Sabe aquela sensação de que seus joelhos estão reclamando mais do que seus quadríceps depois de um treino de pernas pesado? Pois é, você não está sozinho nessa. Eu atendo diariamente pessoas que chegam ao consultório jurando que o agachamento é o vilão da história, que ele “acaba com o joelho”. Mas vou te contar um segredo logo de cara: o problema quase nunca é o exercício em si, mas como você o executa quando ninguém está olhando de perto.
O agachamento é, biomecanicamente, um dos movimentos mais naturais e poderosos que o ser humano pode fazer.[1] Nós nascemos sabendo agachar.[1] Olhe para um bebê pegando um brinquedo no chão: postura perfeita. Mas, ao longo dos anos, com cadeiras de escritório, sedentarismo e sapatos inadequados, nós “desaprendemos” esse padrão.[1] E quando colocamos uma barra pesada nas costas sem ter essa base sólida, o elo mais fraco da corrente geralmente paga o preço.[1] Infelizmente, esse elo costuma ser a sua articulação femorotibial — o seu joelho.[1][2]
Hoje, vamos ter uma conversa franca, de fisioterapeuta para paciente, sem aquele “mediquês” complicado. Quero que você entenda exatamente onde está errando e, principalmente, como corrigir isso antes que uma lesão te tire dos treinos por meses. Prepare-se para olhar para o seu treino de pernas com outros olhos a partir de agora.
1. O Valgo Dinâmico (Quando os Joelhos se “Beijam”)
Este é, sem dúvida, o erro mais clássico e destrutivo que vejo nas academias. O valgo dinâmico acontece quando, durante a descida ou (pior ainda) na subida do agachamento, seus joelhos colapsam para dentro, aproximando-se um do outro.[1][3] Imagine que suas pernas formam um “X”. Isso é um pesadelo para os seus ligamentos, especialmente o ligamento colateral medial e o ligamento cruzado anterior.[1]
O que acontece lá dentro é uma distribuição de forças totalmente desigual.[1] Quando o joelho entra, a patela (aquele ossinho redondo na frente do joelho) é puxada lateralmente para fora do trilho dela.[1] Isso cria um atrito absurdo na cartilagem, como se fosse um trem descarrilando levemente a cada repetição.[1] Com o tempo, isso evolui para uma condromalácia patelar ou dores crônicas que parecem agulhadas na frente do joelho.[1]
A correção aqui não é apenas “jogar o joelho para fora”. Você precisa ativar a musculatura que faz essa rotação externa.[1][4] Pense que, ao agachar, você quer “rasgar o chão” com os pés, empurrando-os para as laterais sem tirá-los do lugar.[1] Isso acorda o glúteo médio, que é o principal estabilizador do seu quadril, impedindo que o joelho caia para dentro.[1]
2. O Calcanhar Voador (Falta de Mobilidade de Tornozelo)
Você já percebeu se o seu calcanhar descola do chão quando você chega no ponto mais baixo do agachamento? Se a resposta for sim, pare tudo agora. Quando o calcanhar levanta, você transfere quase toda a carga da barra, que deveria estar distribuída em toda a cadeia posterior (glúteos e posteriores de coxa), diretamente para a patela e o tendão patelar.[1] É uma sobrecarga mecânica brutal.[1]
Geralmente, isso é culpa de um tornozelo rígido.[1] Se a sua articulação do tornozelo não tem flexibilidade para dobrar (o que chamamos de dorsiflexão), o corpo busca compensar em algum lugar para você não cair de costas.[1] A solução que seu cérebro encontra é levantar o calcanhar e jogar os joelhos excessivamente para frente.[1] O resultado é uma tensão cisalhante no joelho que, a longo prazo, pode levar a tendinites chato de tratar.[1]
Para resolver isso, você precisa trabalhar a mobilidade do tornozelo isoladamente antes do treino.[1] Mas, durante o agachamento, uma dica de ouro é focar em pressionar o calcanhar contra o solo como se quisesse afundá-lo no chão.[1] Use sapatos de solado plano ou faça descalço para sentir essa estabilidade.[1] Tênis de corrida com muito amortecimento (aqueles com “molas” ou muito macios) são instáveis e pioram esse cenário.[1]
3. O “Butt Wink” (A Retroversão Pélvica)[1]
