Você decidiu encarar o desafio supremo do asfalto. Completar uma maratona não é apenas sobre correr 42 quilômetros no dia da prova; é sobre sobreviver a meses de treinamentos intensos, volumes acumulados e uma exigência física que vai testar cada fibra do seu corpo.[1][2] Como fisioterapeuta, vejo muitos corredores focarem obsessivamente na planilha de corrida e esquecerem da manutenção da máquina que executa essa tarefa. Se você quer cruzar a linha de chegada sorrindo e não mancando, precisa entender que a fisioterapia não é apenas para quem já se lesionou. Ela é a sua arma secreta para performance e longevidade.
Neste artigo, vamos desenhar juntos um mapa de navegação fisioterapêutica para o seu ciclo. Não vamos falar apenas de “alongar depois do treino”. Vamos mergulhar na ciência do movimento, na periodização da recuperação e em como o seu corpo reage a cada etapa desse processo. Imagine que sou parte da sua equipe técnica e estamos tendo uma conversa franca no consultório, ajustando os detalhes para que sua jornada seja a mais fluida possível. Prepare-se para olhar para a prevenção de uma forma totalmente nova.
Vamos estruturar sua preparação em fases, exatamente como seu treinador faz com a corrida. O corpo tem necessidades muito diferentes quando você está rodando 30km por semana comparado a quando você está no pico de 80km. Ignorar essas nuances é o erro número um que leva a canelites, tendinites e fraturas por estresse. Pegue sua água, acomode-se e vamos transformar sua preparação.
A Base do Sucesso: Avaliação e Preparação Inicial (Semanas 1-4)
Avaliação Biomecânica e do Gesto Esportivo[3]
Antes de você começar a empilhar quilômetros, precisamos saber como seu corpo se comporta em movimento.[1][4][5] Você não construiria um prédio sem analisar o solo, certo? A avaliação biomecânica é o nosso estudo de solo. Nesta fase inicial, o foco não é tratar dor, mas identificar padrões de movimento que podem se tornar problemas no futuro. Observamos se o seu joelho cai para dentro (valgo dinâmico) quando você aterrissa, se o seu quadril “rebola” demais ou se o seu pé tem um ataque muito agressivo com o calcanhar. Esses detalhes, imperceptíveis em 5km, tornam-se marteladas destrutivas ao longo de 42km.
Muitos corredores chegam ao consultório achando que correm de forma “natural”, mas a verdade é que anos de trabalho sentado e calçados inadequados alteram nossa mecânica. Nesta primeira etapa, usamos vídeos em câmera lenta e testes funcionais para mapear sua “assinatura” de corrida. Se descobrirmos que seu glúteo não está ativando corretamente, é agora que corrigimos. Se esperarmos o volume de treino aumentar, tentar corrigir a técnica será como tentar consertar o motor de um carro com ele em movimento na estrada.
Você deve sair dessa avaliação com um “manual de instruções” do seu próprio corpo. Isso inclui saber quais músculos são seus elos fracos e quais articulações têm restrição de movimento. A partir disso, não prescrevemos exercícios genéricos; desenhamos estratégias específicas para você. Se você tem um tornozelo rígido, trabalharemos mobilidade. Se tem um core instável, focaremos em controle motor. Essa personalização é o que separa quem termina a maratona inteiro de quem termina quebrado.
Identificação de Déficits de Força e Mobilidade[3][6]
A força na corrida não é sobre quanto peso você levanta no leg press, mas sobre quanto tempo seus músculos aguentam estabilizar suas articulações. Nas primeiras semanas, realizamos testes de força específica para corredores. O foco principal costuma ser a cadeia posterior (glúteos, isquiotibiais e panturrilhas) e o complexo lombopélvico. É comum encontrarmos corredores com quadríceps muito fortes, mas com glúteos “adormecidos”. Esse desequilíbrio joga uma carga imensa nos joelhos e na lombar a cada passada.
A mobilidade é o outro lado dessa moeda. Um corredor precisa de rigidez para propulsão, mas de flexibilidade para absorção de impacto. Testamos a amplitude do seu dedão do pé (hálux), do tornozelo e do quadril. Se o seu dedão não dobra o suficiente, você compensa rodando o pé ou o joelho, criando uma cadeia de lesões ascendente. Identificar esses bloqueios agora, enquanto o volume de treino ainda é baixo, nos dá uma janela de oportunidade perfeita para ganhar amplitude sem o estresse da fadiga acumulada.
