Você já sentiu aquela pontada chata na parte de trás da coxa durante um treino longo e ficou na dúvida se era apenas cansaço ou algo mais sério. Essa incerteza é muito comum entre os corredores que atendo no consultório todos os dias. A linha entre uma simples fadiga muscular e uma compressão nervosa pode parecer tênue para quem está sentindo a dor, mas fisiologicamente são processos completamente distintos. Entender essa diferença é o que vai definir se você pode continuar correndo ou se precisa parar imediatamente para não agravar uma lesão.
Muitos corredores chegam até mim com um autodiagnóstico errado, tratando um nervo pinçado como se fosse um estiramento muscular. O problema disso é que alongar um nervo irritado pode piorar drasticamente o quadro, transformando um desconforto passageiro em uma dor crônica. Quando falamos de corrida, o impacto repetitivo e a biomecânica da passada exigem muito tanto dos tecidos contráteis, que são os músculos, quanto do sistema de condução elétrica, que são os nervos.
O objetivo aqui é te dar clareza sobre o que está acontecendo no seu corpo. Vamos mergulhar na anatomia e na fisiologia de forma prática, para que você consiga escutar os sinais que suas pernas estão enviando. Não se trata apenas de correr mais rápido, mas de correr com inteligência e longevidade. Você precisa saber quando o corpo pede descanso e quando ele pede tratamento específico.
Entendendo a anatomia do corredor
O papel da musculatura na corrida
Quando você corre, seus músculos atuam como grandes absorvedores de impacto e propulsores de movimento. A cadeia posterior, que envolve glúteos, isquiotibiais e panturrilhas, trabalha incansavelmente para empurrar o chão para trás e levar seu corpo para frente. Essa musculatura precisa ser elástica e forte para suportar cargas que podem chegar a três vezes o seu peso corporal a cada passo. O tecido muscular é vascularizado e feito para contrair e relaxar ritmicamente.
No entanto, o músculo não trabalha sozinho e depende de um comando elétrico para funcionar. Ele é o executor da ação, mas quem manda a ordem é o sistema nervoso. Durante a corrida, ocorrem milhares de microlesões nas fibras musculares, o que é um processo natural de adaptação ao esforço. O problema surge quando a demanda é maior que a capacidade do tecido de se regenerar, gerando pontos de tensão ou estiramentos reais que mudam a mecânica do movimento.
A saúde muscular depende de um bom aporte sanguíneo e de uma boa drenagem de metabólitos. Quando o músculo fica tenso demais por muito tempo, ele cria um ambiente ácido e hipóxico, ou seja, com pouco oxigênio. Isso altera a função muscular e pode começar a comprimir as estruturas vizinhas. É aqui que a anatomia se torna um campo de batalha apertado, onde músculos inchados e rígidos começam a brigar por espaço com outras estruturas vitais.
O trajeto do nervo ciático e seus vizinhos
O nervo ciático é o maior nervo do corpo humano e é o protagonista de muitas histórias de dor na corrida. Ele nasce na região lombar, passa por dentro da bacia, atravessa a região glútea e desce por toda a perna até o pé. Imagine ele como um cabo de alta tensão grosso, com a espessura aproximada de um dedo mindinho, que precisa deslizar livremente entre os músculos para levar informações do cérebro para a perna e vice-versa.
Na região do quadril, esse nervo passa muito próximo, e às vezes até por dentro, de um músculo chamado piriforme. Essa vizinhança é problemática para corredores. Como usamos muito os glúteos para estabilizar a pelve na corrida, qualquer espasmo ou aumento de volume nessa musculatura pode funcionar como uma pinça sobre o nervo. Diferente do músculo, o nervo não gosta de ser apertado e nem esticado excessivamente.
O trajeto do nervo é longo e cheio de obstáculos. Ele passa por túneis fibrosos e contorna ossos. Na corrida, a flexão e extensão repetitiva do joelho e do quadril exigem que esse nervo tenha uma capacidade de deslizamento perfeita, o que chamamos de neurodinâmica. Se houver qualquer aderência ou compressão nesse trajeto, o nervo reclama. E a reclamação do nervo é muito diferente da reclamação do músculo.