Esse erro é um pouco mais sutil, mas igualmente perigoso. O “Butt Wink”, ou “piscadela de bumbum”, ocorre quando você desce fundo no agachamento e, lá no finalzinho, sua lombar arredonda e o bumbum “entra” para baixo.[1] Visualmente, parece que a sua coluna perdeu a curvatura natural e virou uma letra “C”.[1] Embora a preocupação imediata aqui seja a hérnia de disco na lombar, isso afeta diretamente os joelhos também.[1]
Quando a pélvis faz essa retroversão, você desativa completamente os glúteos e os isquiotibiais (posteriores da coxa).[1] Lembre-se: o joelho precisa desses músculos puxando para trás para manter a articulação estável.[1] Sem essa tensão posterior, a tíbia (osso da canela) fica solta para deslizar para frente, sobrecarregando os ligamentos cruzados.[1] É uma cadeia de eventos: a coluna falha, o quadril desliga e o joelho sofre a consequência.[1]
Muitas vezes, isso acontece porque a pessoa quer agachar “bunda no chão” (profundidade máxima) sem ter a anatomia ou a mobilidade para isso.[1] Não existe uma regra que obrigue todo mundo a agachar até o calcanhar.[1] Agache apenas até o ponto onde você consegue manter a coluna neutra e empinada.[1] Se passou desse ponto e a pélvis girou, você foi longe demais para o seu nível atual de mobilidade.[1]
4. Avanço Excessivo do Joelho (Sem Controle)
Aqui precisamos ter cuidado, pois existe um mito antigo de que “o joelho nunca pode passar a ponta do pé”.[1] Isso não é verdade absoluta. Em agachamentos profundos e saudáveis, o joelho pode passar levemente.[1] O problema é quando o avanço do joelho é o primeiro movimento que você faz. Se você começa o agachamento jogando os joelhos para frente antes de jogar o quadril para trás, você está “pendurando” o peso do corpo nos seus ligamentos patelares.[1]
Imagine o seu joelho como uma dobradiça. Se você força a dobradiça para frente sem usar o suporte da parede (que seriam seus quadris e glúteos), a dobradiça vai ceder.[1] O movimento correto deve começar pelo quadril.[1] Pense em sentar numa cadeira que está longe, atrás de você. O quadril vai para trás primeiro, e os joelhos dobram como consequência.[1]
Esse erro cria uma pressão compressiva enorme na articulação patelofemoral.[1] Se você já tem aquele barulhinho de “areia” no joelho (creptação), iniciar o movimento pelos joelhos vai fazer isso piorar drasticamente.[1] O foco mental deve estar sempre em “sentar para trás”, e não em “dobrar para baixo”.[1] Essa pequena mudança de intenção altera completamente a ativação muscular, tirando o estresse do joelho e jogando para a musculatura forte da coxa e glúteo.[1]
5. Falta de Ativação do Core e Respiração Inadequada[1]
Pode parecer estranho falar de abdômen quando o assunto é dor no joelho, mas na fisioterapia tudo está conectado.[1] Se o seu tronco está mole como uma gelatina durante o agachamento, a carga da barra vai oscilar.[1] Essa instabilidade desce pela coluna, passa pelo quadril e estoura onde? Exatamente, no joelho.[1][2][5][6] O joelho é uma articulação que odeia instabilidade; ele precisa de um trilho firme para funcionar.[1]
Muitas pessoas respiram errado, enchendo o peito de ar.[1] No agachamento pesado, você precisa usar a manobra de Bracing.[1] Isso significa encher a barriga de ar (respiração diafragmática) e travar os músculos abdominais como se fosse levar um soco no estômago.[1] Isso cria uma pressão intra-abdominal que transforma seu tronco em um bloco sólido de concreto.[1]
Quando seu core está firme, o quadril se move com mais precisão.[1] Quando o core está solto, o corpo faz micro-ajustes de equilíbrio durante a descida e subida.[1] Esses micro-ajustes geram forças de torção no joelho.[1] Sabe aquela “sambadinha” que o joelho dá quando você está subindo com muito peso? Muitas vezes, a culpa não é da perna fraca, é do core que parou de estabilizar o movimento.[1]
A Biomecânica Oculta (O que seus olhos não veem)[1]