Nesta fase, você vai perceber que “ser forte” para a corrida é diferente de ser forte para o espelho. Trabalhamos muito com força unipodal (em uma perna só), simulando a demanda real da corrida. O objetivo é garantir que, quando você estiver cansado no quilômetro 35, seus músculos estabilizadores ainda tenham “gás” para proteger seus ossos e tendões. É um trabalho de formiguinha, invisível para os outros, mas que você sentirá na pele quando as longas distâncias chegarem.
Estabelecendo a Rotina de “Prehab”
O termo “Prehab” vem de pré-habilitação. É a fisioterapia feita antes de o problema existir.[5][6] Nas primeiras quatro semanas, o objetivo é criar um hábito inegociável: 15 a 20 minutos diários dedicados à manutenção do corpo. Isso não é o seu treino de musculação, é o “dever de casa” da fisioterapia. Envolve exercícios de ativação glútea com mini bands antes de sair para correr, mobilidade de tornozelo enquanto escova os dentes e liberação com rolo de espuma antes de dormir.
A ideia é integrar esses cuidados à sua rotina de vida, para que não se tornem um fardo.[2] Você precisa entender que o tecido conjuntivo (fáscias, tendões) demora mais para se adaptar do que o músculo ou o sistema cardiovascular. Enquanto seu fôlego melhora rápido, seu tendão de Aquiles sofre silenciosamente. O protocolo de Prehab serve para nutrir e preparar esses tecidos mais “lentos” para o que está por vir.
Nós criamos uma sequência simples, que você possa decorar e executar em qualquer lugar. Se você viaja a trabalho ou tem pouco tempo, o Prehab garante o mínimo necessário de manutenção. É como escovar os dentes: você não deixa de fazer só porque está ocupado. Essa consistência nas primeiras semanas cria uma base sólida e resiliente, permitindo que seu corpo absorva as cargas crescentes dos próximos meses com muito mais segurança.
O Ciclo de Aumento de Volume: Manutenção e Ajustes (Semanas 5-12)
Monitoramento de Carga e Sinais de Sobrecarga (Overuse)
Você entrou na fase onde o bicho pega. O volume semanal está subindo, os longões de fim de semana já passam de 1h30 e o corpo começa a reclamar. Aqui, o papel da fisioterapia muda de “preparação” para “gerenciamento de danos”. O foco é diferenciar o que é dor de adaptação (aquela dorzinha muscular boa) do que é início de lesão. Ensinamos você a monitorar a dor matinal: se você acorda e pisa no chão com dor no calcanhar ou no tendão de Aquiles que passa depois de aquecer, isso é um sinal amarelo piscando.
Nesta etapa, o monitoramento de carga não é só sobre quilometragem, é sobre carga interna. Como você está dormindo? Como está seu estresse no trabalho? Tudo isso influencia a capacidade do seu tecido de se regenerar. Se a carga de treino sobe e a recuperação não acompanha, entramos na zona de risco de lesões por overuse (uso excessivo), como a fascite plantar e a síndrome da banda iliotibial. O fisioterapeuta atua aqui como um regulador, às vezes precisando ser a voz da razão que pede para você pular um treino ou trocar uma corrida por bicicleta.
O monitoramento também envolve reavaliar periodicamente as estruturas mais solicitadas. Se a sua panturrilha está ficando perpetuamente tensa, talvez precisemos ajustar a liberação miofascial ou investigar se você não está correndo “na ponta dos pés” demais por fadiga. É um jogo de xadrez constante contra a fadiga acumulada, onde tentamos manter você treinando o máximo possível, mas sempre um passo antes da linha vermelha da lesão.
Liberação Miofascial e Recovery Ativo
Com o aumento do volume, seus músculos tendem a desenvolver pontos de tensão (trigger points) e a fáscia pode ficar mais rígida, perdendo a capacidade de deslizamento. É aqui que entra a liberação miofascial mais intensiva. Não estamos falando apenas de passar o rolinho de forma suave; falamos de terapia manual profunda para restaurar a qualidade do tecido. O músculo precisa ser flexível e complacente; se ele vira uma “carne seca”, ele traciona o tendão e gera tendinites.
