LEDs terapêuticos (Fotobiomodulação) são excelentes para fornecer energia às células (mitocôndrias), reduzindo a inflamação e acelerando a síntese de colágeno em tendões e ligamentos lesionados. Isso é particularmente útil nas tendinopatias e nas fases agudas de dor, permitindo que voltemos aos exercícios ativos mais cedo.
A eletroterapia, como o TENS, é usada para controle da dor, mas preferimos usar a Eletroestimulação Funcional (FES ou “Russas”) associada ao movimento. Colocamos os eletrodos nos músculos que estão “preguiçosos” (como o trapézio inferior) e pedimos para você fazer o exercício. O aparelho ajuda a recrutar mais fibras musculares do que você conseguiria sozinho, “acordando” o músculo e ensinando ao cérebro como ativá-lo corretamente durante o movimento do Snatch.
Em casos crônicos, podemos considerar terapias como Ondas de Choque, que estimulam a vascularização em áreas de fibrose ou calcificação tendínea. No entanto, lembre-se sempre: essas máquinas e recursos são coadjuvantes. Eles aceleram o processo e gerenciam a dor, mas o que realmente cura e previne a lesão a longo prazo é a correção biomecânica e o fortalecimento que construímos juntos através do movimento ativo e consciente. A tecnologia serve para nos permitir treinar melhor, não para substituir o treino.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”