Agora que cobrimos o básico, quero aprofundar em coisas que muitas vezes passam despercebidas até por treinadores, mas que nós fisioterapeutas pegamos na avaliação clínica. São detalhes invisíveis a olho nu, mas que fazem toda a diferença na saúde articular a longo prazo.[1]
A Amnésia do Glúteo Médio[1]
Você pode ter as coxas mais fortes da academia e ainda assim ter dor no joelho.[1] Isso acontece por causa de um fenômeno que chamamos carinhosamente de “amnésia glútea”.[1] O glúteo médio é um músculo pequeno na lateral do quadril, responsável por impedir que a perna rode para dentro.[1] Devido ao nosso estilo de vida sentado, esse músculo costuma ficar “dormindo”, inativo neurologicamente.[1]
Quando você agacha, seu cérebro recruta o quadríceps (coxa) e o glúteo máximo (bumbum grande), mas “esquece” de ativar o glúteo médio.[1] O resultado é que, mesmo sem um valgo dinâmico visualmente grotesco, existe uma micro-instabilidade rotacional.[1] O fêmur roda internamente milímetros a cada repetição, moendo a cartilagem da patela silenciosamente.[1]
Para “acordar” esse músculo, recomendo fazer ativações isoladas antes do agachamento.[1] Exercícios como “ostra” (clam shell) ou passadas laterais com elástico (mini-band) ao redor dos joelhos são essenciais.[1] Você precisa sentir aquela queimadura na lateral do quadril antes de entrar embaixo da barra.[1] Isso manda um sinal para o sistema nervoso: “Ei, estou aqui, me use durante o movimento pesado”.[1]
A Rigidez Silenciosa do Quadril[1]
Falamos do tornozelo, mas o quadril também pode ser um vilão silencioso.[1] O agachamento exige uma boa capacidade de rotação externa e flexão do quadril.[1] Se a cápsula articular do seu quadril é rígida (comum em quem passa o dia sentado em 90 graus), o fêmur chega num ponto onde ele “bate” no osso da bacia e não consegue mais girar.[1]
O corpo, que é uma máquina de compensação, vai buscar esse movimento que falta no quadril lá no joelho ou na lombar.[1] O joelho, que é uma articulação feita para dobrar e esticar (dobradiça), é forçado a realizar torções para as quais não foi projetado.[1] É como tentar abrir uma porta forçando as dobradiças para o lado errado; uma hora o parafuso espana.[1]
Trabalhar a mobilidade de quadril, especialmente a rotação interna e externa, libera o movimento.[1] Quando o quadril está solto e lubrificado, o joelho pode se concentrar apenas em sua função primária: estabilidade.[1] Teste sua rotação de quadril deitado no chão; se sentir travado ou com dor na virilha, seu agachamento está comprometendo seus joelhos.[1]
O Controle Motor Excêntrico (A Descida)[1]
A fase excêntrica é a descida do agachamento, quando você está segurando o peso contra a gravidade.[1] É aqui que ocorrem a maioria das microlesões.[1] Vejo muita gente que simplesmente “despenca” na descida e usa o rebote (o impacto no fundo) para subir. Isso é um crime contra seus meniscos.[1]
O controle excêntrico exige que seus músculos estejam sob tensão constante enquanto se alongam.[1] Se você desce rápido demais, os músculos relaxam por uma fração de segundo.[1] Nesse momento, a carga deixa de ser sustentada pelas fibras musculares e passa a ser sustentada pelos ligamentos e meniscos.[1] É um impacto “seco” dentro da articulação.[1]
Você precisa aprender a descer “puxando” o corpo para baixo, e não apenas se deixando cair.[1] Imagine que o ar é denso, como se você estivesse agachando dentro de uma piscina cheia de mel. Isso obriga a musculatura a estar 100% ativa em cada milímetro da descida, protegendo a estrutura articular interna de impactos desnecessários.[1]
Sinais de Alerta Antes da Lesão Grave[1]
O corpo humano é inteligente e sempre avisa antes de quebrar de vez.[1] O problema é que, na empolgação do treino e no desejo de resultados estéticos, tendemos a ignorar esses avisos ou mascará-los com analgésicos.[1] Como fisioterapeuta, peço que você preste atenção a estes três sinais vermelhos.