O recovery ativo também ganha protagonismo. Em vez de ficar deitado no sofá no dia de descanso (o que pode deixar você mais rígido), prescrevemos atividades de baixo impacto que promovam fluxo sanguíneo sem impacto mecânico, como natação leve ou caminhada. O sangue traz nutrientes e oxigênio e leva embora os subprodutos metabólicos da inflamação. A fisioterapia ajuda a escolher qual modalidade de recovery ativo encaixa melhor com as dores que você está sentindo naquela semana específica.
Além disso, introduzimos estratégias de recuperação passiva que você pode fazer em casa ou na clínica. O uso estratégico de gelo para dores articulares agudas ou calor para tensões musculares crônicas deve ser bem orientado. Muitos corredores erram ao colocar gelo em tudo ou calor em tudo. Saber a hora certa de usar cada recurso acelera sua recuperação entre um treino e outro, permitindo que você esteja “novo” para a próxima sessão de tortura… digo, de treino.
Fortalecimento Específico: Core e Glúteo Médio[7]
À medida que a fadiga acumula, a primeira coisa que perdemos é a postura. O tronco cai para frente, o quadril “senta”. Para combater isso, intensificamos o trabalho de core e glúteo médio. O glúteo médio é o principal estabilizador lateral do quadril; se ele falha, seu joelho sofre. Nesta fase do ciclo, o fortalecimento deixa de ser sobre “aprender o movimento” e passa a ser sobre “resistência de força”.
Fazemos exercícios que desafiam sua estabilidade sob fadiga. Por exemplo, pranchas dinâmicas ou exercícios de agachamento unipodal realizados logo após uma corrida leve, para ensinar seu corpo a recrutar esses músculos mesmo quando você já está cansado. O objetivo é blindar sua pelve. Uma pelve estável é a plataforma de onde suas pernas empurram o chão. Se a plataforma oscila, você perde energia e se machuca.
Você vai notar que, ao fortalecer especificamente essas áreas, dores aleatórias no joelho ou na lombar tendem a desaparecer. É como apertar os parafusos de uma estrutura que está balançando. Mantenha a disciplina nesses exercícios, mesmo quando estiver cansado dos treinos de corrida. Eles são o seu seguro de vida contra a temida “quebra” mecânica no km 30 da maratona.
O Pico e o Polimento: Estratégias de Sobrevivência (Semanas 13-16/Dia da Prova)
Tapering Fisioterapêutico: Reduzindo a Tensão sem Perder Tônus
O período de tapering (polimento) é quando o volume de corrida cai drasticamente para o corpo descansar antes da prova. Porém, fisioterapeuticamente, é uma fase delicada. Muitos corredores sentem “dores fantasmas” nessa época porque o corpo entra em um estado de reparo profundo e o sistema nervoso fica hipersensível. Nosso trabalho é modular esse tônus muscular. Não queremos relaxar você tanto a ponto de ficar “mole”, nem deixar a tensão acumular.
Ajustamos as sessões de fisioterapia para serem menos agressivas. Trocamos a liberação miofascial profunda e dolorosa por técnicas de mobilização mais rítmicas e solturas suaves. O objetivo é manter a amplitude de movimento e a circulação, sem gerar inflamação pós-sessão. Você precisa chegar na linha de largada sentindo-se leve, mas com as “molas” prontas para disparar.
É também o momento de tratar a ansiedade somatizada. A tensão pré-prova costuma travar o diafragma e os músculos do pescoço e ombros. Técnicas de terapia manual focadas na respiração e relaxamento da cintura escapular são essenciais. Um corredor tenso gasta mais energia para manter a postura. Queremos você fluido e econômico. A fisioterapia no tapering é quase um “ajuste fino” de um instrumento musical antes do concerto.
Prevenção de Lesões Agudas nos Treinos Longos[3][6][8]
Nos últimos longões (aqueles de 30km, 32km), o risco de lesões agudas como distensões ou entorses aumenta devido ao cansaço extremo. A estratégia preventiva aqui envolve o aquecimento dinâmico rigoroso e o uso preventivo de bandagens (taping) se houver algum histórico de instabilidade. Se você tem um tornozelo que gosta de virar, talvez seja a hora de testar uma estabilização com fita rígida ou kinesio tape durante esses treinos chave.