A biomecânica da passada e o impacto
A forma como você pisa interfere diretamente na tensão gerada sobre músculos e nervos. Uma passada com “overstriding”, que é quando você aterra com o pé muito à frente do centro de gravidade do corpo, gera uma força de frenagem enorme. Isso obriga os isquiotibiais e os glúteos a trabalharem dobrado para desacelerar a perna, aumentando a tensão na cadeia posterior onde o nervo ciático reside.
Além disso, a estabilidade da sua pelve durante a fase de apoio da corrida é crucial. Se o seu quadril “cai” para o lado quando você pisa, o que chamamos de queda pélvica, você cria um estiramento lateral nas estruturas do glúteo. Esse movimento repetitivo de chicote na região glútea pode irritar tanto as inserções musculares quanto as raízes nervosas que saem da coluna.
A cadência, ou o número de passos que você dá por minuto, também joga um papel importante. Passadas muito longas e lentas aumentam o tempo de contato com o solo e a carga vertical. Ajustar a biomecânica não é apenas uma questão de performance, mas de sobrevivência para as estruturas neurais e musculares. Um corpo desalinhado na corrida é uma fábrica de compressões e tensões desnecessárias.
Identificando a dor muscular
Características da dor miofascial
A dor muscular geralmente é fácil de localizar. Você consegue apontar com um ou dois dedos exatamente onde dói. É aquela sensação de “carne batida” ou um peso na região afetada. Na corrida, ela costuma aparecer de forma gradual e tende a piorar com a contração ou o alongamento daquele músculo específico. Se você aperta o local, a dor se reproduz, mas ela fica restrita àquela área ou se espalha muito pouco ao redor.
Outra característica marcante é o tipo de sensação. O paciente geralmente descreve como uma dor surda, profunda e latejante. Não há choques elétricos nem sensação de queimadura superficial. É uma dor mecânica, que responde diretamente à carga que você coloca. Se você para de correr, a dor tende a aliviar quase instantaneamente ou fica apenas como um desconforto de fundo.
A rigidez também é um sinal clássico. O músculo parece estar encurtado e você sente que precisa se movimentar para “soltar” a região. Muitas vezes, após o aquecimento, essa dor muscular diminui porque o aumento do fluxo sanguíneo ajuda a lubrificar o tecido e torná-lo mais complacente. Isso é muito típico de tendinites ou sobrecargas musculares iniciais, o que pode ser uma armadilha, pois o corredor acha que está tudo bem e continua o treino.
O famoso “tira-gosto” pós-treino ou lesão real
Precisamos diferenciar a dor tardia do exercício de uma lesão aguda. A dor muscular de início tardio aparece geralmente 24 a 48 horas após um treino intenso ou diferente do habitual. Ela é generalizada no grupo muscular trabalhado, bilateral geralmente, e passa sozinha com alguns dias de repouso relativo ou atividade leve. Isso não é lesão, é adaptação fisiológica.
Já a lesão muscular, como um estiramento, acontece de forma súbita. Você sente uma “pedrada” ou uma fisgada aguda durante a corrida, muitas vezes obrigando a interrupção imediata do exercício. Nesse caso, pode haver inchaço visível e até hematoma nos dias seguintes. A dor de uma lesão muscular real não “esquenta” e melhora durante o treino; pelo contrário, ela se torna incapacitante.
Saber distinguir isso evita pânico desnecessário. Se a dor é difusa, apareceu no dia seguinte e você consegue se movimentar bem apesar do desconforto, provavelmente é apenas o resultado de um bom treino. Mas se a dor é pontual, aguda e impede o movimento natural da corrida, estamos falando de uma lesão tecidual que precisa de reparo e tempo, não de mais carga.
Gatilhos comuns de distensão na corrida
A fadiga é o principal precursor das distensões musculares. Quando o músculo cansa, ele perde a capacidade de absorver energia elástica. Em vez de alongar e recuar como uma mola, ele fica rígido e se rompe sob tensão. Isso acontece muito no final de provas longas ou em treinos de tiro, onde a velocidade exige contrações rápidas e violentas.