A Creptação (Barulhos de Areia)[1][2][3][7][8]
Ouvir estalos no joelho eventualmente é normal.[1] Mas sentir uma sensação de “areia” ou vidro moído atrás da patela ao agachar não é.[1] Isso se chama crepitação e geralmente indica que a superfície da sua cartilagem já não está mais lisa como uma bola de bilhar; ela está ficando rugosa, como uma lixa.[1]
Se essa crepitação vem acompanhada de dor, mesmo que leve, é sinal de condromalácia ativa.[1] Continuar agachando pesado ignorando esse barulho vai acelerar o desgaste.[1] Nesse estágio, você não precisa parar de treinar, mas precisa urgentemente ajustar a angulação, a carga e fortalecer os estabilizadores para que a patela volte a deslizar suavemente, sem atrito.[1]
O Inchaço Pós-Treino (Sinovite)[1]
Você termina o treino de perna e, algumas horas depois ou no dia seguinte, percebe que o joelho está um pouco mais “gordinho”, perdendo os contornos ósseos naturais.[1] Isso é derrame articular, ou sinovite.[1] Significa que a membrana que reveste o joelho ficou irritada com o esforço e produziu excesso de líquido sinovial para tentar proteger a área.[1]
Um joelho que incha recorrentemente após o treino está gritando por socorro. Ele está dizendo que a carga ou o volume do treino excedeu a capacidade fisiológica dos seus tecidos de suportar estresse.[1] Ignorar a sinovite leva a um ambiente inflamatório crônico que degrada a cartilagem muito mais rápido.[1] Se inchou, gelo e repouso são o mínimo, mas a investigação da causa mecânica é obrigatória.[1]
Dor na Face Anterior (Condromalácia e Tendinite)[1][7]
A dor localizada bem na frente do joelho, logo abaixo da “bolacha” (patela) ou no tendão que liga a patela à canela, é clássica de erro de execução.[1] Diferente da dor muscular do treino, que é difusa e aparece no dia seguinte, essa dor é pontual e costuma aparecer durante o treino ou logo ao subir escadas.[1]
Isso geralmente indica uma sobrecarga do mecanismo extensor.[1] Pode ser uma tendinopatia patelar (Joelho de Saltador) ou inflamação da gordura de Hoffa (uma gordurinha que fica atrás do tendão).[1] É um sinal claro de que você está “pendurando” a carga nos tecidos moles em vez de usar a musculatura.[1] Insistir na dor aqui pode levar a rupturas parciais do tendão, o que é um pesadelo reabilitativo.[1]
Terapias Aplicadas e O Caminho da Cura[1]
Se você se identificou com algum desses erros ou sintomas, a boa notícia é que quase tudo isso é reversível com a abordagem correta.[1] Na fisioterapia moderna, não mandamos mais o paciente parar de agachar para sempre (a menos em casos cirúrgicos agudos).[1] Nós usamos o movimento como remédio.[1]
A primeira linha de tratamento que costumo aplicar é a Liberação Miofascial.[1] Soltar a tensão excessiva no quadríceps (especialmente o vasto lateral) e na banda iliotibial alivia imediatamente a tração na patela.[1] Muitas vezes, o joelho dói porque o músculo da coxa está tão tenso que puxa a patela contra o fêmur o tempo todo, mesmo em repouso.[1]
Outra ferramenta fantástica é o Dry Needling (Agulhamento a Seco).[1] Usamos agulhas finas para desativar pontos-gatilho (nós musculares) no glúteo médio e no tensor da fáscia lata.[1] Isso “reseta” o músculo, permitindo que ele volte a contrair no tempo certo e estabilize o quadril, corrigindo aquele valgo dinâmico que falamos lá no início.[1]
Para casos de dor crônica e desgaste, a Fotobiomodulação (Laser e LED) é excelente para controlar a inflamação interna e estimular a regeneração celular sem precisar de remédios.[1] Mas lembre-se: o laser tira a dor, mas o que cura é o exercício corretivo.[1]
O pilar final do tratamento é a Reeducação do Movimento.[1] No consultório, fazemos o paciente agachar com biofeedback — usando espelhos, elásticos puxando o joelho para dentro (para forçar o paciente a empurrar para fora) e bases instáveis para acordar a propriocepção.[1] O objetivo é reprogramar o cérebro para que o agachamento perfeito se torne automático, não algo que você precise pensar a cada segundo.[1]
Cuide dos seus joelhos. Eles são a sua base de sustentação para a vida toda.[1] Corrigir esses erros hoje vai garantir que você continue treinando pesado, forte e sem dor pelos próximos 20, 30 ou 40 anos.[1] Treino inteligente é treino longevo.[1] Vamos agachar direito?

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”