Também revisamos sua estratégia de hidratação e nutrição sob a ótica da função muscular. A desidratação e a falta de eletrólitos são causas clássicas de cãibras e contraturas musculares severas no final dos longões. Embora seja área da nutrição, como fisioterapeuta, preciso garantir que seu músculo tenha o combustível químico para contrair e relaxar. Orientamos sobre sinais precoces de falha muscular: se sentir aquela “fisgada” ou “aviso” de cãibra, pare e alongue dinamicamente. Não tente ser herói no treino.
A prevenção aqui é ativa e consciente. Você deve correr escutando seu corpo em volume máximo. Ensinamos você a ajustar a passada se sentir desconforto: encurtar o passo, aumentar a cadência, relaxar os ombros. São microajustes biomecânicos que você faz em tempo real para tirar a carga de uma estrutura que está gritando e passar para outra que está mais inteira. Isso é inteligência corporal aplicada à sobrevivência na corrida.
O Dia da Prova: Ativação e Aquecimento
Chegou o grande dia. A fisioterapia preventiva aqui se resume a preparar o sistema para a guerra. Não é hora de alongamentos passivos longos que “adormecem” o músculo e diminuem a potência. O foco é ativação neuromuscular. Recomendamos uma rotina de 10 a 15 minutos que acorde os glúteos, o core e a propriocepção dos pés. Exercícios balísticos controlados, pequenos saltos e movimentos que imitam a corrida são a chave.
Se você tem alguma área crítica (aquele joelho que incomodou no ciclo), aplicamos uma bandagem funcional de suporte antes da largada. Isso dá não apenas suporte mecânico, mas também segurança psicológica. Você vai para a prova sabendo que está protegido. O aquecimento deve elevar sua temperatura corporal e lubrificar as articulações com líquido sinovial, deixando tudo pronto para o primeiro passo.
Lembre-se: nos primeiros quilômetros, a adrenalina mascara dores e faz você correr errado sem perceber. A ativação pré-prova serve para calibrar sua propriocepção para que, mesmo na euforia da largada, você mantenha a técnica que treinamos por meses. É o último check-up antes de soltar a máquina no asfalto. Confie no processo, seu corpo está pronto.
A Biomecânica Invisível: O Papel do Sistema Nervoso e Pés
A Importância da Cadência e do Impacto no Solo
Vamos falar de um detalhe técnico que muda tudo: cadência. Cadência é o número de passos que você dá por minuto. Corredores amadores tendem a ter uma cadência baixa e passadas longas, o que faz com que pousem com o pé muito à frente do corpo (overstriding). Isso atua como um freio a cada passo, enviando uma onda de choque brutal para o joelho e quadril. Aumentar sua cadência em 5% a 10% pode reduzir a carga acumulada nas suas articulações em toneladas ao final de uma maratona.
Na fisioterapia, usamos metrônomos ou playlists com BPM específico para treinar seu cérebro a girar as pernas mais rápido e mais curto. Isso traz o ponto de aterrissagem para baixo do seu centro de gravidade, tornando a corrida mais eficiente e menos lesiva. É uma mudança puramente neural, de software, não de hardware. Você não precisa de músculos novos para isso, precisa de coordenação.
O impacto no solo não é o vilão; o vilão é como você gerencia esse impacto. Se você bate seco e pesado, quebra. Se você usa a musculatura como uma mola para amortecer e reciclar essa energia, você voa. Trabalhamos exercícios pliométricos (saltos) para ensinar seus tendões a armazenar e liberar energia elástica. Isso transforma suas pernas em molas eficientes, poupando seus músculos de terem que fazer toda a força sozinhos.
Treino Proprioceptivo: Acordando seus Pés
Seus pés são a única interface entre você e o mundo. Eles têm milhares de terminações nervosas destinadas a dizer ao cérebro onde o chão está e como ele é. No entanto, enfiamos nossos pés em tênis superamortecidos que “silenciam” essa comunicação. O treino proprioceptivo envolve exercícios descalço, em superfícies instáveis ou grama, para “acordar” os pequenos músculos intrínsecos do pé que estabilizam o arco plantar.