O desequilíbrio muscular é outro fator crítico. Se o seu quadríceps (frente da coxa) é muito mais forte que seus isquiotibiais (trás da coxa), essa disparidade gera uma guerra mecânica no joelho e no quadril. O músculo mais fraco acaba sofrendo a sobrecarga para tentar acompanhar o ritmo do mais forte. Na corrida, a cadeia posterior costuma ser negligenciada, tornando-se o elo fraco da corrente.
A desidratação e a falta de eletrólitos também alteram o ambiente químico do músculo, facilitando cãibras e contraturas severas que podem evoluir para lesões. O músculo precisa de água e sais minerais para realizar a troca química que gera a contração. Sem isso, ele entra em colapso funcional, ficando suscetível a rasgos nas fibras mesmo em esforços que normalmente seriam toleráveis.
Reconhecendo a compressão nervosa
Sensações de choque e formigamento
A dor nervosa tem uma personalidade completamente diferente. Ela é muitas vezes descrita como elétrica, aguda e penetrante. Diferente da dor muscular que é um “peso”, a dor neural é ativa e irritante. Pacientes frequentemente relatam parestesias, que são sensações anormais como formigamento, agulhadas ou a sensação de que há formigas andando pela perna.
Esses sintomas acontecem porque o nervo está sofrendo isquemia (falta de sangue) ou compressão mecânica direta. Isso altera a transmissão do impulso nervoso. É como pisar em uma mangueira de jardim: a água (informação) sai com fluxo alterado. Na corrida, isso pode começar como um leve formigamento no pé ou na panturrilha que aumenta conforme a distância percorrida avança.
Outro sinal distintivo é a sensação de queimadura. Não é aquele ardor do ácido lático acumulado no músculo, é uma queimação que parece estar na pele ou correndo por dentro da perna como um fio quente. Se você sente isso, dificilmente é apenas uma questão muscular. O sistema nervoso está gritando que há algo bloqueando seu funcionamento normal.
A dor que caminha e irradia
A característica mais marcante da compressão nervosa, especialmente do ciático, é a radiação. A dor não fica parada. Ela pode começar na lombar ou no glúteo e descer pela coxa, chegar ao joelho ou ir até o dedão do pé. Ela segue um trajeto específico, desenhando uma linha de dor pela perna. Isso ocorre porque a compressão na origem do nervo afeta toda a área que ele inerva.
Na corrida, você pode sentir que a dor muda de lugar. Ora está no glúteo, ora na panturrilha. Isso confunde o corredor, que acha que está com várias lesões musculares diferentes, quando na verdade é a mesma raiz nervosa emitindo sinais de alerta em pontos distintos do seu trajeto. É o fenômeno da dor referida, onde o problema está na origem (coluna ou quadril), mas o sintoma aparece lá no pé.
Testes de alongamento neural costumam piorar essa dor. Se você tenta alongar a perna esticada e sente que a dor corre como um choque até o pé, isso é um sinal positivo para tensão neural. O alongamento muscular convencional alivia o músculo, mas irrita o nervo comprimido, pois você está esticando uma estrutura que já está sob tensão máxima e sem elasticidade no momento.
Perda de força e alterações de sensibilidade
Em casos mais avançados de compressão nervosa, a dor vem acompanhada de déficits motores. Você pode sentir que a perna está “boba” ou que não tem força para fazer a impulsão na corrida. O pé pode bater no chão com mais força porque você perdeu o controle fino do movimento, ou pode haver dificuldade em ficar na ponta do pé. Isso é sério e indica que a condução nervosa está comprometida a ponto de afetar a ativação muscular.
Alterações de sensibilidade na pele também são comuns. Você pode passar a mão na perna e sentir a região anestesiada ou, pelo contrário, hipersensível ao toque, onde até o tecido da roupa incomoda. Isso é chamado de alodínia. Essas alterações sensoriais são bandeiras vermelhas que indicam que o nervo está sofrendo e que a lesão está progredindo.
Ignorar a perda de força na corrida é perigoso porque altera drasticamente sua biomecânica, sobrecarregando outras articulações e podendo causar lesões traumáticas, como torções ou fraturas por estresse. Se sua perna falha ou você não sente o pé tocar o chão direito, você deve parar de correr imediatamente e procurar ajuda profissional.
O grande vilão: Síndrome do Piriforme vs. Hérnia
Quando o músculo aperta o nervo
A Síndrome do Piriforme é uma condição clássica em corredores, onde o músculo piriforme, localizado profundamente no glúteo, fica hipertrofiado ou espasmado e comprime o nervo ciático que passa logo abaixo dele. É uma “falsa ciática”, pois o problema não está na coluna, mas sim no meio do caminho. A dor costuma ser concentrada no meio da nádega e pode irradiar para a parte posterior da coxa, mas raramente passa do joelho.
Isso acontece muito em corredores que têm glúteos fracos e usam o piriforme excessivamente para estabilizar o quadril. O músculo fadiga, contrai e pinça o nervo. A dor piora ao ficar muito tempo sentado, subir escadas ou em treinos com subidas, onde a exigência do glúteo é maior. É uma dor chata, profunda, que parece estar “dentro do osso”.
O tratamento aqui é focado em soltar esse músculo. Diferente da hérnia, onde a origem é vertebral, na síndrome do piriforme, se relaxarmos a musculatura glútea e corrigirmos a mecânica do quadril, o nervo é liberado e os sintomas desaparecem. É um problema mecânico muscular com consequência neurológica.
A origem na coluna vertebral
Já a hérnia de disco ou protusão discal é um problema na “caixa de fusíveis”. O disco intervertebral na coluna lombar sai do lugar e comprime a raiz do nervo logo na saída da medula. Nesse caso, a dor na corrida costuma ser agravada pelo impacto vertical, que comprime a coluna. A dor irradia de forma mais agressiva, chegando muitas vezes até o pé.
Corredores com hérnia ativa frequentemente relatam dor ao tossir, espirrar ou fazer força no banheiro (manobra de Valsalva), pois isso aumenta a pressão interna na coluna. A rigidez matinal na lombar é intensa e pode haver desvios posturais visíveis, como o tronco inclinado para um lado para fugir da dor.
A diferenciação é crucial porque o manejo é oposto. Enquanto na síndrome do piriforme podemos trabalhar a região glútea com mais vigor, na hérnia aguda precisamos proteger a coluna e evitar movimentos de flexão e rotação excessivos. Correr com uma hérnia aguda inflamada é altamente contraindicado, enquanto na síndrome do piriforme, às vezes, é possível manter trotes leves com ajustes.
Testes simples de diferenciação
Existem manobras que fazemos no consultório, mas que você pode perceber em casa. Se você sentar em uma cadeira e esticar a perna dolorida levantando o pé, e isso reproduzir a dor lá nas costas ou um choque na perna (Teste de Slump ou Lasègue), a chance de ser origem neural e vertebral é grande. Se você cruzar a perna (fazendo um 4) e a dor for pontual no bumbum, a chance de ser piriforme aumenta.
Outro indicativo é a resposta ao movimento. Se mexer a coluna lombar (dobrar para frente ou para trás) altera a dor na perna, a origem provavelmente é a coluna. Se a coluna movimenta livremente sem dor, mas mexer o quadril dói, o problema tende a ser muscular ou articular no quadril.
Claro, esses testes são indicativos. O corpo humano é complexo e muitas vezes temos quadros mistos: uma coluna rígida que sobrecarrega o quadril, gerando tensão no piriforme. Por isso a avaliação de um fisioterapeuta é insubstituível para fechar o diagnóstico funcional e traçar a rota de tratamento.