Um pé forte e inteligente reage em milissegundos a qualquer irregularidade do asfalto, prevenindo entorses. Além disso, o fortalecimento do arco plantar (o famoso “pé curto” ou short foot) ajuda a prevenir a fascite plantar e a pronação excessiva. Se o pé desaba, o joelho roda internamente e o quadril cai. Tudo começa na base.[8]
Dedicamos tempo nas sessões para reensinar você a usar os dedos do pé, a sentir o chão e a distribuir o peso corretamente. Pode parecer bobagem ficar tentando pegar uma toalha com os dedos do pé ou se equilibrar em uma perna só no “bosu”, mas esses exercícios reconectam o sistema nervoso periférico ao central. Um pé “ligado” é um pé que não se machuca e que impulsiona você com eficiência.
Gerenciamento da Dor Central: Diferenciando Desconforto de Lesão
Correr uma maratona dói. Ponto. Mas existe a dor do esforço e a dor do dano. O sistema nervoso central às vezes fica sensibilizado e interpreta qualquer desconforto como ameaça grave, enviando sinais de dor desproporcionais para tentar fazer você parar. Chamamos isso de sensibilização central. Parte da fisioterapia é educação em dor: ensinar você a interpretar esses sinais sem pânico.
Durante o ciclo, você vai sentir dores migratórias. Um dia é o joelho, no outro a canela. Se a dor não piora durante a corrida, não causa mancar e some pouco depois do treino, geralmente é segura. Ensinamos você a fazer esse autodiagnóstico. Isso evita que você pare de treinar desnecessariamente por medo, o que atrapalharia sua preparação, ou que ignore uma dor real que precisa de atenção.
O cérebro também usa a dor como mecanismo de proteção contra a fadiga. Entender isso ajuda você a negociar com seu próprio corpo nos quilômetros finais.[6] Técnicas de respiração e foco externo (olhar a paisagem, focar na cadência) ajudam a “acalmar” um sistema nervoso alarmista. Você aprende a ficar confortável com o desconforto, uma habilidade mental tão importante quanto o VO2 max.
O “Pós-Guerra”: Protocolo de Recovery e Retorno[9]
As Primeiras 48 Horas: O Que Fazer (e O Que Evitar)
Você cruzou a linha de chegada, pegou a medalha. Parabéns! Mas fisiologicamente, seu corpo está um caos. Há microlesões musculares generalizadas, inflamação sistêmica e depleção de reservas. As primeiras 48 horas são cruciais. A regra de ouro é: movimento suave. Ficar totalmente parado na cama no dia seguinte é a pior coisa que você pode fazer, pois você vai “travar”. Caminhadas leves são essenciais para bombear o edema para fora das pernas.
Evite anti-inflamatórios potentes se possível, pois a inflamação inicial é necessária para a reparação tecidual. Hidrate-se absurdamente e foque em sono. O sono é a melhor ferramenta de recuperação que existe; é quando o hormônio do crescimento é liberado para consertar o estrago. Meias de compressão podem ser grandes aliadas aqui para ajudar no retorno venoso e diminuir a sensação de pernas pesadas.
Fisioterapia nesta fase? Drenagem linfática manual ou uso de botas de compressão pneumática são excelentes. Massagens profundas ou liberação miofascial agressiva devem ser evitadas nessas primeiras 48 horas, pois podem aumentar o dano muscular em tecidos que já estão fragilizados. Seja gentil com seu corpo; ele acabou de fazer algo extraordinário por você.
Retorno Gradual: A “Depressão Pós-Maratona” e o Corpo
Existe um fenômeno real de queda de dopamina e endorfina após a euforia da prova, muitas vezes acompanhado de um sistema imunológico suprimido (a “janela aberta”). É comum pegar resfriados ou sentir dores articulares tardias na semana seguinte. O retorno aos treinos deve ser incrivelmente lento. Chamamos de reverse tapering. As primeiras semanas pós-prova devem ser de trotes regenerativos, sem preocupação com ritmo ou distância.