Fatores de risco invisíveis no seu treino
O perigo do aumento abrupto de volume
Um dos erros mais comuns que vejo é a violação da regra dos 10%. Corredores entusiasmados aumentam a quilometragem semanal muito rapidamente. O sistema cardiorrespiratório evolui rápido, você sente que tem fôlego, mas suas estruturas de suporte (tendões, ligamentos e fáscias) demoram mais para se adaptar. Esse descompasso gera microtraumas acumulativos.
Quando você dobra o volume de treino de uma semana para outra, você não dá tempo para o sistema nervoso se recalibrar e para os tecidos se repararem. O nervo ciático, por exemplo, pode ficar irritado simplesmente pelo aumento da repetição do movimento de flexão e extensão, sem que haja uma lesão muscular prévia. É uma neurite por fricção excessiva.
O descanso é quando você melhora. O treino é apenas o estímulo. Se você retira o descanso, você retira a evolução e convida a lesão. Respeitar a progressão de volume é a ferramenta preventiva mais barata e eficiente que existe. Paciência é uma virtude essencial para quem quer correr a vida toda.
A influência do calçado e da pisada
Tênis de corrida não corrige biomecânica ruim, mas tênis errado pode atrapalhar uma biomecânica boa. Um calçado muito gasto perde a capacidade de amortecimento e estabilidade, alterando a forma como seu pé interage com o solo. Isso gera uma reação em cadeia ascendente que vai afetar joelho, quadril e coluna lombar.
Se você usa um tênis muito rígido e tem um pé rígido, o impacto sobe seco para a coluna. Se você usa um tênis muito instável e tem frouxidão ligamentar, seus músculos estabilizadores entram em fadiga precoce. Essa fadiga leva a contraturas que, como vimos, podem comprimir nervos. Trocar o tênis regularmente e escolher um modelo adequado ao seu tipo de pé e terreno é fundamental.
Não caia no marketing do “tênis mágico”. O melhor tênis é aquele que você coloca e esquece que está usando. Se o tênis incomoda ou muda seu jeito natural de correr, ele é um fator de risco. O conforto é o melhor indicador científico para prevenção de lesões relacionado ao calçado que temos hoje.
O core fraco e a estabilidade pélvica
Muitos corredores só querem correr e esquecem de fortalecer. O “core” não é só abdômen tanquinho. É um cilindro de estabilidade que envolve diafragma,soalho pélvico, multífidos e transverso do abdômen. Se esse centro de força é fraco, a pelve fica solta. Uma pelve instável é o pesadelo do nervo ciático.
A cada passo, sua coluna lombar sofre forças de torção. Se o core não segura essas forças, elas são transmitidas para os discos intervertebrais e raízes nervosas. O fortalecimento de core para corredores não deve ser feito apenas deitado no chão, mas em posições funcionais que imitem a carga da corrida, desafiando a estabilidade rotacional.
Um glúteo médio fraco também faz a pelve “dançar”. Isso coloca o músculo piriforme em sobrecarga constante, levando à síndrome que discutimos. Fortalecer o quadril e o tronco é, na verdade, proteger seus nervos e garantir que a força das pernas seja usada para propulsão, e não desperdiçada tentando equilibrar o corpo.
Estratégias de prevenção e manutenção
A importância da mobilidade neural
Você provavelmente alonga músculos, mas você “alonga” seus nervos? A mobilidade neural, ou neurodinâmica, é um conjunto de exercícios que visa restaurar o deslizamento natural dos nervos entre os tecidos. Nervos saudáveis deslizam; nervos doentes ficam aderidos. Exercícios de “flossing” (fio dental neural) ajudam a soltar essas aderências.
Isso não é alongamento estático. É um movimento rítmico onde movemos duas articulações para puxar e soltar o nervo, como se estivéssemos passando fio dental por dentro da perna. Isso melhora a oxigenação do nervo e reduz a sensibilidade, prevenindo aquelas dores ciáticas que aparecem do nada.
Incorporar rotinas de mobilidade neural no aquecimento ou desaquecimento é um divisor de águas para quem tem histórico de ciatalgia. Mantém o sistema de fiação solto e capaz de suportar a amplitude de movimento da corrida sem gerar tensão excessiva nas raízes nervosas.