Muitos corredores, empolgados com o sucesso (ou frustrados com o resultado), querem voltar a treinar forte cedo demais e se lesionam depois da maratona. O tecido ósseo, por exemplo, pode levar semanas para se recuperar totalmente do estresse de impacto repetitivo. Respeite esse tempo. Use esse período para fazer outras atividades: natação, ciclismo, ioga. Dê férias ao impacto, mas não ao movimento.
A fisioterapia aqui foca em reequilibrar o corpo. Soltamos as compensações que você criou durante a prova (talvez você tenha corrido torto nos últimos 5km) e tratamos qualquer “sequela” imediata, como bolhas, unhas perdidas ou tendinites agudas. É um período de “limpar a casa” para que o próximo ciclo comece do zero, e não do negativo.
Reavaliação para o Próximo Ciclo
Depois de cerca de um mês de recuperação ativa, fazemos uma nova avaliação. Como seu corpo mudou após esse ciclo? Você ganhou força? Perdeu mobilidade? Identificamos o que funcionou e o que não funcionou. Talvez aquele joelho que incomodou mostre que precisamos focar ainda mais no glúteo médio no próximo ciclo. Ou talvez a falta de mobilidade de tornozelo tenha sido o limitador da sua velocidade.
Cada maratona ensina algo sobre sua fisiologia. O fisioterapeuta usa esses dados para refinar sua estratégia de prevenção.[3] O objetivo é a longevidade no esporte. Queremos que você corra maratonas aos 40, 50, 60 anos. Para isso, o ciclo de “destruição e reconstrução” deve ser gerenciado com inteligência.[2] A reavaliação fecha o ciclo atual e já planta a semente do sucesso para o próximo desafio.
Você não é o mesmo corredor que começou o treinamento há 4 meses. Seu corpo se adaptou, seus tecidos estão mais densos e sua mente mais forte. A fisioterapia garantiu que essa adaptação ocorresse com o mínimo de danos colaterais. Agora, com o corpo recuperado e o conhecimento adquirido, o próximo recorde pessoal é apenas uma questão de tempo.
As Terapias Indispensáveis no Seu Ciclo
Para finalizar, quero destacar as ferramentas práticas que usamos no consultório e que serão suas melhores amigas nessa jornada. Não são luxo, são manutenção necessária para quem exige alta performance do corpo.[6]
Liberação Miofascial e Massagem Desportiva:
Essenciais para manter a “higiene” do tecido muscular. Durante os treinos, as fibras musculares e a fáscia podem formar aderências que limitam o movimento e causam dor. A terapia manual “penteia” essas fibras, restaurando o deslizamento e a circulação. É dolorido na hora, mas a sensação de liberdade de movimento depois é impagável. Recomendamos sessões quinzenais ou mensais, dependendo do volume de treino.
Dry Needling (Agulhamento a Seco):
Para aqueles pontos de tensão profundos e teimosos que a mão não alcança, o dry needling é mágico. Usamos agulhas finas (semelhantes às de acupuntura) para desativar trigger points no músculo, causando um reflexo de relaxamento imediato e alívio da dor. É excelente para soltar panturrilhas travadas, bandas iliotibiais rígidas e glúteos contraturados. É uma técnica rápida e eficaz para “resetar” um músculo sobrecarregado.
Botas de Compressão Pneumática e Crioterapia:
São as estrelas do recovery. As botas fazem uma massagem de compressão sequencial que ajuda a drenar o ácido lático e o edema metabólico das pernas, acelerando a recuperação entre treinos pesados. Já a crioterapia (imersão em gelo) é ótima para processos inflamatórios agudos e para diminuir a temperatura central e tecidual após longões em dias quentes, ajudando a limitar o dano secundário e a dor.
Fotobiomodulação (Laser e LED Terapêutico):
Tecnologia a favor das suas células. O uso de luz vermelha e infravermelha sobre os músculos ajuda a aumentar a produção de energia (ATP) nas mitocôndrias, acelera a reparação tecidual e modula a inflamação. É uma terapia indolor e não invasiva que ajuda você a se recuperar mais rápido de microlesões e a estar pronto para o treino do dia seguinte com menos fadiga.
Integrar essas terapias ao seu cronograma não é “gastar dinheiro”, é investir na certeza de que você chegará aos 42km. Seu corpo é sua máquina; cuide dele com o respeito que um maratonista merece. Nos vemos na linha de chegada!

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”