Fortalecimento específico para corredores
Não adianta fazer apenas cadeira extensora na academia. O corredor precisa de exercícios uni-podais (uma perna só), pois a corrida é uma sucessão de saltos em uma perna. Agachamentos unilaterais, levantamento terra unilateral e exercícios de step são fundamentais para treinar o equilíbrio e a força específica.
O foco deve ser na cadeia posterior: glúteos e isquiotibiais fortes protegem o joelho e a lombar. Exercícios como a “Ponte” e suas variações, o “Stiff” e a “Elevação Pélvica” (Hip Thrust) são obrigatórios na planilha de força de quem corre. Músculos fortes absorvem o impacto antes que ele chegue aos ossos e nervos.
A pliometria, que são os saltos controlados, também prepara o tendão e o músculo para a velocidade de contração da corrida. Mas cuidado, ela deve ser introduzida gradualmente. Um corpo forte é um corpo difícil de quebrar. O fortalecimento é a sua armadura contra a compressão nervosa e a distensão muscular.
O descanso como parte do treinamento
O sono é o melhor anabolizante natural e o melhor anti-inflamatório que existe. Durante o sono profundo, liberamos hormônios de crescimento que reparam as fibras musculares e o tecido neural. Dormir mal aumenta a percepção de dor e a irritabilidade do sistema nervoso central.
Além do sono, o “descanso ativo” é importante. Dias de caminhada leve, natação ou bicicleta ajudam a lavar o ácido lático e a manter a mobilidade sem o impacto da corrida. O corpo precisa de variação. Fazer sempre o mesmo movimento, na mesma intensidade, é a receita para lesão por esforço repetitivo (overuse).
Escute seu corpo. Se você acorda cansado, com a frequência cardíaca de repouso alta e sem vontade de treinar, talvez seja melhor pular o treino ou fazer algo regenerativo. Perder um dia de treino para prevenir uma lesão é inteligência; insistir e ficar meses parado tratando uma hérnia é teimosia.
Terapias aplicadas e tratamento
No meu consultório, a abordagem para diferenciar e tratar essas dores é multifatorial. Não existe bala de prata, existe raciocínio clínico. Quando identificamos que a dor é muscular, o foco é regeneração tecidual e realinhamento das fibras. Utilizamos muito a Liberação Miofascial, que pode ser manual ou instrumental. O objetivo é soltar os “nós” (pontos-gatilho) que encurtam o músculo e impedem seu funcionamento pleno. Essa terapia dói um pouco na hora, “aquela dor boa”, mas traz um alívio imediato na amplitude de movimento. Junto com isso, o Dry Needling (agulhamento a seco) é fantástico para desativar pontos de tensão profundos que a mão não alcança, resetando o tônus muscular.
Agora, se o diagnóstico aponta para compressão nervosa, a mão pesa diferente. Massagem profunda em cima de nervo irritado é proibida, pois piora a inflamação. Aqui entra a Neurodinâmica Clínica. Eu guio o movimento da perna do paciente de forma passiva para bombear fluidos ao redor do nervo e soltar as interfaces mecânicas onde ele está preso. É um trabalho de precisão. O paciente aprende exercícios para fazer em casa, mantendo a liberdade que ganhamos na sessão. O alívio da dor neural com a mobilidade correta costuma ser surpreendente e rápido, devolvendo a confiança ao corredor.
Por fim, utilizamos recursos de Eletroterapia e Fotobiomodulação (Laser/LED). O Laser de alta potência é um excelente aliado tanto para acelerar a cicatrização de um estiramento muscular quanto para reduzir a inflamação de uma raiz nervosa (efeito analgésico e anti-inflamatório). A corrente elétrica pode ser usada para analgesia ou para reativar músculos que ficaram inibidos pela dor. Mas lembre-se: as máquinas são coadjuvantes. O que cura de verdade é o movimento correto, a carga ajustada e a educação do paciente sobre como usar seu corpo. O tratamento não termina na maca, ele continua na sua rotina de aquecimento, no fortalecimento e na escolha consciente de cada treino.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”